Muita gente busca um clichê pra se encaixar.
Compra uma prancha de surf e no dia seguinte o cabelo fica loiro e cheirando à maconha.
É contratada como doméstica e automaticamente lava os pratos com um pé apoiado no joelho da outra perna, o famoso “4”.
Ou o pior deles: se diz escritor e no dia seguinte se faz bêbado, caído no chão do bar, reclamando que é um incompreendido e se vitimizando em tempo integral.
Compra uma prancha de surf e no dia seguinte o cabelo fica loiro e cheirando à maconha.
É contratada como doméstica e automaticamente lava os pratos com um pé apoiado no joelho da outra perna, o famoso “4”.
Ou o pior deles: se diz escritor e no dia seguinte se faz bêbado, caído no chão do bar, reclamando que é um incompreendido e se vitimizando em tempo integral.
Mas desse último tipo eu entendo e posso falar.
Ele ouviu falar dos existencialistas. De um Quartier Latin, Montparnasse ou Montmartre em Paris. Só que os existencialistas viraram os depressivos das redes sociais. Aliás, nem Paris existe mais. Agora é uma feira de lembrancinhas, café caro e apartamentos impossíveis.
Mas eles insistem.
Sim, insistem. Escrevem (via ChatGPT) um textão pro Facebook e depois vão num barzinho – mas não pode ser muito “barra pesada” não, senão eles não sabem se virar – pedir um energético e beber até se fazerem de bêbados. E mandam seus originais cibertrônicos pras editoras. E as editoras cobram – é claro – para satisfazer as vaidades desses tipos.
Conversei recentemente com um poderoso de uma editora. Editora alternativa mas era editora, porra. E das grandes. E ele me dizia que o que escrevo o agrada, que tenho voz própria, estilo, domínio literário e sou muito bom quando trato do que é concreto – traduzir solidão numa sala vazia ou angústia em alguém num bar com um vira latas ao lado. Até aí, tudo bem. Mas ele disse que preciso parar de chamar o leitor de burro e ficar explicando. Não sou mais analista político, não tenho de convencer ninguém de nada – e tive de baixar a cabeça, ele está certo.
Mas o pior de tudo: ele me vasculhou. Leu coisas que escrevi há mais de vinte anos, e sabe que ir ao bar, beber e chorar pés na bunda ou a vida bandida são coisas e ambientes de sempre, em minha porca vida – não é um clichê que adotei. Mas me deu uma recomendação “marqueteira” para quando eu buscar outras editoras para publicação: que eu as sonegasse meus textos de pés na bunda, fossa, coisas assim.
Pois hoje em dia não é mais obrigação profissional saber diferenciar um verso sangrado de outro do Grok. Ou distinguir um infeliz, que pagou sua primeira cerveja em Cruzeiros, de algum novato que se queixa no Facebook, pede um energético em seu copo Stanley e ganha 100 curtidas.
É o fim da picada passar uma vida sendo um fracassado legítimo e agora correr o risco de ser confundido com um imitador.
Minha dor verdadeira terá o mesmo peso de uma dor fabricada por algoritmos.
Uma humilhação metafísica, e eu preciso comer.
Ao fim e ao cabo, tenho certeza que a próxima cerveja que eu beber num bar terá como companhia – além do desalento habitual – o fantasma de um “Enzo” se fazendo do tipo “noir”, decadente, “dark” quase gótico, existencialista do Túnel do Tempo e pensador de Facebook.
Mas ele pedirá um energético sabor frutas vermelhas.
Tristeza é decorativa.
E eu continuarei com minha cerveja.
Sozinho.
Walter Biancardine

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