quinta-feira, 4 de junho de 2026

FEBRE

 


a febre tem o estranho costume
de acender lâmpadas em quartos vazios

não importa quantos livros na estante
números salvos no telefone
sorrisos em fotografias

bastam trinta e oito graus
e pele ardendo
para descobrir a verdade

a cabeça pesa
o cobertor pesa
a casa inteira pesa

e o sujeito percebe 
há doenças
que doem menos nos ossos
que nos espaços entre os móveis

a febre só pede
um café
mão na testa,
um colo dizendo
"vai passar"

mas a porta continua fechada
a cozinha continua distante
e a chaleira não se oferece
pra ferver sozinha

a noite cresce
o relógio recusa os minutos
o termômetro sobe em deboche

o homem na cama
escuta só o próprio coração
cumprindo expediente

a solidão da febre é só dela

não a dos abandonados
nem a dos viúvos
nem a dos exilados

é precisar de colo
num mundo que não liga

a cidade continua funcionando
ônibus passam
padarias abrem
casais discutem
crianças nascem
alguém é promovido
outro perde o emprego
e nada diminui um só grau
no termômetro da madrugada

a febre segue queimando
como a última fatia de carne
esquecida na grelha 
depois da festa

já comeram
já foram embora
a brasa ainda vive

torra sozinha
estalando baixinho no escuro
até que não reste mais nada
além de fumaça

nem sempre a febre mostra doença

às vezes só diz
quem viria trazer um café

e quem não



Walter Biancardine



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