segunda-feira, 18 de maio de 2026

INEMPREGÁVEL -

 


tem algo bonito
em entrevistas de emprego depois dos 60

é quase teatro experimental

você coloca a melhor camisa
passa perfume barato
alisa o cabelo como quem arruma
as flores num caixão
e vai

entra numa sala gelada
onde um garoto de 24 anos
com barba de lenhador vegano
e currículo de curso online
olha pra você
como se você tivesse chegado montado
num dinossauro.

vejo que o senhor tem experiência.

experiência…

essa palavra que eles usam
como quem fala de uma doença terminal

você trabalhou quarenta anos
não matou ninguém
não roubou banco
acordou cedo
engoliu chefe burro
bateu ponto
pagou imposto
e agora senta diante de um idiota
que usa tênis sem meia
e diz “mindset
como se tivesse descoberto o fogo

a verdade?

eles não querem experiência

experiência lembra tempo
tempo lembra velhice
velhice lembra morte

empresa nenhuma quer contratar
alguém que faz o estagiário lembrar
que um dia ele também vai virar
uma ameixa seca
tomando remédio pra pressão

mas talvez não seja só a idade

talvez seja sua cara mesmo
essa cara de quem já entendeu tudo
e gente que entendeu tudo
é péssima pra reuniões motivacionais

você não sorri na hora certa
não vibra com “metas agressivas
não chama escravidão de
desafio profissional

isso assusta

o mercado gosta de gente adestrável
gente que fala “show!
quando recebe mais trabalho
e menos salário

gente que aceita humilhação
como quem ganha cupom de pizza

você não

você tem aquele olhar perigoso
de quem já viu o truque por trás do mágico

e é pior se você lê

pior ainda se escreve

isso é imperdoável

o RH sente o cheiro de pensamento
como cachorro sente medo

eles percebem rápido
que você não vai participar
do amigo oculto corporativo
com brilho nos olhos

que você não vai usar crachá
como se fosse medalha de guerra

que você sabe
que “somos uma família
significa apenas
vamos destruir sua coluna
e sua alma
antes do natal

então recusam você

educadamente

sempre educadamente

porque crueldade moderna
usa powerpoint, IA
e café gourmet

no fim
você volta pra casa
olha o espelho
acende um cigarro imaginário
porque até fumar ficou caro
e pensa:

talvez eu devesse ter sido mais burro

mas não foi

azar o deles

e, principalmente, o seu


Walter Biancardine



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