segunda-feira, 29 de junho de 2026

SUBORNOU-SE A SI MESMO

  


Seu Nélson – o escritor que nunca leu um livro – me contou. Se é conversa fiada, é dele.

Tempos idos, lá pelos anos 60 ou 70, sua esposa tinha uma confecção; ele, uma Kombi. Foram ao Centro da cidade, onde ela compraria tecidos e aviamentos. Enquanto ela fazia as compras, restou a Nélson a missão de encontrar uma vaga. Não encontrou. Parou em fila dupla.

Surgiu um guarda. Os antigos lembrarão da figura: quepe branco, pesando doze arrobas, andar paquidérmico. Advertiu Nélson, ainda dentro da Kombi e pensando na vida:
- A sua pessoa não pode estacionar aí, prejudica o trânsito…
- Sim, seu guarda. É que minha mulher foi ali comprar uns tecidos e o fardo é pesado. Não tem vaga, então fiquei aqui pra ajudar.
- Entendo… mas se a patrulha passar, vai dar “pobrema”…
- Te prometo que, se ela passar, eu tiro o carro daqui.

Ficaram combinados e o mamute fardado continuou sua caminhada.
A mulher de Nélson demorava.
O guarda voltou:
- A sua pessoa vai prejudicar a comunidade… a patrulha vai passar…

Nélson, vivido, se achegou ao guarda e começou a contar dos problemas que sua mulher causava com aquela confecção. O guarda, solidário, começou a segredar os que ele enfrentava com a sua também, até que nosso amigo escritor – que jamais leu um livro – propôs:
- Vamos fazer o seguinte: vamos ali no botequim tomar um café.

Lá chegando, havia uma vitrine lotada de salgados e sanduíches, que imediatamente prenderam os olhos do servidor da Lei. Malandríssimo, nosso escritor convidou:
- Pode escolher o que quiser! Coma o que tiver vontade e pegue uns pra viagem!

Naquele tempo, o "café do guarda" fazia parte da paisagem. Aceitou sem hesitar.

A conversa continuou. Reclamaram da vida, da mulher, do futebol, do Brasil, de tudo. Depois de tanto papo, confidências e até piadas, estavam quase se tornando compadres e só não pediram uma cerveja em respeito à farda.

Ao fim da conversa, o guarda já sobraçava os pacotes quentinhos e gordurosos e viu o português, dono do boteco, trazer a conta para Nélson – que se deu conta de um esquecimento:
- Rapaz… a minha mulher foi comprar as coisas, me pediu o dinheiro e eu dei a carteira pra ela… ela levou tudo, não tenho um tostão!

Silêncio. 

Nélson continuou:
- Paga isso aí que, quando minha mulher voltar, eu te reembolso!

Eram agora compadres, e o Rio era outro.

O guarda pagou seu próprio suborno.




Walter Biancardine




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