sexta-feira, 26 de junho de 2026

TAPETE MÁGICO

 


Fui na farmácia comprar o remédio da enxaqueca.
Bomba poderosa. Me sinto o Ali Babá voando no tapete mágico.
Tranquiliza. Relaxa os músculos. 
Faz até lembrar que os temos.

Drena a cabeça. 
Toda a podridão vai embora com esse limpa-fossa químico.
A compulsão de escrever diminui. 
A urgência, a aflição, a ânsia – tudo parece frear, reduzir e passar devagarinho, silenciosamente, se escondendo de você.

E quando o impulso vai embora, algo de mim também se vai.
Existem pessoas cujas maiores qualidades são seus defeitos.
Talvez eu seja uma dessas.

Cheguei em casa leve, sem dor, e tentei escrever.
Achei uma merda, mas publiquei mesmo assim. 
Não tinha qualidades, apenas um testemunho sobre um bocó que não sabia dirigir um ônibus na lama.
Um texto aguado.
Sem mim, nele.

Piorou ao escrever sobre um cachorro que apareceu aqui.
Uma criança escreveria melhor. 
Bem melhor, aliás.

Abri a porta, olhei a chuva na escuridão.
Era uma boa hora pra tomar um Jack Daniel’s.
Mas não o tenho mais.

Também não há companhia. 
Nem outro copo.

Ao menos voei no tapete mágico das mil e uma noites.
E não escrevi sobre isso.

A enxaqueca passou.




Walter Biancardine




CRIAR

 


quinta-feira, 25 de junho de 2026

GANHOU POR UM FOCINHO

 


Meteu a fuça
onde não foi chamado.

Não chamei.
Não pedi.
Entrou.
Permaneceu.

Não sei
quanto vai durar.

A vida anda difícil.
Não quero promessas,
nem aconchegos
para depois
deixar para trás.

Mesmo assim
me escolhem.

Não sei por quê.

Farejam solidão.
Me encontram.
Arrombam a porta.
Viram donos.

Agora divide o teto.
Acompanha meu caminho.

Eu não precisava
de mais um focinho.

Mas esse bendito
decidiu sozinho.



Walter Biancardine




NÃO ME TOQUE


inventaram o feminismo
homem não presta
nem cheguem perto

e surgiu o homem sigma
não precisa de mulher
não precisa de amigos
não precisa de nada
nem de ninguém

tem quem só aceite
um galã nórdico
que ganhe trinta mil
no mínimo

tem quem se orgulhe
de não depender de mulher
nem de amigos

abro a internet e leio
só tem frases pra ensinar
que o certo é o foda-se

e se votei no Zé da Silva
suma de minha casa e minha vida
mas se votei no Zé Mané
suma também

então não preciso de ninguém
pra conversar
ou trabalhar
ou conviver
ou até acasalar

nem saio de casa
o chique é home office
a comida é delivery
o cinema é Netflix

só não sei pra quê
me vestir e produzir

não quero falar nem ver

só postar no Instagram

a minha solidão emocionante
a minha sala vazia

bares sem ninguém
escritório com IA

sobrou só todo mundo

todos na solitária
trancados em casa
odiando um ao outro
se achando o máximo

e tudo isso começou
com um celular
e umas redes sociais

a vida inventada
deve ser melhor
que a vida vivida

devo ser o último
moicano no boteco

até a última garrafa
o último copo
o último gole

mesmo só



Walter Biancardine



ATOLADO

 


Fui ao bairro mais próximo, distância dos infernos, comprar cigarros e remédio pra enxaqueca.

Na volta, em minha luxuosa Mercedes de 42 lugares sentados e 38 em pé, percebi que o motorista fazia a linha que passa por dentro de um bairro cujo único propósito é ser caminho para as fazendas da região. As estradas ali, portanto, são barro puro.
E nessa chuva desde ontem, viraram lama.

O sujeito era um cachorrinho de Pavlov: condicionado pelo treinamento da empresa, andava respeitosamente à direita da estrada – de barro e lama – sem o menor simancol.
No exato instante em que percebi, pensei: “vai dar merda”.
E deu.

O ônibus escorregou no abaulado da pista e se chafurdou na quiçaça – aquele misto de lama e mato à beira da estrada. Atolou e não saiu mais. E nenhum dos digníssimos passageiros queria sair do veículo. O brasileiro é assim: “eu paguei, faço o que quero”.

Saí do ônibus e vi que tinha como sair. Ele conseguia andar um metro pra frente e outro pra trás, mas o “profissional do volante” – sim, aquele que trafega em área rural e não sabe andar no barro – insistia em tentar sair do atoleiro com a direção completamente virada para o lado.

Meia hora se passou naquela inhaca.
Desisti e vim o resto do caminho a pé. Na chuva.

Sou assim: muito bom pra tirar caminhão, carro e ônibus do atoleiro.
Só não tiro minha vida dele.

Acho que nem reboque me arranca.





Walter Biancardine





CUSTO E BENEFÍCIO

 


a coisa anda ruim
quem escreve precisa
de emprego ou não come
se um velho escreve
melhor o dominó

prefiro dormir
não sinto fome
não fumo
não tenho sede
nem sujo roupas

então faço contas
sou ruim em matemática
mas nessa eu acertei
sair da cama não paga
o custo de acordar




Walter Biancardine





RÁDIO RELÓGIO

  


a noite só começava
depois de todos dormirem
pegava café e trazia cigarros
acendia a luminária

papel na Remington
porta do quarto fechada
por causa do barulho
e ligava o rádio baixinho

sintonizava a Rádio Relógio
que me perguntava "você sabia?"
e anunciava com gosto
de naftalina

"depois do sol 
quem ilumina seu lar
é a Galeria Silvestre"
zero hora
dezoito minutos
zero segundo

um gole do café
um trago no cigarro
e bato à máquina
o que ninguém imaginaria
que eu sentisse
ou pensasse

o silêncio pesa
vem um frio não sei de onde
mais café e cigarro
duas horas
vinte e três minutos
zero segundo

uma ideia puxa outra
uma dor chama mais dores
e mágoas se reúnem
em mim

escrevo e a máquina grita
barulhenta e pesada e velha
amiga de minhas madrugadas
e choros escondidos

mais café e mais cigarros
quase uma resma de papel
se vai sem que perceba
cinco horas
quarenta e cinco minutos
zero segundo

barulhos na garagem
o dia clareia
minha importância acaba
o escritor vira estudante

vivo das madrugadas
até hoje são amigas
mesmas dores e agonias
seis horas
zero minuto
zero segundo

você... sabia?




Walter Biancardine 




VIGÍLIA -

 


um mistério na noite
atrai cabeças e
almas e angústias

silêncio pesado 
da madrugada
falamos baixo
até na rua

um café solene
cigarro seríssimo
olhos franzidos
de respeito

o pensamento
pode ir tão fundo
como nunca ele iria
sob o sol

se pensa e se cria
quieto e com calma
e decide e escreve
e rima e joga fora

tudo em silêncio
como deve ser
de dia é fracasso
à noite é compromisso

parece liturgia
separando a noite
da orgia
do dia

amanhece
e se relaxa

tudo na madrugada
é muito sério




Walter Biancardine




CONSOLO PADRÃO

 


encontram um cabisbaixo
parecem ter radar
prestativos e bondosos

contam uma piada
os tristonhos riem muito
e se riem
é porque estão bem

mas você tem saúde
cabeça boa
almoçando todo dia
isso que importa

se reclamam de algo errado
um dinheiro teria entrado
a resposta não falha
o importante é fé em Deus

e agradecer pela vida
pela saúde que temos
a lucidez da cabeça
o resto se resolve

é o que sempre dizem
com sorriso amigo
sempre

quando você
tá na merda



Walter Biancardine




quarta-feira, 24 de junho de 2026

POR QUÊ?



Por quê quando surge uma ideia
não tenho papel nem caneta?

A vontade de ir ao banheiro
multiplica por dez 
ao enfiar a chave na porta de casa?

Tenho duas mãos e dois pés
vinte dedos para escolher
e a pancada é sempre 
na unha encravada?

Espinha, terçol, cravo
ou mesmo uma pinta
só nascem no dia da festa?

A mulher do caixa 
sempre pergunta
se tenho um Real?

A chuva faz os táxis sumirem
dobrarem de preço
e os ônibus lotarem?

A mesma chuva faz
minha memória apagar
e esquecer o guarda-chuvas
em casa?

Minhas paixões
na época de escola
tinham sempre namorado
ou nem me viam?

Não nasci com um dom
pra matemática ou comércio
ou algo mais útil que escrever?

Nasci com essa cara
que assusta bebês
e fecha portas?

Tenho essa mania
desde criança
de perguntar os porquês?

Ninguém nunca respondeu.
Por quê?



Walter Biancardine




SÓ ACHO

 


a vergonha não paga minhas contas
nem a insegurança de mostrar
ou a arrogância de se achar

escritores e poetas parecem
preservativos do espírito
use e jogue fora

quero que me leiam
que entendam
que se vejam no que faço
ou vejam o vizinho

editores me disseram que sou bom
mas não me publicam
não sou vendável

se vergonha não paga contas
elogios do editor também não
mas o pior de tudo
é a indiferença do leitor

me sinto uma besta
elogios na gaveta
e fome na barriga

não sou ruim
só acho
que ninguém precisa

só acho




Walter Biancardine





CADEIRAS NA CALÇADA – ou “Vendo o Movimento”

 


Nada mudou.
Eu era criança e via na estrada, viajando, gente sentada em cadeiras nas calçadas.
Olhavam o movimento. Os carros passando.
A vida dos outros.
Comentavam, riam, se embasbacavam.
Ou nada diziam e olhavam para o além.

Vi isso nas estradas.
Vi em Cabo Frio, quando era roça.
E fiz igual ao crescer.

Eu não ficava nas calçadas.
Nem comentava com vizinhos.
Ver o movimento, na cidade grande, é fumar na janela.
Olhar o trânsito lá embaixo.
Outros vizinhos olhando também.
Talvez até garimpar uma mulher nua no oitavo andar.

Eu comentava, ria, me embasbacava.
Ou olhava para o além.
Mas tudo sozinho. Comigo mesmo.

As cadeiras sumiram primeiro.
Olhar pela janela dá medo – ou rende um processo.
Hoje, quem “olha o movimento” é olheiro da boca de fumo.
Da biqueira. Dos “minino”.

Não há calçadas.
Não há janelas.
Restou a internet e as redes sociais.

E nela vemos a vida passar.

Mas não tem nenhuma graça.




Walter Biancardine




MADRUGADA

 


É madrugada.
Silêncio de pedra. Nem o vento sopra.
Vigias noturnos dormem. 
Um ou outro ônibus trafega, insone.
Pego um café.

Taxistas recolhem putas. Anseiam pelo pagamento.
Um mendigo revira latas de lixo. Cracudos socam portas de aço das garagens.
Um ou outro carro passa. Não sei de onde veio nem pra onde vai. 
Festa? Compromisso? Velório?
O relógio faz seu tique-taque na sala.
E sempre passa uma moto escandalosa.
Acendo um cigarro.

O rádio diz as horas. Madrugada profunda e o silêncio fica pesado.
O caminhão do leite encosta na padaria. E a Kombi dos jornais, na banca.
Ouço vir da garagem do prédio o barulho de um balde.
A torneira abre e a água fala alto.
O porteiro acordou e vai lavar a calçada.
O dia começa a clarear.
Pego outro café e acendo mais um cigarro.

Mais carros nas ruas.
Os postes se apagam.
E não escrevi nada que prestasse.



Walter Biancardine




CAVALO NA SALA

 


Eu não queria mas a noite chegou.
Resmunguei durante o dia, mas não posso atrasar a lua nem segurar o sol.
Agora, tudo escuro lá fora.
Bichos que nunca vi grunhem barulhos que nunca ouvi.
Devem ser feios, nojentos ou peçonhentos.
No mínimo.

Minha vista não alcança cinquenta metros sob a luz da varanda.
Silêncio absurdo não fossem esses bichos.
Me dá agonia, deixo a porta aberta.
Os cachorros entram.
E o cavalo também.

Sim, um cavalo na minha sala.
Viciou-se na ração do cachorro e quer roubá-la.
O certo seria eu despachar a todos – cachorros e cavalo.
Mas não tenho ninguém.
Junto moedas para enfrentar o amanhã e me passa na cabeça:
- Eu compraria esse cavalo.

Olho em volta.
Cachorros deitados no chão, cavalo sonso disfarçando na porta.
E eu aqui, só.
Ou nem tanto.
Ao menos tenho eles.

Fico besta de ver a mim mesmo.
As coisas que me passam na cabeça quando nada mais posso fazer.
Não é pular num precipício ou me internar no hospício.
É comprar o cavalo e seguir a estrada.
Até o fim.

Que sei lá onde é.



Walter Biancardine





CONJUNÇÃO ASTRAL

 


Os astrólogos chamam assim quando alguns planetas se posicionam de modo que a força de suas influências se multiplique e seja avassaladora. E creio que vi isso em um botequim, um dia.

Lá estavam os tipos de sempre. Gente no balcão pedindo a coxinha, o joelho, a cerveja e um maço de cigarros. Nas mesas entretanto, havia a tal conjunção: em cada mesa, um homem. Um só homem – ou melhor, um homem só. 

Entrei no botequim, pedi minha cerveja e, em pé diante do balcão por prudência – a cena era realmente estranha – me segurei para não imaginar que seria uma convenção do Clube do Corno. Ou um Congresso do Pé na Bunda.

Desperdicei minha intuição, pois os dois eventos se misturavam naquele boteco. Sob a névoa das frituras da cozinha e o cheiro do etanol engarrafado, um desses cidadãos me pediu um cigarro. Eu o estendi e ele me convidou para sentar à sua mesa. Aceitei.
E a primeira frase já entregou tudo:
- Mulher é uma merda, mesmo…

Um tiroteio de queixas se estendeu e, após cada suspiro evocativo das dores de corno, eu enchia seu copo. 
Ele torou quatro Brahmas em vinte minutos.

Outros chifrudos e sofredores de “bundalgia” ouviram seus lamentos. Alguns mesmo – assim é o carioca – se achegaram à mesa com suas garrafas e logo aquilo se tornou um workshop da galhada, com verdades pétreas e sentenças definitivas sobre as desalmadas que evisceravam aquelas pobres almas, arrancando-lhes o coração.

E foi quando aconteceu a plenitude da tal conjunção astral: do nada, entra uma dupla de violão em punho e pandeiro, tocando uns Amado Batista e pedindo trocados. 

E a explosão de lágrimas foi geral, poderosa e devastadora.

Paguei minha cerveja e sumi de lá.

O boteco deve estar radioativo de chifres até hoje.




Walter Biancardine




terça-feira, 23 de junho de 2026

ANTES DA NOITE

 


Hoje é um daqueles dias em que não queria que anoitecesse.
Normalmente sentimos isso quando crianças, mas às vezes um adulto retarda.
E meu retardo é também quase infantil. A noite hoje, neste dia de hoje, vai me parecer um “film noir”, clima de mistério, medo e horror misturados.

Andei pela estrada, como sempre. Sol forte, queimando a pele.
O escapamento dos caminhões ajuda nesse bronzeamento artificial. Passam rente a nós no acostamento, nos tostando e deixando a gente com aquela casquinha gratinada.

Também andei pelos pastos e matos. Pareço uma árvore de Natal, decorado por carrapichos grudados na roupa, pele e cabelos.
E os cavalos – sim, aqueles – me encontram e vem me enfiar o focinho, cobrando saudações.
Depois os cachorros. Sem noção. Se embolam em minhas pernas, me fazem tropeçar e até dar uns bicos involuntários em um ou outro.
Depois bois e vacas.
Eles me julgam.
Eu passo e param tudo o que fazem para me olhar fixo – ou quase, pois não deixam nunca de mastigar.

E tudo isso sob o sol.

Vejo vida. De bichos, de gente trabalhando e produzindo, movimento na estrada e tudo segue.
Volto pra casa e rabisco umas besteiras. 
Coisas desconexas – sim, não meçam minha temperatura pelo que escrevo.
Mas mantenho a porta de casa aberta. Quero o sol, a claridade.
Trevas, hoje, não.

A vista não vai longe. Sons estranhos me rodeiam. Grilos, corujas de mau agouro, sapos desaforados e outros que nunca soube o que é ou o que querem.
E acabo em casa, rodeado de paredes, solidão e angústia.

Me pego agora vendo as horas, na barra de tarefas do Windows.
Mais um pouco e começa o entardecer. Dele, entretanto, não me queixo. Sempre lembro de minha mãe nessa hora.
O problema é que, depois, vem a noite.
E hoje não quero.
Nem sei mais por quê.

E nem quero saber.




Walter Biancardine





PEQUENAS VITÓRIAS

 


Morava na rua Santa Clara, em Copacabana.
Mas eu morava lá em cima, depois da curva de saída do Túnel Velho.
Naquele tempo tinha vaga para estacionar o carro na rua e eu parava o meu bem perto de meu prédio. E saí nele para resolver algumas coisas no Centro da Cidade.

Cruzei o sinal da rua Toneleiros, o outro da Barata Ribeiro até que cheguei à avenida Nossa Senhora de Copacabana. 
Sinal fechado. Trânsito embolado. O inferno de sempre. 
E pra piorar, o sinal havia queimado, por isso uma policial feminina estava lá, orientando.
E que policial, meu Deus…

Chegou um outro fardado para a render, e ela veio em minha direção – sua motocicleta estava encostada bem ao lado de meu carro, ainda preso no tráfego. E meu carro era uma Puma – baixíssimo, rente ao chão – e quando ela subiu na moto, arqueando as pernas e mostrando tudo o que não podia através de sua calça justíssima da farda (devia ter uma lei pra isso), ela olhou diretamente nos meus olhos, que a admiravam sob o melhor ângulo possível.
Flagrante delito. 
Sem desculpas. 
Sem atenuante.

Roxo de vergonha e com medo de ser preso por desacato, apenas murmurei:
- Parabéns pelo trabalho, policial. Não deve ser fácil…

Ela me fulminou, de volta:
- Obrigada… muito gentil…

E sorriu lindamente, colocando o capacete e desaparecendo dali.

Ganhei o dia.



Walter Biancardine



DE OVO VIRADO -

 


O sujeito normal sempre faz amizades ao longo da vida. 
Arranja amigos, colegas, parceiros e mesmo se apaixona por algumas mulheres.
Normal. 
Inevitável. 
Acontece com todo mundo.

Também é normal querer agradar essas pessoas, de vez em quando.
Você paga uma cerveja pra uns, empresta uma chave 13 pra outros ou traz uma flor pra ela.
Nada demais.

O problema começa quando algo acontece: ou sua cabeça bugou ou uma lucidez repentina te atingiu. E você percebe que é o único nessa história que tenta agradar.
Se é verdade ou não, neste momento não me importa. 
Agora falo de mim, e a sensação é horrível.

“Pegue seu sorriso e sua gentileza e enfie no rabo” – é a frase que imagino estarem pensando.
Não me chamam. 
Não lembram de mim. 
Não devolvem sorrisos e, muito menos, aquilo que emprestei.
Bate a certeza de que, se eu não os procurar, a suposta amizade se desfaz. 
Virá a próxima era glacial e o filho da puta não vai me dar um telefonema pra saber como andam as coisas.
Hoje acordei assim, e nem sei por quê.

Não quer falar comigo? Melhor pra mim.
Não lembra sequer que existo e pergunta como vou? Eu também esqueci que você existe.
Não vai devolver o que te emprestei? Posso até ser otário. Você, já sei o que é.
Não deu a mínima para a flor que dei? Deixe murchar, talvez sinta falta dela um dia.

Hoje acordei azedo.
E podem pegar meu sorriso, a chave 13 e a flor e enfiar no cooler.
Dor de barriga não dá uma só vez.

E estarei ocupadíssimo.



Walter Biancardine



NUNCA APRENDI

 


sem ter estudo ou preparo
quis começar pelo fim
me fingindo realizado
enganei muita gente

minha vida de longe
quase parecia normal 
só não tive eu mesmo
cravado na pedra 

me achavam ruim antes
me acham ruim agora

a vida toda vegetei
à sombra de outros

o que um velho pode fazer
se só conheço o personagem
que gastei uma vida
representando?

não sei
nunca aprendi



Walter Biancardine




ARTE TEM HORA -

 


poetas e escritores apagam
se aparecem sem que chamem

arte inconveniente
num mundo que só quer 
sangue e catarse

muitos contos
muitas poesias
todos os dias

pare de sonhar
não é hora de versos
ou histórias

de “amigo nas redes”
ganha um “deixar de seguir”

a criança mostra ao pai
seu brinquedo e ele diz
“agora tenho coisas importantes”

o artista mostra ao público
sua arte e ele responde
“agora temos coisas importantes”

já reclamam
nunca foi hábito
e tudo tem hora

então chega de artigos
de histórias toda hora
da poesia sem leitor

ainda não era o certo
esperou contentamento
ganhou acusações

reclamaram que sumiu
perguntaram por doença

se oferece incomoda
se sonega é omisso
lembram das crises

mas nada tenho com isso



Walter Biancardine