terça-feira, 23 de junho de 2026

DE OVO VIRADO -

 


O sujeito normal sempre faz amizades ao longo da vida. 
Arranja amigos, colegas, parceiros e mesmo se apaixona por algumas mulheres.
Normal. 
Inevitável. 
Acontece com todo mundo.

Também é normal querer agradar essas pessoas, de vez em quando.
Você paga uma cerveja pra uns, empresta uma chave 13 pra outros ou traz uma flor pra ela.
Nada demais.

O problema começa quando algo acontece: ou sua cabeça bugou ou uma lucidez repentina te atingiu. E você percebe que é o único nessa história que tenta agradar.
Se é verdade ou não, neste momento não me importa. 
Agora falo de mim, e a sensação é horrível.

“Pegue seu sorriso e sua gentileza e enfie no rabo” – é a frase que imagino estarem pensando.
Não me chamam. 
Não lembram de mim. 
Não devolvem sorrisos e, muito menos, aquilo que emprestei.
Bate a certeza de que, se eu não os procurar, a suposta amizade se desfaz. 
Virá a próxima era glacial e o filho da puta não vai me dar um telefonema pra saber como andam as coisas.
Hoje acordei assim, e nem sei por quê.

Não quer falar comigo? Melhor pra mim.
Não lembra sequer que existo e pergunta como vou? Eu também esqueci que você existe.
Não vai devolver o que te emprestei? Posso até ser otário. Você, já sei o que é.
Não deu a mínima para a flor que dei? Deixe murchar, talvez sinta falta dela um dia.

Hoje acordei azedo.
E podem pegar meu sorriso, a chave 13 e a flor e enfiar no cooler.
Dor de barriga não dá uma só vez.

E estarei ocupadíssimo.



Walter Biancardine



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