segunda-feira, 22 de junho de 2026

MINHA PRIMEIRA VEZ -

 


Eu estava no controle. Tudo em minhas mãos. Só dependia de fazer certo e dos meus instintos.
E meus instintos sempre foram bons.

Quarenta milhas por hora, tirar o bicho do chão.
Acelerador a pleno, reduzir flaps e aproar no rumo certo.
E num teco-teco, a mil pés de altitude, vi coisas que vocês – gente chique – não conseguem ver num jato.

Raso o suficiente pra ver detalhes, gente andando, varais de roupa e piscinas com gente nua.
Alto o bastante para intuir a geografia, ver que os mapas não mentem e me sentir um filósofo – sim, pois não se vê tamanha grandeza sem sair de si.
E Deus se torna óbvio. Somos formigas.

Prefiro teco-tecos a um jato. Nele posso voar de janela aberta e sentir o cheiro das nuvens.
Creiam, nuvens tem cheiro. E nos molham o casaco.
Mas o mistério – ou Deus, sei lá – me chama e subo mais. E mais. E mais.
Dez mil pés. Frio de rachar.
Agora quem se acha Deus sou eu.

Em minhas mãos está o controle da mistura do ar e da gasolina. 
Controlo a máquina. Controlo os ares. Sou o dono do mundo.
A dez mil pés todo homem vira especialista em eternidade. 
Não há ninguém ao meu lado, os assentos são em fila e posso olhar ambos os lados para tudo dominar, conquistar, chamar de meu.

O mundo é grande, muito grande. E meu espanto, maior.

Mas também é pequeno, bem menor que eu sabia.
De Maricá vejo a Pedra da Gávea. De Cabo Frio ao Rio, em linha reta, são cem quilômetros. E incontáveis lagoas, lagunas, lagos, barcos de pesca e as intimidades dos quintais.

De volta, pouso três pontos, manteiga.
 
Me achei um Saint-Exupery.
Em casa escrevi o que vi e o que senti.
E também o que inventei.
Pilotos, pescadores e amantes compartilham alguns pecados.

Não esquecem a primeira vez.




Walter Biancardine




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