sábado, 13 de junho de 2026

NOTURNO VAZIO

 


À noite fui para o pasto.
Não havia lua. Nem vontade de voltar.

Ventava frio. 
Grilos faziam o concerto desafinado que só eles entendem. 
Parei no meio da vastidão. Sempre me seduziu. 
E fiquei ali respirando fundo. 
Tentando descobrir se o mundo ainda guardava 
alguma surpresa pra mim.

Senti um perfume.
Não de flores.
Sem jardim por ali.

Talvez não fosse lembrança.
Algumas lembranças doem 
antes de perfumar.

Era um cheiro de mulher.
Ou de esperança.
Nessa altura da vida 
já não sei diferenciar.

Abri os braços 
como quem espera um abraço 
atrasado desde que nasci.

Nada.
Só vento.
Mas permaneci ali.

Há algo de antigo nesse gesto de aspirar a noite.
Quase ninguém faz isso.
Hoje cheiram telas, 
notificações, 
estatísticas, 
opiniões alheias.

Eu fui para o pasto e cheirei o vento.
Parece bobagem.
Mas quem sabe?

Talvez os homens não morram 
quando lhes falta amor.
Talvez morram no dia 
em que já não esperem sentir 
do nada
um perfume.



Walter Biancardine



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