verso filho da fome
hemorragia disfarçada
de conto
hemorragia disfarçada
de conto
quentinha com Guaravita
fosse em Paris
seria vinho
estrofes fraturadas
capítulos enfartados
dor em capa dura
o SUS não atende
não dá atestado
não tem remédio
a agonia grita
sofre os hematomas
em verso e prosa
sem nenhum pudor
escrever não é limpo
letras pingam como sangue
histórias fedem
uma linha é muito
pra se ler
um livro é pouco
pra comer
cabelo desgrenhado
no bolso uma chave
dinheiro da passagem
o ônibus nunca vem
o defunto não se enterra
os livros ficaram
por aí
Walter Biancardine

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