Morri há quase dez anos. Em setembro de 2016, num acidente de moto.
Até hoje não o entendi, de tão besta que foi.
Até hoje não o entendi, de tão besta que foi.
Passava por quebra-molas na estrada, devagar, e simplesmente desmaiei.
E quando acordei novamente, o inferno começou.
Já não era mais o mesmo eu.
Creio que perceber-me morto seja o maior lampejo de lucidez que eu tenha conseguido, nesses últimos anos. De lá pra cá, minha vida – chamemo-la assim – desmoronou.
Desci a uma miséria que jamais vivi. Perdi todos os meus poucos bens. Hoje restam um laptop – que é do meu irmão – e uma muda de roupa. E isso é tudo. Nada mais.
Nada.
Perdi a mulher com quem fui casado por quinze anos. E talvez o mesmo deus que a livrou de mim tenha afastado a única mulher que amei depois disso – sim, é um deus protetor.
A poupou.
Olho à volta e não tenho amigos. Um sujeito comum não me quer como colega.
Também olho ao redor e percebo que nenhuma mulher aceitaria um velho, ainda mais agravado pelo fato de ser quem sou – um subproduto de tantas introspecções, delírios filosóficos e teológicos que tomei por virtudes.
Não. Misteriosamente, uma mão invisível me moldou para que me livrasse da armadura, do verniz social.
E hoje me dei conta: não era questão de melhorar mas, sim, de me acordar e aceitar que eu havia morrido naquela tarde de setembro, em 2016.
O que vivo hoje, de tão miserável, mais parece pesadelo. Algo irreal, que facilmente entendo como condenação por tantos erros cometidos na vida. Isso faz sentido.
Mas, e os livros que escrevi? Defuntos não escrevem livros.
E a mulher que ainda amo? Cadáveres nada sentem.
Isso faz parte deste pesadelo. É o toque de realismo necessário para que a tortura funcione. Sim, cedo ou tarde, confirmarão minha morte e isso se tornará inegável. Finalmente, talvez, meus livros sumam e este amor deixe meu peito.
Isso faz parte deste pesadelo. É o toque de realismo necessário para que a tortura funcione. Sim, cedo ou tarde, confirmarão minha morte e isso se tornará inegável. Finalmente, talvez, meus livros sumam e este amor deixe meu peito.
Tenho pena de minha ex-mulher. Só hoje entendo que ela é minha viúva.
Também tenho pena da mulher que hoje amo. Talvez nunca tenha sabido. Amou uma assombração.
Quanto ao meu filho, não sei se faço grande falta.
Já os parentes podem ir à merda. Nenhum deles se deu ao trabalho de me avisar que morri. Apenas agiram como se eu jamais houvesse existido.
E só hoje entendi.
Talvez, até, tenham achado melhor assim.
Talvez, até, tenham achado melhor assim.
Creio ser besteira esperar essa confirmação explícita de minha morte.
Afinal, hoje sigo como uma alma penada.
Penando.
Walter Biancardine

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