terça-feira, 16 de junho de 2026

HOJE

 


Sempre amanhece. E eu sempre tenho de acordar.
Levanto da cama e tomo o café horrível.
Os remédios de velho.
Lavo o rosto no fiapo de água. Gelada.
Mas já não xingo.

Antes eu xingava.
Hoje, nem isso.

Sento ao notebook, o ligo e fico olhando pro nada, enquanto a velha máquina dá a partida.
Olho as redes.
Gente brigando com estranhos.
Gente exibindo felicidades de vitrine.
Fecho tudo.
Em desespero olho meu e-mail. Nada.
E o WhatsApp sequer considero.
Ele teria me avisado.

Estranha tranquilidade sinto pela certeza de que o pior sempre virá.
Abro o Word. Tento escrever.
Sai isso.

Ligeira agonia.
Tamborilo os dedos na mesa. Acendo outro cigarro e olho em volta, como que buscando.
Não há ninguém.
Nem nada.
Esse frio na espinha é o mais perto do desespero que hoje consigo chegar.

Olho de novo pro texto.
Tem que sair algo que preste.
Vamos ver.

Acendo mais um cigarro e tomo outro café.
Horrível.

Ainda tenho toda a merda do dia pela frente.

E ela foi embora.



Walter Biancardine



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