Quase uma garrafa inteira de Jack Daniel’s me fez acreditar.
Queria escrever um romance, obra épica, lendária.
Quem sabe seiscentas páginas que seriam um divisor de águas na literatura mundial, um Guernica das letras, deixando Hemingway humilhado em seus chinelos?
Queria escrever um romance, obra épica, lendária.
Quem sabe seiscentas páginas que seriam um divisor de águas na literatura mundial, um Guernica das letras, deixando Hemingway humilhado em seus chinelos?
A ideia estava toda em minha cabeça. Personagens, trama principal, núcleos auxiliares, falso epílogo, tudo. A velha Olivetti portátil era de uma ex-mulher, mas eu a usava descaradamente – quase um dote de casamento ao contrário – e estava já municiada: resma de papel, fitas corretoras, bloco com caneta, uma garrafa térmica cheia de café recém coado e três maços de Marlboro.
E coroando isso tudo, abri mais um litro do velho Jack.
Me sentia anabolizado. Brigas acumuladas. Frustrações também, e a certeza de ter me casado apenas pra provar a mim mesmo que eu podia.
E eu escrevia. E bebia.
Escrevia mais e bebia mais.
Acendia um cigarro, coçava os olhos – um café pra segurar a onda – e voltava à Olivetti.
Não sei por que diabos, mas, no meio do caminho, me veio uma ideia sobre um poema. Nem tirei a folha: como fosse continuação das minhas misérias, espalhei versos sobre a história como um asfalto quente em cima do chão de terra batida.
E não achei nada de errado nisso.
Outro copo do amigo JD. Olhos embaçados. E agora não eram mais poemas: uma letra de música cairia bem nesse clima. E emendei, salpicando um arremedo de blues perneta.
Usar a fitinha corretora estava fora de questão – não conseguia mais enxergar as letras.
Tentei voltar à minha história fantástica, mas a achei uma merda.
Arranquei a folha, joguei no lixo.
E pra lata foram também meus poemas e o blues perneta – vala comum da bebedeira e frustração.
Nem reparei.
A última coisa que lembro foi colocar outra folha de papel na máquina de escrever.
E acordar no dia seguinte com uma bomba de Hiroshima explodindo dentro de minha cabeça.
A de Nagasaki veio comigo na cozinha, tomando uma aspirina e ouvindo a bronca de minha então mulher.
Fui um radioativo literário por quase dez anos.
Apagão completo.
Nojo total.
Descrença – ou juízo.
Só voltei a escrever já morando em Cabo Frio, ao trabalhar como repórter de uma rádio local.
Apenas dois amigos permaneceram comigo: o maço de Marlboro e o Jack Daniel’s.
Na alegria ou na tristeza.
Na saúde ou na doença.
E se alguém teve algo contra esta união, preferiu se calar para sempre.
Walter Biancardine

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