Acordei com o despertador. Nenhuma vontade de levantar da cama pela manhã.
Mas levantei.
Café horrível, fiapo de água lavando o rosto.
Fui trabalhar.
Às vezes a alegria alheia me contagia.
Chupei sorrisos dos outros, ri risadas que não eram minhas e não é que melhorei?
No restaurante tem música ao vivo e hoje foi dia de bossa nova, MPB e fiquei preocupado. Algumas bossas – ao menos pra mim – não são novas há anos.
O casal tempera os pratos da casa com ela cantando e ele ao violão. É bom de ouvir.
Mas eu, egoísta em meus problemas, não decorei o nome deles.
Violonista, guitarrista e baixista afastado dos afazeres por justa causa – punho quebrado – não resisti em vegetar um pouco daquele ambiente que, um dia, já me foi tão familiar – e acabei lembrando da amiga Stella e pedi uma música cantada por sua mãe, Nana Caymmi.
Por alguns minutos voltei ao antigo The House of Rock and Roll, do finado amigo Luís Antônio, onde eu chegava e ele cantava o que eu gostava, por me conhecer bem – overdose de Creedence Clearwater.
Fiquei feliz e comentei com uma colega de trabalho.
Por um desses acasos da vida, ela havia trabalhado no The House, em Búzios, justo nos anos em que eu era assíduo na casa – mas confesso não ter lembrado dela.
Eu não sabia. Uma boa novidade.
As lembranças também me deixaram feliz.
Expediente terminando, povo indo embora e ganhei gorjetas.
A felicidade aumentou, é claro.
Almocei, dei enorme prejuízo no estoque de cervejas e vim, sorridentemente cambaleante, para casa. E ainda feliz.
Cheguei em casa, tirei a roupa, lavei o rosto e tomei um café – ainda horrível.
Entrei nas redes, postei o vídeo da moça cantando e me dei conta de nada mais ter a fazer.
Nem ninguém para conversar. Comentar o dia.
Falar mal de alguém, sei lá.
Ninguém por perto.
Nem longe.
E a tristeza, que me subloca um cômodo na alma, me ofereceu um cigarro.
Amanhã é segunda feira.
Walter Biancardine

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