quarta-feira, 20 de maio de 2026

DIAS DE CHUVA, DIAS DE PAZ -

 


Chove, aqui. 
A chuva me marca desde criança. Bons momentos, maus momentos. 
Do cheiro de gasolina em uma casinha onde guardávamos motonetas, na minha infância, à simples contemplação da grama encharcada – triste por não poder sair, feliz por me sentir protegido. 
Sempre há grama em lembranças antigas. 
Nunca pensei nisso antes. 

A chuva faz pensar essas bobagens. 
Ou verdades. 
Às vezes são a mesma coisa.

Também me vem o sentimento de, já mais velho, conversar com amigos em varandas ou mesmo bares com mesas na calçada e abrigadas por marquises. 

Conversa fiada, 
sempre mais lenta e calma que em dias de sol. 
Um vagar no ar, ouvir gente respirar fundo olhando pro nada…  
demora em responder…
Conversas que não precisavam chegar a lugar nenhum. E talvez por isso fossem boas.

Em dias chuvosos os homens desaceleram.
Olham mais.
Respondem depois.
Respiram fundo antes de terminar frases simples.
Como se houvesse uma espécie de acordo silencioso entre o tempo e a água:
hoje ninguém precisa correr.

Não raro, um café vinha no lugar da cerveja. Um cigarro amigo, sempre parceiro no nada, e eu olhando para sua fumaça –
 
sem nada pensar, 
nada temer 
ou ansiar. 

Adultos quase nunca conseguem não pensar.
Mas às vezes eu conseguia, olhando a fumaça, ouvindo chuva,

sendo apenas um homem parado
sem defender passado
nem organizar futuro.

Mesmo viagens em motocicletas, na chuva, eram apavorantes e fascinantes ao mesmo tempo. 

As gotas em minha cara se transformavam em pequenas agulhas me picando, 
e os cheiros da estrada vinham mais fortes. 

Mas hoje, tanto tempo passado, 
me volta a lembrança a velha varanda, 
gotas gordas pingando das telhas no gramado ensopado, 
e minha Nana trazendo um café…  quentinho…  só para mim. 

O melhor de tudo: ela senta ao meu lado e me aquece. 
Talvez não pensemos em nada.
Talvez estejamos apenas existindo.
Expressão estranha.

E ali ficamos, olhando o frio, contando gotas e pensando em algo tão além que nunca sabemos o que é.

Hoje chove. Estou aqui. E não há tristeza nisso.

Esperando.

Ainda feliz
por estar protegido.


Walter Biancardine




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