a febre tem o estranho costume
de acender lâmpadas em quartos vazios
de acender lâmpadas em quartos vazios
não importa quantos livros na estante
números salvos no telefone
sorrisos em fotografias
bastam trinta e oito graus
e pele ardendo
para descobrir a verdade
a cabeça pesa
o cobertor pesa
a casa inteira pesa
e o sujeito percebe
há doenças
que doem menos nos ossos
que nos espaços entre os móveis
a febre só pede
um café
mão na testa,
um colo dizendo
"vai passar"
mas a porta continua fechada
a cozinha continua distante
e a chaleira não se oferece
pra ferver sozinha
a noite cresce
o relógio recusa os minutos
o termômetro sobe em deboche
o homem na cama
escuta só o próprio coração
cumprindo expediente
a solidão da febre é só dela
não a dos abandonados
nem a dos viúvos
nem a dos exilados
é precisar de colo
num mundo que não liga
a cidade continua funcionando
ônibus passam
padarias abrem
casais discutem
crianças nascem
alguém é promovido
outro perde o emprego
e nada diminui um só grau
no termômetro da madrugada
a febre segue queimando
como a última fatia de carne
esquecida na grelha
depois da festa
já comeram
já foram embora
a brasa ainda vive
torra sozinha
estalando baixinho no escuro
até que não reste mais nada
além de fumaça
nem sempre a febre mostra doença
às vezes só diz
quem viria trazer um café
e quem não
Walter Biancardine

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