Pegue um quilo de pé na bunda
e escolha bem as partes.
Use cortes ainda latejantes.
e escolha bem as partes.
Use cortes ainda latejantes.
Fatie fino, quase transparente,
como coisa que a gente finge que esqueceu
mas continua guardada na gaveta de frios.
Tempere com ansiedade – pouca, porque estraga o resto.
Prefira angústia no lugar da pimenta, arde mais.
Saudade, essa vai no olho junto com o sal, sem piedade.
Acrescente mal-entendidos picados,
escolhendo aqueles que nasceram pequenos e cresceram tortos
só pra virar briga em dia de chuva.
Unte tudo com solidão,
gordura lenta que não sai nem com água quente,
e deixe cada pedaço bem coberto de desânimo,
banhado em esquecimento na prateleira da vida.
Leve ao forno em fogo máximo de velhice.
Não abra a porta.
Velhice não gosta de ser interrompida.
Asse por 62 anos
ou até que o cheiro pare de doer – o que vier depois.
Sirva frio com uma garrafa de Dor de Corno, safra do dia,
e talheres de memória ruim.
Leia o aviso na embalagem:
não contém cura.
Material reciclado.
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Walter Biancardine

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