terça-feira, 16 de junho de 2026

PÉSSIMA NOITE

 


Há noites que não pedem coragem.
Pedem que eu não faça nenhuma besteira definitiva.

Queria ter uma vitrola velha, uma garrafa pela metade e um maço quase vazio.
Sentar sozinho.
Escutar aquele cearense bigodudo cantar que o passado foi melhor porque já passou.
E beber devagar, como quem dá esmolas ao próprio fracasso.

Mas não tenho vitrola.
Nem a mulher.
Nem a dignidade inteira.

O amor, descobri tarde, não acaba quando acaba.
Acaba pra um.
Pro outro vira infiltração.
A pessoa vai embora e deixa um mofo crescendo dentro da gente.
Alguns pintam a parede, trocam os móveis. 

Eu escrevo poemas.
Mas o mofo continua ali.

Olho pro cinzeiro.
Bitucas.
Olho pra mesa.
Marcas do copo na madeira.
Olho pra mim.
Um sujeito de sessenta anos conversando com fantasmas
e fingindo acreditar
que três minutos de música
podem salvar uma noite inteira.

É ridículo.
Mas quase tudo que mantém um homem vivo é ridículo.

A esperança é ridícula.
O amor é ridículo.
Escrever poemas… 
isso é uma doença.

Mesmo assim escrevo.
Porque enquanto eu estiver enchendo um copo,
rabiscando versos tortos
e mentindo pra mim mesmo
que amanhã será diferente,
a derrota ainda não venceu completamente.

Ela tá ganhando.
Mas ainda não venceu.

E amanhã vou acordar cansado. 
Mal-humorado.
De orelhas baixas como um cachorro abandonado.

Vou fazer café.

Talvez chore.
Talvez olhe no espelho
e encontre aquele velho conhecido:
o sujeito que estraga tudo
e depois escreve poemas
como se isso resolvesse alguma coisa.

E depois sigo.

Não porque sou forte.
Porque o mundo tem essa mania vulgar de continuar existindo.

E, infelizmente,
eu também.




Walter Biancardine







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