À noite fui para o pasto.
Não havia lua. Nem vontade de voltar.
Não havia lua. Nem vontade de voltar.
Ventava frio.
Grilos faziam o concerto desafinado que só eles entendem.
Parei no meio da vastidão. Sempre me seduziu.
E fiquei ali respirando fundo.
Tentando descobrir se o mundo ainda guardava
alguma surpresa pra mim.
Senti um perfume.
Não de flores.
Sem jardim por ali.
Talvez não fosse lembrança.
Algumas lembranças doem
antes de perfumar.
Era um cheiro de mulher.
Ou de esperança.
Nessa altura da vida
já não sei diferenciar.
Abri os braços
como quem espera um abraço
atrasado desde que nasci.
Nada.
Só vento.
Mas permaneci ali.
Há algo de antigo nesse gesto de aspirar a noite.
Quase ninguém faz isso.
Hoje cheiram telas,
notificações,
estatísticas,
opiniões alheias.
Eu fui para o pasto e cheirei o vento.
Parece bobagem.
Mas quem sabe?
Talvez os homens não morram
quando lhes falta amor.
Talvez morram no dia
em que já não esperem sentir
do nada
um perfume.
Walter Biancardine

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