sexta-feira, 19 de setembro de 2025

SEXTA-FEIRA: HOJE É DIA DE QUÊ?


Então, finalmente, chegou a sexta-feira.
Nem tiro o carro da vaga, porque o happy hour foi combinado no barzinho da Rua Farani, ao lado do meu trabalho - vou a pé mesmo e, lá chegando, já encontro uns dois ou três exauridos como eu (colarinho aberto, gravatas arregaçadas, paletó perdido algures), que já pedem aquela cerveja "canela de pedreiro".

Muita conversa fiada, gente maldizendo os gastos da mulher no cartão de crédito e outros - eu inclusive - plenos de más intenções, pois o Cajú (sim, aquele Cazuza do Barão) me arrumou meia dúzia de entradas pro show deles, no Noites Cariocas, Morro da Urca.

Findo o chope, rápida passada em casa para um banho - "mas que pressa é essa, meu filho? Não vai comer nada?", cobrava minha mãe, sempre mãe - experimento alguma roupa que me ponha semelhante a um ser humano e já me despeço, saudoso, da vaga que tanto custei arrumar para meu carro. O rumo? Antes das Noites, Baixo Leblon, claro!

Só o bom Deus saberá como cheguei às Noites Cariocas, sequer do bondinho me lembro. E tome show: muito rock pauleira, gritaria, garrafas rolando fígado a dentro e algumas substâncias condizentes com nossa idade inconsequente e irresponsável.

Arranja-se alguma incauta - provavelmente uma estudiosa de biologia, interessada em espécimes exóticos como eu - completa-se o nível alcoólico ao limite insuportável e, já dizia Lobão, "o riso corre fácil quando a grana corre solta": o rumo é o Mirante do Alto da Boa vista, motel gratuito entre então pouquíssimos frequentados trechos daquela estrada serrana, encravada entre a Tijuca e São Conrado.

O dia já está clareando quando aponto a frente do carro já na descida da Niemeyer, entrando na Delfim Moreira e planejando comer um "Levanta Lázaro" de fim de noite, no indefectível Cervantes, lá nas alturas da indecente Prado Júnior. Barriga cheia e energia já na reserva, deixo a gentil e caridosa senhorita na portaria de seu prédio, rumo para casa e, por sorte, encontro uma bela e acolhedora vaga bem em frente aonde moro.

E desabo na cama, de roupa e tudo.

No dia seguinte, acordo e vejo que estou aqui - 40 anos se passaram em uma só noite de esbórnia, e de minha protegida juventude em Copacabana, repentinamente me desperto um velho, tossindo e rangendo juntas, em uma casinha no Segundo Distrito de Cabo Frio.

A vida é assim: por vezes passa tão veloz que não temos reflexos rápidos o suficiente para desviar da pancada.

E a pancada é forte.

Lembranças, tal como sonhos, ainda são gratuitas.


Walter Biancardine



terça-feira, 16 de setembro de 2025

CONTAGEM REGRESSIVA -

 


Longe de mim ser, ou sequer parecer, ingrato aos generosos William Saliba (Carta de Notícias), Paulo Hasse (ContraCultura) ou Hermínio Naddeo e Maria Rosa (No Ponto do Fato), que me estenderam generosas mãos para me resgatarem do limbo e me levarem de volta à mídia, oferecendo-me espaços irrestritos em suas prestigiadas publicações para que, neles, cometesse meus desatinos. Não, isso nunca.

A verdade, entretanto, é que por questões de coerência e manutenção de um mínimo de qualidade ao oferecer algo ao leitor, mandou-me a prudência que renunciasse a tais honras – mais verdade ainda é o fato que se escreve com a cabeça, motivado pelo espírito (inspiração) e dispensando horas em retoques destinados às devidas clareza de expressão, ritmo da narrativa e, se possível, alguma musicalidade e compasso no texto – somados aos compromissos da pontualidade, dos prazos de entrega e da já citada qualidade, que jamais seriam cumpridos uma vez que vivo, agora, sob agonizante contagem regressiva, a qual pouca folga oferece para que me sinta à vontade em escrever.

Se tenho alguma tradição a manter é a de que jamais escondi meus sucessos e fracassos – até mesmo por comezinhas questões políticas locais, pois todos sabemos que a chantagem é usual neste meio. Assim, não seria agora que começaria a fazê-lo, esperando que o leitor, ao ler este relato, jamais o interprete como lamúria, vitimismo ou um cínico e disfarçado pedido de ajuda – não mesmo, até porque todos os pedidos que eu poderia fazer, já os gastei.

O fato é público e notório: não tenho emprego, ofereci um total de mais de 250 currículos mas a idade – somada às minhas notórias posições políticas – barraram quaisquer pretensões; de uma mesa de revisor ou copidesque ao balcão de lojas de ferragens, a negativa – ou pior, o silêncio – foi unânime.

Sim, tive bons momentos quando a generosa Doutora Professora PhD Miss Jay encantou-se com meus devaneios filosóficos e convidou-me para uma série de palestras – das quais auferi dinheiro suficiente para comprar meu pobre carro, iludido por boa fé no vendedor – e, em sequência, contratou-me como seu professor on-line de filosofia – e este é meu rendimento atual.

Não posso, entretanto, condená-la a ser minha aluna para todo o sempre. Findo este ano letivo, a mesma voltará para seu distante local de moradia, assumirá novos e importantes encargos e nosso contrato terminará – e, com este contrato, cessará também todo o resto: meu aluguel e a vida quase civilizada que consegui desfrutar por estas breves “férias”, após anos morando no meio do nada e cercado por bois e vacas.

Esta é a contagem regressiva, e também razão de não mais conseguir me comprometer com prazos ou mesmo qualidade daquilo que escrevo. Cada dia é menos um, no qual pude viver de maneira quase normal e, por mais que a vida tenha me endurecido (e o niilismo tenha feito com que eu beirasse o cinismo), confesso não mais ter forças suficientes para não me deixar afetar – sim, estou velho, 61 anos não são 61 dias.

Ao fim e ao cabo, resta-me a obrigação moral de dar alguma satisfação aos poucos abnegados que ainda gastam seu tempo e fosfato lendo meus devaneios, pois ao findar o mês de novembro, entregarei a casa, não mais terei meios de escrever e desconheço o que virá depois.

Nunca é demais repetir: este artigo é tão somente uma satisfação que dou aos leitores, jamais um sonso e disfarçado pedido de ajuda, pois nada é mais desprezível do que o vitimismo que tanto critico em minhas linhas, o qual sempre sobrevive e lucra – da forma mais abjeta – com a piedade alheia. Nada quero e nada peço, e isto resume tudo.

Minha moral com Deus é zero, jamais fui um bom rapaz e – com justiça – pouco posso ou devo esperar. Resta, ainda assim e por questões de sanidade mental, a confortável fuga de contar com a piedade Divina. Sim, quem sabe?

Se eu puder, estejam certos: voltarei a escrever. Se não, então será o rotineiro “tudo como dantes, no quartel de Abrantes” – nenhuma novidade que eu já não tenha experimentado.

Um grande abraço, querido e abnegado leitor.


Walter Biancardine



sexta-feira, 12 de setembro de 2025

EMPURRADO PELA VIDA -



Por mais previsível que fosse a farsa dantesca, encenada ontem no palco da Primeira Turma do STF, ainda assim os efeitos sobre mim ultrapassaram o que esperava.

Sim, era pública, notória e sabida a condenação de Jair Messias Bolsonaro à guilhotina suprema, mas confesso que – talvez pelo acúmulo de enorme sucessão de absurdos jurídicos, políticos e criminais nestes tristes dias – a sentença, lida e saboreada com gosto pelos canibais de notória ignorância jurídica, tenha desabado com tamanho peso em minha cabeça. Para piorar, o assassinato do jovem e conhecidíssimo ativista conservador norte-americano Charlie Kirk – acontecido simultaneamente – disparou um inevitável retrospecto mental, que concluiu estarmos sendo, nós conservadores, caçados e exterminados um por um.

Tivemos a garotinha escocesa – 12 anos – que defendeu a si e sua irmã com um machado contra agressores muçulmanos e foi presa por isso; a menina refugiada ucraniana, esfaqueada no Metrô; candidatos à Presidência da República conservadores mortos a tiros, atentados contra Donald Trump e o próprio esfaqueamento de Bolsonaro – e ainda somos tratados pela maldita e porca grande mídia como “extremistas” ou “radicais” da “extrema-direita”, tal como anunciaram a morte de Kirk, pai de duas filhas e com apenas 31 anos.

Em boa hora penso ter renunciado às mãos que se estenderam em meu caminho – Carta de Notícias, ContraCultura e No Ponto do Fato – eis que o comprometimento de escrever exige o compromisso da periodicidade, e eu teria sido obrigado a escrever e comentar – entre todas as barbáries anunciadas acima – ainda sobre este meticuloso esquartejamento do cadáver político de Bolsonaro, e eu não teria estômago para tanto.

Digno de nota é percebermos que a guerra contra nossos expoentes – alguns já atingidos e mortos, enquanto outros jazem, agora, moribundos – configuram baixas idênticas naqueles alistados em seus propósitos. E assim me sinto.

Tal como algum circunspecto senhor, em aventura amorosa frustrada, se põe a murmurar que “isso nunca me aconteceu antes”, assim me surpreendo com minha própria reação: tais trevas jamais se abateram antes, sobre mim.

Tenho décadas de jornalismo e de análises políticas, já me engajei em lutas inglórias nas quais tudo perdi mas, ainda assim, continuei escrevendo, analisando e comentando – mas neste momento, faltam-me forças. Creio que a dimensão mundial da luta que travamos me era, anteriormente, um tanto quanto vaga e difusa, algo que mais soava como argumento que constatação – mas agora vejo sangue por toda a parte. Sim, o inimigo hoje aparece claramente, sem vergonha de exibir seus chifres e cascos, pois que já se considera vitorioso e pode mostrar sua verdadeira face – e ele nos persegue, com desejo insaciável de extermínio, em qualquer lugar do mundo em que estejamos: Escócia, Estados Unidos, Brasil – pouco importa.

Assisto, com um misto de piedade pela inocência evidente e raiva por suspeita de má-fé, discursos de gente anunciando providências jurídicas contra o STF, ou até mesmo pretensões de anistia e outros tantos, sem perceber que não se luta contra demônios usando armas de anjos.

Também vejo o povo inerme – o qual me incluo – apático e omisso, apenas aguardando seus bovinos líderes políticos ou religiosos apontarem o melhor caminho para o matadouro, esquecendo-se que Moisés não teria libertado os judeus do Egito se obedecesse, passivo, as leis do Faraó.

Por sorte sou sozinho, não tenho ninguém a pedir-me um amor e atenção que se secou em mim; também não tenho amigos que venham me visitar, chamar ao telefone ou obrigar-me a sorrisos impossíveis; e mesmo a casa onde habito é o retrato do que se passa pela alma, com o chão estalando de sujeira e descaso ao caminhar por ele.

E as panelas e pratos, empilhados na pia, são o saldo negativo das derrotas acumuladas.

Nenhuma intenção de varrer, lavar ou mesmo escrever.

Este artigo foi um surto.


Walter Biancardine



sábado, 6 de setembro de 2025

GLORY DAYS -


Lembranças não são privilégios de vitoriosos em descanso.
Também são a agonia cotidiana de velhos fracassados, a revolver o solo seco dos dias presentes.
Todos as temos, uns mais e outros menos; uns relembram por saudosismo, outros por fuga.

Em qual curva da estrada os fracassados se desviaram do caminho? Ambos tiveram bons dias, dias de glória, felicidade e realizações - mas, para uns, tudo se desfez em um piscar de olhos.

Quais olhos poderosos piscaram assim, como sentença?

Talvez os meus próprios.

"Glory days
Well, they'll pass you by, glory days
In the wink of a young girl's eye, glory days" (Bruce Springsteen)


Walter Biancardine



GAVETAS VAZIAS -

 


Não há currículo que resista ao calendário: o mercado é um circo para adolescentes, exigindo corpos em forma, sorrisos falsos, gírias que envelhecem em uma semana e a inevitável postura lacradora. Eu, com meus excessivos anos empilhados, sou considerado um móvel pesado que ninguém quer carregar para o próximo apartamento. Preferem o plástico descartável, fácil de empurrar para o lixo; e por tantas e infrutíferas vezes que tentei, seria estupidez não concluir que estou fora do jogo.

Carrego o rótulo de “conservador” como se fosse lepra. Não importa se o que digo tem lógica ou se apenas repito o óbvio: se não concordo com as besteiras do momento, sou carimbado como intolerante, insuportável, contraproducente e até mesmo – palavra da moda – “tóxico”. Todos gritam “diversidade”, mas querem todos iguais, repetindo as mesmas frases de efeito. Eu, que já vivi mais do que eles suportariam, sei que nada disso é tolerância – é só mais uma forma de linchamento mas sem corda no pescoço, apenas com o silêncio, a separação, o cancelamento e o desemprego.

Amigos? Família? Tais palavras soam como piadas de mau gosto. A verdade é que ninguém suporta por muito tempo um homem que não serve mais para concordar com tudo o que dizem em reuniões sociais ou para pagar contas – por mais que neguem de maneira veemente. Aos poucos, percebi a coreografia: sorrisos diminuindo, telefonemas rareando, “sumiços” – pois estão sempre “muito ocupados” – até restar apenas o eco da própria voz.

Os mais próximos, aqueles em quem eu deveria confiar, descobriram que traição e egoismo rendem mais dividendos do que lealdade, inclusive satisfazendo invejas e recalques secretos e inconfessáveis. Sorriram enquanto mediam o quanto poderiam arrancar de mim, daquele que eu fui enquanto “potável” aos olhos alheios – hábitos, preferências, gostos, amores e até minha própria personalidade: tudo me foi tomado, copiado, invejado da forma mais vil e hoje não mais sei se tenho parentes ou clones, xerox ambulantes de quem, um dia, tive o atrevimento de ser.

Aprendi a dormir com a faca no estômago e a acordar fingindo que não sangro, apesar do deprimente espetáculo diário da traição familiar: ser enganado em negócios ou mesmo assistir parentes tomarem a mulher de outros parentes – tudo isso se tornou rotineiro, aceitável e normal, neste admirável mundo novo.

Restam-me dois irmãos e uma irmã – um deles, atolado nas próprias e pesadas obrigações, não pode estender a mão. Não culpo, compreendo: cada um carrega seu inferno particular e o dele é, por demais, difícil e penoso. Mas a solidão se torna ainda mais aguda quando a última presença confiável está ausente por obrigação, não por escolha. Digo “última” porque o outro já sofreu a mais cruel das traições: vive hoje interno em um asilo – ninguém quer um móvel velho e quebrado. Já a irmã, tão afastada, dissonante e dominada por filhos, apenas o sangue comum nos une.

Bukowski dizia que alguns nascem para carregar o peso e outros para cuspir no rosto de quem carrega. Schopenhauer lembrava que a vida oscila entre o tédio e a dor, e eu acrescentaria: na velhice, os dois se tornam vizinhos de quarto. Kierkegaard falava da desesperança como uma doença mortal e sinto que já fui diagnosticado há anos, só que sem atestado formal ou minha própria percepção do fato. Vivo, mas não estou vivo. Caminho, mas não vou a lugar algum. Muito mais fácil ser rotulado como “narcisista”, “egoísta” ou outras pérolas fáceis de digerir.

Não há nada heroico nisso. Jamais esperei reconhecimento, tampouco compaixão. Longe de mim esperar algo de alguém, pois estas linhas são apenas um desabafo que faço à única coisa que aceita, ainda, meus queixumes: o notebook. Apenas sigo, como um fantasma que arrasta correntes enferrujadas, sem que ninguém as escute além de mim.

A cada dia, todo maldito dia, sento diante do teclado pelo mais torpe dos vícios: escrever. Acendo um cigarro, abro a gaveta vazia de possibilidades, olho o nada acumulado e fecho de novo, sabendo que amanhã será idêntico.

Talvez um dia não precise mais fechar a gaveta.



Walter Biancardine




sexta-feira, 5 de setembro de 2025

ESTOU DE AVISO PRÉVIO -


Passei uma vida tentando escrever com algum estilo, ritmo e até buscando vaga musicalidade; considerava eu que tais caprichos ajudariam a tornar potáveis os devaneios que meus pensamentos, uma vez publicados e oferecidos aos leitores, carregavam. Mas agora tais cuidados me são psicologicamente inviáveis e peço perdão aos que venham, por ventura, ler estas mal-traçadas – não se trata de desonrar meu próprio passado, mas de impossibilidade pura e simples.

Vou direto ao assunto e título deste: considero-me em aviso prévio. O contrato estabelecido, entre mim e a generosa pós-PhD para ministrar-lhe aulas de filosofia, encerra-se nesta virada de novembro para dezembro. Na realidade, o mesmo teria sido cumprido em março deste ano mas, generosa e atendendo meus pedidos, esta mesma doutora concordou em prorrogar este compromisso até dezembro, data em que voltará para seu Estado.

Meu pedido de prorrogação tinha como base o aluguel da casa onde moro, que terminará na mesma data e, deste modo, poderei honrá-lo até seu término. E a partir daí, amigo leitor, não tenho a menor ideia do que farei e, sendo franco, a exaustão me leva a pouco me importar.

Tal prostração se deve – quem acompanha meus escritos bem o sabe – a todo meu recente (e longo) passado de penúrias, privações e sofrimento absolutamente solitário, afinal foram anos morando de favor em uma cabana no meio de um pasto e tendo por companhia apenas bois, vacas, um cachorro e outros animais menos recomendáveis. E isso me exauriu muito mais do que eu próprio poderia imaginar, descobrindo só agora a completa falta de forças que me abate – ou, seja lá como for, o fato de também estar farto de tanto nada, tanta falta de perspectivas e caminhos.

Sim, Deus sabe que tentei. Deus também sabe que até mesmo me deixei iludir, crendo em portas abertas para retomada de minha carreira e acreditando que seria inclusive – pasmem – remunerado por isso. Mas não, nunca o fui. Todo meu salário se originava das aulas de filosofia, nenhuma promessa se concretizou e, ainda por cima, cometi a suprema asneira de confiar em parente próximo para comprar um carro – estupidez que me sangrou o nenhum orçamento que tinha, destruiu o resto de fé na família que insistia eu em manter e que, hoje, levou tal pesadelo sobre quatro rodas à venda – o que me oferecerem, aceito.

Resumindo tudo, apenas declaro que não tenho mais forças. Aliás, se falta-me esperança para enxergar algum futuro para mim, muito mais necessito para manter-me em pé, lutando por meus ideais e pelo Brasil. E por isso, superiormente por impossibilidade psicológica que por decisão racional, vejo que é hora de parar de escrever. Aliás, não só de parar com a escrita mas, igualmente, dar por encerrada esta derradeira tentativa de voltar a ser um indivíduo normal, com uma vida normal, problemas normais, vitórias igualmente normais e até um fim de vida normal.

Não, tal privilégio me foi negado – não por Deus, mas por consequência de meus próprios desatinos ao longo da vida. E por isso, não posso reclamar de nada; toda a intenção deste artigo é apenas informar ao leitor sobre estar eu deixando as páginas do Carta de Notícias, do ContraCultura e do No Ponto do Fato – pois não se escreve com os dedos mas, sim, com a cabeça e espírito, ambos os quais não mais os tenho em condições. Quanto à TVD News, infelizmente foi a possibilidade que acreditei mas não se cumpriu, o que é uma pena.

Não vejo mais como honrar os compromissos de dias especificados para a publicação de artigos em uma ou outra revista e, muito menos, como escrever curvado sob um tema que, hoje, já não me importa. Enquanto meu contrato de aluguel estiver vigente – o mesmo se encerra na virada de novembro para dezembro, como já disse – eventualmente escreverei nesta minha página pessoal, no Facebook, Twitter ou até LinkedIn, mas sem me importar mais com periodicidade ou temas. Apenas rabiscarei sobre o que eu quiser, e quando tiver vontade.

Pouco me importa, também, ser chamado de covarde por abandonar a luta pelo meu país ou, pior, desistir de meus caminhos: fui constantemente chamado - ou julgado como - coisa muito pior por leitores, amigos, pessoas próximas, familiares e até ex-mulheres, e tal adjetivo soa-me quase um eufemismo elogioso. Nem de longe meu ego, que sobrevive por aparelhos (tal como este aparelho chamado notebook, com o qual escrevo), sentirá qualquer incômodo por isso, uma vez que ainda posso afagá-lo pelos meios usuais - como seja, escrevendo meus vaidosos artigos.

Mas, em breve, não terei mais laptop e, muito menos, de onde escrever.

O quê farei após o término de meu aluguel?

Esta é a pergunta de um milhão de dólares: não sei e, francamente, pouco me importa.

Foi bom enquanto durou.



Walter Biancardine



quinta-feira, 4 de setembro de 2025

TEMPO, TEMPO, TEMPO…

 


Por vezes penso na vida como uma rodovia, na qual trafegamos ao longo de nossa existência, com o tempo vindo na direção contrária pela outra pista. Na juventude o vemos de frente, vindo para nós com uma bela fachada sugerindo sonhos e promessas, realizações e conquistas.

Ao nos tornarmos adultos é o momento em que cruzamos na pista, nós seguindo em um sentido e o tempo em outro, mas nos perdemos tentando controlar o carro em meio ao turbilhão de ventos, barulhos, fumaças e a inevitável fuligem, que cega nossos olhos e os fazem lacrimejar.

A velhice chega quando este cruzamento já se deu e vemos o tempo pelas costas, se afastando, cada vez mais distante, menos barulhento – e nesta imagem se resume a vida de alguém feliz. É o momento de aproveitar o que nos resta de estrada, sentir seus cheiros, apreciar suas curvas e a bela paisagem em volta. Mas, como disse, tal se dá apenas com os felizes, os bem-resolvidos, aqueles que venceram.

Para alguns, como eu, a coisa desenrola de modo diferente. Após o turbilhão do cruzamento, percebi que meu carro acabou a gasolina e tive de encostá-lo no acostamento. Olhei para trás e vi o tempo – um enorme, poeirento e sinistro caminhão – igualmente estacionando, mantendo o motor ligado e sem nada dizer ou mostrar.

Pessoas como eu não conseguem deixar de escutar o motor deste bruto, murmurando ameaçador, em marcha lenta, a responder coisas que jamais tive a coragem – ou a perspicácia – de perguntar. A lufada de vento de seu deslocamento não pára, inexplicavelmente. Permanece jogando poeira em meus olhos, fazendo meu corpo balançar – um passado que nunca acaba, jamais fica para trás.

É como se fosse um caminhão mal-assombrado, povoado pelos fantasmas de meu passado que se recusaram a seguir estrada e resolveram ali parar, para me infernizar. Lembranças, arrependimentos, culpas – tudo ressurge, tudo reaparece, tudo renasce e re-machuca.

Amaldiçoo a vida, meu destino, mas lembro que a culpa sempre será minha: tive todas as chances de abastecer meu carro, de prepará-lo para a viagem, mas dispensei em minha imprudência e arrogância.

Agora, resta-me a sentença de permanecer ali, enguiçado e sendo obrigado a assistir a maratona de fantasmas que tal e sinistro caminhão jamais desistirá de me esfregar na cara.

Passei por todos os postos de gasolina, tive todas as chances e oportunidades, mas não parei em nenhum.

Agora é ficar aqui, até que a noite inevitável chegue e leve tudo embora.

Será um alívio.



Walter Biancardine



sábado, 30 de agosto de 2025

A IDA DOS ÚLTIMOS: Luís Fernando Veríssimo (1936 - 30 de Agosto de 2025)

Foto divulgada pela outrora gloriosa Academia Brasileira de Letras

Agosto, o eterno mês do desgosto, jamais passa impune. Levou-nos agora Veríssimo, o filho Luís Fernando - sim, aquele que a gente lia suas crônicas na última página da Revista de Domingo, do Jornal do Brasil.

Não esconderei a enorme influência que ele teve não apenas em meu vício por crônicas mas, igualmente, por haver eu já imitado alguns temas insólitos que o mesmo explorou em seus escritos, plagiando-o: certa feita redigi um conto inteiro com auxílio de um velhíssimo dicionário luso-brasileiro, de 1949, chamado "Lello Universal", do qual retirei palavras vetustas e castiças e usando-as guiado, exclusivamente, pelo seu som tal qual ele já o fizera, uma vez. A depender do que soava, usava-a como denotativo de algo que se passava na história. Qual outra explicação para escrever que "o Rei, debochado, olhava seus súditos enquanto coçava seu estrôncio"?

Estrôncio é um elemento químico e a química literária brasileira se empobrece cada vez mais, com a partida de escritores que - pasmem - sabiam escrever e, não apenas, sabiam também como construir narrativas, embalar o leitor e conduzí-lo em seu mundo imaginativo.

Ilustro esta humilde condolência me valendo de imagem divulgada pela Academia Brasileira de Letras - outrora gloriosa instituição, que abrigou nomes como os de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Rachel de Queiroz e Guimarães Rosa, mas que hoje perde-se em mesuras e floreios demagógicos, nomeando excrescências como Fernanda Montenegro e até uma Míriam Leitão - para deixar minhas sinceras condolências à família de Veríssimo e, também, a todos os brasileiros.

Um país no qual escritores morrem de fome e um Twitter é considerado "textão", não pode ser levado a sério.


Walter Biancardine



segunda-feira, 25 de agosto de 2025

FALANDO SOZINHO -


Que o amigo leitor me perdoe, mas começo a segunda-feira já virado no Jiraya. Acordo, tomo café, vejo o que se passa no Brasil e no mundo, sento para escrever e só aí percebo: escrever para quê? Para quem? Tecer criticas? Não passa de uma reclamação, e quem reclama quer providências - de quem? Fazer análises políticas soa mais chique, mas para quem ler e fazer o quê com isso? Metade não entende e a outra metade odeia. Ensaios filosóficos? Só se for para mim mesmo, por minha própria salvação, pois em um país em que se acha um Twitter longo demais, é perda de tempo tentar ser mais profundo que um pires.

E só então me dou conta que me comporto como um prisoneiro de um vício - a compulsão de escrever, relatar, analisar, e que termina por não interessar a ninguém pois bom mesmo é saber se o Vasco foi rebaixado de novo. O viciado sabe que só se lasca, ao satisfazer sua gana. Mas segue mesmo assim, pois é um vício - destrutivo, maligno, que afasta amigos, parentes, destrói relacionamentos e nos marca como leprosos ao convívio humano. Mas é preciso escrever.

Faço isso há décadas, e me sinto tal qual aquele antigo meme da velhinha viciada na marofa, que alega fumar há 40 anos e até hoje não se viciou. O quê consegui escrevendo? Abrir os olhos de alguém? Conscientizar inocentes que estavam sendo usados? Mostrar que nem sempre o novo, o moderno, é bom e que temos milênios de uma tradição mais que provada à nossa disposição? Não, ninguém mudou por minha causa - se em algum momento leram o que escrevo ou viram meus antigos vídeos, foi muito mais para ver suas próprias opiniões saindo de minha caneta ou boca, do que para aprender algo.

Também escreví livros. Best sellers? Longe disso: o que ganhei com eles deu para comprar dez pãezinhos e duas mariolas. Meu canal no YouTube, que ainda me rendia o suficiente para ajudar no supermercado - embora não tenha aberto o pensamento de ninguém - foi desmonetizado e me roubaram 28 vídeos; calado para sempre, em suma.

E é neste momento que penso: para quê? Para quê, meu Deus?

Certamente aparecerão amigos gentis que dirão para eu continuar, que o que faço ajuda as pessoas, que é uma missão ou até mesmo - ninguém é perfeito - que gostam muito do meu estilo de escrever. Agradeço, mas o Brasil continua o mesmo e nada mudou.

Então, por quê diabos continuo insistindo em escrever?

Ao fim e ao cabo, talvez seja pelo mais reles e vil dos motivos: pelo meu ego. Por me sentir importante ao ver meu nome estampado em publicações do Brasil e da Europa, ou na capa de meus livros - vaidade, pura vaidade em uma insana masturbação ególatra. Sei que nada causo, nada mudo, nada ajudo - aliás, nem eu nem ninguém, pois a muralha da omissão do brasileiro é intransponível - mas insisto, apenas pelo prazer solitário que, depois de velho, transferiu-se do banheiro para meu escritório. E exclamo, orgulhoso: "Eis meu nome impresso! E consegui X visualizações!" Sim, muitos visualizaram e... o que aconteceu? Nada. Sequer comentários. O silêncio ensurdecedor da indiferença.

Isso significa que vou parar, dar um basta nisso tudo e mudar de vida?

Tarde demais. Não há como mudar de vida já em sua reta final, aos 61 anos. Continuarei escrevendo, dando as pequenas e ilusórias alegrias ao meu ego, mentindo para mim mesmo e fingindo que ajudo em algo, pois escrever é a única coisa que sei fazer - todas as minhas outras habilidades ficaram para trás, pois estou velho demais para isso.

E é neste estado de espírito que começo minha semana, buscando desesperadamente aquelas postagens de motivação e autoajuda que muita gente gosta de publicar - e que, aprendi, são muito mais para motivar a si mesmo que aos outros - para tentar me animar para mais sete dias de espancamento de um sistema assassino e narcotraficante.

Com toda a doçura do coração, digo: boa semana a todos!


Walter Biancardine 


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

O CALOR EMBURRECE -


A temperatura cai e o brasileiro, forasteiro no frio, pensa somente em comer: chocolate quente, uma sopinha, fondue e por aí vai.

Sim, o frio é muito bom para tais divertimentos gastronômicos, mas é igualmente excelente para alimentarmos o cérebro - este órgão que costuma morrer à míngua nestes tristes e ignorantes trópicos.

A leitura pede o frio, a introspecção, o recolhimento e até o aconchego de bela poltrona, enrolado em cobertores e rodeado por fumegante xícara, para seu apropriado deleite e proveito. E isto é um fato, quase que estatisticamente comprovado: diga, de imediato, qual país de clima notoriamente abrasador você poderia citar como um expoente cultural ou, ao menos, cujo povo possua um arraigado hábito de leitura.

A resposta eu posso adivinhar: nenhum. Sim, pois é humanamente impossível ler com o suor pingando nas páginas do livro. Tudo o que queremos é uma água de coco gelada, mergulho na praia e o "otium sine dignitate" - preferencialmente rodeado de torneadas e desinibidas senhoritas, vestidas com seu fio dental.

O melhor conselho que posso dar é "refrigere-se". Venda um rim, mas instale um ar-condicionado em sua casa e só aceite trabalhar em locais que ofereçam o mesmo equipamento, ou o amigo correrá o sério risco - tristemente comum a todos os brasileiros - de ver sua massa cinzenta atrofiar até a necrose azulada dos espectadores de BBB.

O frio acultura, nos permite vestir roupas dignas e até nos obriga a um comportamento menos "tropical malemolente", eis que é extremamente deselegante remexer os quartos em uma cafeteria da Copenhagen.

Frio é vida!


Walter Biancardine



quarta-feira, 30 de julho de 2025

MAIS UMA CENSURA DO FACEBOOK -

A nova propaganda da American Eagle está sendo atacada e chamada de “ Fascista” e acusaram de promover "eugenia" por apresentar uma mulher branca e loira.

Pois reparem os símbolos: carro antigo (feito para homens), mulher bela, magra e feminina e estrondosa "borrachada" no asfalto.

Isso fez com que este vídeo se tornasse impossível de ser postado na plataforma Facebook.

É isso aí!

Se isso é "eugenia", então sou "eugênico"!


Então quer dizer que a  Beyoncé pode posar com jeans Levi e isso é arte…
Uma mulher preta que alisa o cabelo e pinta de loiro…
Mas quando uma mulher branca faz isso, é uma crise nacional?



Walter Biancardine


sábado, 21 de junho de 2025

A "VÊ-ELETIZAÇÃO" DO RIO DE JANEIRO -



A palavra do título é um neologismo trôpego, que criei a partir da sigla VLT - Veículo Leve Sobre Trilhos, um simples bonde em traje esporte fino - que serviu como justificativa para os governantes cariocas condenarem o centro nervoso e econômico do Rio de Janeiro à morte, transformando suas principais artérias em "ruas de pedestres" - e é conhecida a repulsa que o ser humano médio sente por tais logradouros, a menos que não ultrapassem uma curta distância.

Tal medida, creio que proposital, terminou por provocar o esvaziamento do bairro, mais que centenário em suas funções e que hoje não passa de um deserto, destinado somente a servir como cenário de fotografias de turistas e passeios de alguns eleitores-zumbis, cativos. Entendido o conceito, aplicado com sucesso na antiga capital cultural do país, passemos adiante.

O Estado não quer o povo nas ruas, seja em seus afazeres cotidianos e, muito menos, sentindo-se íntimo das mesmas ao ponto de utilizá-las em protestos. A obra magna da engenharia social - a quarentena da COVID - "acostumou" e viciou o povo em supostas comodidades do home-office e abriu caminho para as mais absurdas e abusivas intromissões do Poder Oficial sobre nossa vida diária.

Deste modo, temos hoje o desgosto de ver estas estratégias se espalhando por diversas outras cidades, a ponto de governos, ONGS (sempre elas) e a cínica "sociedade civil organizada" se intrometerem até mesmo na mais singela das praias - sim, pasmem: praias - legislando, impondo e, pior, edificando nas mesmas, e tudo isso "para o nosso bem".

Recentemente, em um misto de saudosismo e curiosidade, resolvi revisitar a cidade de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, e que poderia ter deixado as ilhas gregas no chinelo, não fossem a incessante roubalheira, conveniências políticas, acordos espúrios e o inevitável QI 83 de seus governantes.

Milênios atrás, quando os dinossauros ainda caminhavam sobre a terra e os bichos falavam, eu era íntimo desta cidade e de suas praias. Ainda um gurí (piá pra vocês aí do Paraná, molequinho para brasileiros em geral), estava sempre à bordo de meu Jeep com meu pai, ora indo pela estrada, ora dirigindo direto pela praia, até alcançar a cidade e nosso objetivo: a Prainha, onde comíamos o inimitável filé de peixe do Carlão - verdadeiro cover de Jamelão, com sua voz potente e afinação - e tomávamos cerveja na varanda da casa de Lucy, que era construída diretamente sobre as areias da praia, bem no canto da mesma e quase já nas rochas do canto direito.

Também lembro de lá chegarmos nas lanchas de meu pai e mergulharmos em busca de peixes e mariscos, e tudo isso em um ambiente absolutamente natural, sem interferência da mão do homem. Contrariando a doutrinação atual, tratava-se de locais limpos, sem as fatídicas embalagens e sacolas plásticas de hoje, e onde haviam peixes, lagartos nas rochas, vegetação natural e tudo o mais necessário para que a considerássemos como nossas ilhas gregas ao alcance das mãos.

Mas então chegaram as ONGS, as "bandeiras azuis", a "preservação ambiental" e tudo isso motivado pelas hordas de farofeiros que, por onde passavam, sequer a grama nascia mais - sim, um problema real e que urgia resolução. Mas o que fazer quando a solução é pior que o problema? O que fazer quando tais farofeiros são bajulados, seduzidos e mimados pelos próprios governantes?

Resta-nos aceitar que tais governantes simplesmente destruirão tudo; em cada pedra, cada cacto e, se puderem, em cada peixe tentarão deixar uma placa de bronze com seu nome, declarando-se como "salvador da natureza". E assim aconteceu com Arraial do Cabo.

Se o amigo leitor é cardíaco e pensa em visitar o Arraial do Cabo, evite surpresas já sabendo que a prefeitura construiu um muro - sim, um MURO! - separando parte da praia do calçadão lá construído. A desculpa? Conter as preciosas dunas de areia, tão preciosas que incentivam o nascimento de vegetação da restinga sobre as mesmas, e que as transformarão, com o passar do tempo, em simples morros de terra.

Não satisfeitos, nesta mesma praia - dos Anjos - a Marinha do Brasil surtou (é o termo) e edificou enorme construção no canto esquerdo da praia, vedando a passagem de banhistas. Ao que parece, o antigo prédio do IPQM - Instituto de Pesquisas da Marinha - tornou-se pequeno para que suas pesquisadoras possam medir o crescimento das tartaruguinhas que por esta região desovam.

Ao invés de areia e praia, prédios para se alugar unidades para temporada; asfalto e calçadões, nos arremedos de Avenida Atlântica, e quiosques, quiosques e mais quiosques - todos vendendo a mesma coisa, pelo mesmo preço e alguns até - pasmem - em frente ao vergonhoso muro da prefeitura, que "contém a marcha das dunas". Você lá pode sentar, pedir uma cerveja e olhar para o muro. E é só.

Confesso que não tive disposição para tentar revisitar a Prainha, destino de maior sucesso da cidade. É mais fácil entrar na residência papal no Vaticano que acessar este local, o qual você terá de deixar o carro como pagamento de seu estacionamento, além de cumprir uma centena de burocracias - impostas pelo Estado, a prefeitura - para, finalmente, molhar os pés nas suas gélidas águas.

Mas, creia: tudo isso "é para seu bem", para "preservar o meio ambiente". É uma pena que tenham abominado a preservação de nosso bem-estar, mas o pagador de impostos é quem menos interessa, nesta sórdida equação.

Dou graças à Deus por estar de malas prontas para ir embora da Região dos Lagos, após um quarto de século vivendo por aqui.

Breve estarei de volta ao Rio, terra onde nascí e me criei.

E poderei andar de VLT.



Walter Biancardine



domingo, 15 de junho de 2025

COUNTRY ROADS, TAKE ME HOME TO THE PLACE I BELONG...


Meus dias de pastos desertos, bois, vacas e cavalgadas de pastoreio terminaram, mas só agora vejo que deixarão saudades.

Horizontes infinitos, o vento gelado ao nascer do sol, o cheiro de Baião - meu cavalo - e a sensação indescritível de liberdade sustentavam a solitude providencial, que terminou por me encaminhar a novos rumos na vida.

Agora, malas prontas, vivo a iminência de voltar para minha terra natal - asfalto, trânsito, buzinas, poluição - mas que, confesso, tem uma querência especial para mim.

Os pastos ficam para trás, meus dias de vaqueiro também - bem como a solidão.

Agora é hora de voltar ao mundo concreto e tratar da vida.

Em breve.


Walter Biancardine


quarta-feira, 11 de junho de 2025

EDUARDO PAES MATOU O CENTRO DO RIO -


Desde a Remodelação do Centro da Cidade por Eduardo Paes o local esvaziou, escritórios se mudaram e o local estagnou - e não foi só estagnação - foi uma espécie de morte clínica com aparência de modernização.


A chamada "Revitalização do Centro do Rio", especialmente na gestão de Eduardo Paes com o projeto “Porto Maravilha”, foi uma dessas cirurgias urbanísticas que arrancam o coração do paciente para depois dizerem que ele está mais saudável porque está com o rosto lavado.

Vamos por partes.

O que se prometeu:
* Um novo centro financeiro e cultural.

* Reocupação de áreas degradadas.

* Valorização do transporte público (VLT, ciclovias).

* Gentrificação “do bem”, segundo eles.

O que de fato aconteceu:
* A região central, sobretudo entre a Av. Rio Branco e a zona portuária, perdeu densidade demográfica e comercial.

* Escritórios tradicionais se mudaram para a Barra e para a Zona Sul, fugindo de uma área que virou um canteiro de obras eterno - e depois, um deserto modernoso.

* Pequenos comércios faliram aos montes por causa da longa duração das obras e da falta de circulação.

* O Porto Maravilha virou um projeto bonito no papel, com calçadões e museus cenográficos (como o Museu do Amanhã, aquele escorredor de pratos feito de concreto), mas sem vida real ao redor.

* A segurança continuou precária, e à noite a região virou terra de ninguém.

Em resumo:
Houve um esvaziamento real. O centro perdeu vitalidade, e a tal "revitalização" - termo de marketing usado para cobrir processos de expulsão econômica e deslocamento social - produziu um espaço artificial: bonito em foto aérea, impraticável no cotidiano.

A estética venceu a funcionalidade. Tiraram o caos criativo do centro e puseram no lugar um catálogo de urbanismo internacional, desses que agradam ONG de arquitetura em Oslo, mas não servem pra quem precisa pegar o ônibus às 6 da manhã e comer num boteco às 13h.

Um diagnóstico duro: o centro do Rio virou uma maquete ambulante. Bonita, mas fria, e sem alma.

E boa parte disso se deve às decisões tomadas durante a tal "remodelação", obra e graça das frescuras do socialistíssimo Eduardo Paes, o homem que matou o Centro nervoso do Rio de Janeiro.


Walter Biancardine



quarta-feira, 4 de junho de 2025

A SETE PALMOS ABAIXO DO CHÃO NÃO HÁ SINAL WI FI -

 


O artigo 19 do Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) estabelece que as redes sociais e plataformas digitais só podem ser responsabilizadas por danos causados por conteúdo ilícito publicado por usuários se não removerem o conteúdo após uma ordem judicial específica.

A pretensão do ditador Alexandre de Moraes é adiantar o expediente, obrigando as plataformas a um processo de auto-censura e vigilância prévia de todo o conteúdo postado – coisa que já acontece, basta ver meus 28 vídeos excluídos e a desmonetização definitiva de meu canal no YouTube, feita sem nenhuma ordem judicial que assim determinasse – e as tornando solidárias, em responsabilidade, ao usuário infrator.

Tal realidade se daria de maneira independente de ordens judiciais e provocaria dois verdadeiros tsunamis: escritórios das plataformas ensandecidos e assoberbados de trabalho, sem condições de qualquer avaliação justa de conteúdo, bem como a corrida desenfreada ao Judiciário brasileiro, provocada pelos ofendidos em busca de reparação.

Não saberão, as iluminadas Excrescências, de todo o transtorno provocado? Isso para não comentarmos a clara imposição de uma espécie de “censura terceirizada para a iniciativa privada”?

É óbvio que sabem, pois de inocentes nada possuem. A manobra é deliberada e visa um ponto além da curva, tão além e absurdo que sequer foi ainda ventilado por canais como a Revista Oeste, Rádio Auriverde, Revista Time Line e outros. O que desejam é, realmente, provocar as queixas e apelos das partes envolvidas – big techs e queixosos – em decorrência das demoras, gastos e transtornos oriundos dos processos judiciais. E qual seria a solução?

A solução é a “galinha dos ovos de ouro” no coração pútrido dos togados: o sistema Judiciário brasileiro “assumiria” tais pesadas tarefas – docemente constrangidos – e se tornariam, finalmente, o Departamento Supremo de Censura Federal, comandado – é óbvio – pelo descapilarizado Imoraes. Este é o ponto onde querem chegar.

Lei Magnitski? Sanções dos EUA? Sequer uma única ruga provocam, pois o ladrão descondenado Lula está na França – precedido pela senhora Primeira-Galinha, Canja da Silva, a adular o socialistíssimo Macron – sim, aquele que levou a bofetada do traveco.

União Europeia? Igualmente pouco importam, pois Alemanha, Países Baixos e a própria Inglaterra – hoje um califado muçulmano – estarão ao seu lado. Do mesmo modo que Rússia, China, países (leia-se “ditaduras”) árabes, Coréia do Norte e até, quem sabe, o indecifrável Japão.

Por sua extensão territorial, posição geográfica estratégica, reservas minerais raras e capacidade de ser a horta sino-soviética, contando ainda com o infindável dinheiro do narcotráfico – sabe aquele garoto nóia, filho de sua prima? Pois é, ele é um dos que sustentam isso – a ditadura do consórcio Lulo-Moraesliano, amplamente amparada pelo Centrão, Farialimers, Michel Temer, José Sarney e outros, nada tem a temer (sem trocadilho, por favor).

Enquanto Luís Carlos Prestes e Leonel Brizola, lá debaixo no fundo dos infernos, olham e se deliciam com isso, José Dirceu sorri satisfeito ao perceber que sua inteligência limitada superou o cérebro simiesco de 230 milhões de brasileiros, incluindo entre eles parlamentares, militares e povo de modo geral.

Hoje inicia-se oficialmente a ditadura no Brasil, e estamos de parabéns.

Afinal, há uns bons 60 anos pedimos, imploramos por isso.



Walter Biancardine



terça-feira, 20 de maio de 2025

BEBÊS REBORN -

 


Recentemente escrevi pequeno resmungo nas redes sociais sobre este novo fenômeno, que se resumia no seguinte: “para os que ainda não sabem, é um troço que inventaram para fazer as mulheres resolvidas, emancipadas e empoderadas brincarem de boneca até os 50 anos. Normalmente é fruto dos bons conselhos dos amigos maconheiros da universidade, da ausência paterna ou do cansaço em limpar cocô - ser ‘mãe de pet’ é muito trabalhoso e tornar-se ‘mãe de planta’ é só para quando se mudar para Lumiar e se tornar a orgulhosa mamãe de uns 35 pés de cannabis. Há que se repensar sobre a volta dos hospícios e da internação compulsória: é a Síndrome de Peter Pan versão feminina. Pura doença? Um distúrbio psíquico? Ou soma-se a isso profundas carências e desejos de alienar-se das responsabilidades da vida real, fazendo-se de louca?

Resolvi eu mesmo responder tais questionamentos, em um pequeníssimo ensaio:

A Boneca e o Abismo: Notas sobre a Infantilização da Mulher Moderna e o Colapso da Maturidade Simbólica

Vivemos tempos em que os sintomas de profunda demência coletiva se vestem de brinquedo, e o colapso espiritual da civilização aparece à venda em lojas de artesanato. O fenômeno das chamadas "bebês reborn" é, ao mesmo tempo, grotesco e revelador. À primeira vista, trata-se apenas de bonecas hiper-realistas destinadas a colecionadores ou a mulheres que, por um motivo ou outro, não puderam ou não quiseram ter filhos. Mas isso é apenas a casca do fenômeno. Quando observamos com olhos simbólicos, teológicos e filosóficos, o que se revela é uma radical recusa da realidade e da maturidade: uma regressão espiritual mascarada de afeto.

O rebornismo não é exclusividade brasileira. Surgiu nos Estados Unidos e Europa como arte e objeto de colecionismo, mas aqui foi elevado ao estatuto de culto popular: mulheres que tratam bonecas como filhos reais, que as levam ao pediatra, fazem enxoval, comemoram aniversário e batizado. O que, à primeira vista, poderia parecer apenas brincadeira inofensiva ou um consolo emocional, revela-se como um sintoma de algo mais profundo: a rejeição simbólica do tempo, da morte, da responsabilidade e do sacrifício.

Estamos diante de um novo tipo de distúrbio psíquico-social, que poderíamos chamar de "maternidade estética". Trata-se de uma maternidade sem carne, sem sangue, sem leite, sem vigília noturna, sem renúncia. Um simulacro de entrega, onde a mulher desempenha o papel materno sem precisar atravessar os horrores e as belezas da criação de uma vida real. É como desejar o altar, mas sem Deus; a missa, mas sem o sacrifício – a versão feminina do garoto que pega o carro do pai: quer “parecer”, não “ser”.

A maternidade, em sua essência simbólica, é um ritual de morte e renascimento. A mulher que se torna mãe precisa morrer em si para renascer no outro. O rebornismo, por sua vez, oferece uma fuga: é a maternidade sem cruz, sem ressurreição. Uma maternidade gnosticamente depurada da realidade corpórea, onde o corpo do filho é um boneco de vinil e a alma da mulher permanece intocada, estagnada, infantilizada e sem nenhuma obrigação, responsabilidade ou seios caídos e cicatrizes da cesariana.

Não se trata apenas de um desvio patológico individual, mas de um sintoma civilizacional. Numa época que glorifica a juventude eterna, que foge da dor e da morte como se fossem ofensas pessoais, não surpreende que se tente suprimir também o peso existencial da maternidade. O bebê reborn é a criação perfeita da mulher “empoderada” que se recusa a crescer: quer brincar de boneca, mas com verniz adulto; quer o vínculo, mas não o risco; quer o afeto, mas não o comprometimento.

Essa é, em essência, a versão feminina da síndrome de Peter Pan que citei acima, mas com um agravante: enquanto o homem que se recusa a amadurecer costuma fugir do casamento, da paternidade e da responsabilidade, a mulher rebornista tenta simular essas mesmas coisas, como quem encena uma peça para si mesma. Trata-se de uma farsa emocional, uma autoficção afetiva onde o vazio da alma é preenchido com vinil pintado a mão.

A civilização que substitui filhos por bonecos está espiritualmente esgotada. E mais: está às portas da demência simbólica. Porque onde não há mais distinção entre realidade e encenação, entre o sacrifício e a performance, entre o sangue e a tinta, não há mais mundo. Há apenas uma bolha narcísica onde cada um representa a si mesmo, para si mesmo, num teatro sem público e sem Deus.

Voltar a brincar de boneca aos cinquenta não é libertador. É o último sintoma de uma alma que se recusa a atravessar a dor da maturidade. Não por falta de coragem, mas por excesso de vaidade.

E onde não há coragem nem humildade, resta apenas o riso melancólico do palhaço que brinca sozinho num picadeiro vazio.

Que venha o hospício ou que venha o exorcismo. Mas que não digam que isso é normal ou, em breve, estas mesmas “mamães reborn” estarão fazendo “comidinhas” em panelinhas, forninhos e fogõezinhos de brinquedo, junto com as amiguinhas da creche.

Mas há mais um ponto: mães e pais de plantas e pets.

Ao somarmos os “pais de pet” e “mães de planta” ao fenômeno do bebê reborn, temos o verdadeiro Tríptico da Infantilização Moderna – a Santíssima Trindade da recusa ao real. Três formas distintas de escapar da gravidade simbólica da vida adulta, de abolir o drama da existência e trocar o suor da carne pelo verniz do afeto controlado.

O rebornismo não está só. Ele é apenas o vértice mais teatral de uma tendência mais ampla: a substituição dos vínculos reais por vínculos simbólicos estéreis – seguros, higienizados, sem transcendência. O mesmo impulso que leva uma mulher a carregar um boneco de vinil como se fosse um bebê, leva também à criação do “filhinho de quatro patas” e da “planta que é quase uma filha”.

O fenômeno dos pais de pet é a transposição afetiva da paternidade para o campo da simulação emocional. É o desejo de afeto unilateral, de controle absoluto sobre o outro, sem o risco da alteridade real. Um cachorro – ou gato – não contradiz, não decepciona, não exige sacrifício de alma, apenas de rotina. Ele preenche o vazio, mas não desafia a alma. É uma paternidade sem legado, sem linhagem, sem história.

Já o cultivo de plantas como substituto simbólico da maternidade ou paternidade é ainda mais gélido – é a redução da entrega vital a um ato de estética botânica. Ser “mãe de planta” é um estágio inferior da alienação: a vida vegetal, silenciosa, obediente, torna-se espelho da vontade narcísica. A planta não chora, não exige, não rompe com nada. Ela apenas cresce – ou morre – conforme os caprichos de sua dona. É a maternidade que se deseja pura contemplação, sem drama, sem eros, sem cruz.

Ora, o que une esses três fenômenos – bonecas, bichos e vasos – é o horror à alteridade incontrolável. O filho verdadeiro, o esposo, o real, são abismos onde a alma amadurece ou se quebra. Já o pet, a planta e o boneco são espelhos passivos: só devolvem aquilo que projetamos neles. São os “relacionamentos” perfeitos para a geração do narcisismo estrutural, quase genético de hoje.

Essas formas de simulação afetiva são sintomas de um Ocidente que perdeu a coragem de ser. A coragem de parir, de sofrer, de perder o sono por um filho, de ver o outro como mistério e não como projeção. Elas não representam amor, mas medo. Medo da morte, medo do outro, medo de amar até o fim.

E quando o amor é substituído por um simulacro, o que resta é o deserto do sentido. Um deserto florido com lavanda sintética e cães com nome de bebê. Mas ainda assim, deserto.

Não há esperança de cura se nos deparamos, hoje, com adolescentes que preferem namoradas virtuais, criadas pela Inteligência Artificial, do que o corpo quente, beijos molhados – e brigas, cobranças, ciúmes – da verdadeira, de carne e osso.

A humanidade foge do real, e da própria existência de outros humanos.

Nostradamus estava certo: o mundo acabou.



Walter Biancardine



sexta-feira, 18 de abril de 2025

BRAÇOS ABERTOS SOBRE A GUANABARA -

Não há como explicar o feitiço carioca para quem, nestas terras, não nasceu.

Qual os melhores "rabos-de-galo" dos mais infectos e concorridos botequins da úmida e arbórea Copacabana, a mistura se dá quando adicionamos às paisagens - sempre fermentadas pelas belas mulheres em meio à calçadas apinhadas e trânsito caótico - generosas doses de Pão de Açúcar, bondinho e, para os mais calejados, Noites Cariocas.

Pitadas de Rodrigo de Freitas, seus pedalinhos e as irresistíveis casas da rua Vitória Régia trazem de imediato a lembrança de Gatto Pardo, Roxy Roller e até - warum nicht? - a boa e bela Biblos, de tantas madrugadas felizes.

Doses muito bem medidas de Arpoador, junto com toques de Posto 9, Caneco 70 e Baixo Leblon, que sempre pedirão o complemento dos quilométricos Cervantes pois, prestimosos, evitam ressacas desnecessárias.

E no voo de pássaro provocado por tal e embriagadora mistura, adentramos na perna do vento rente ao Cristo Redentor - braços abertos sobre a Guanabara - giramos base, roubamos o açúcar de nossas Noites Cariocas e encaixamos na final, para o delicioso glide que nos deixará, orgulhosos de nossa origem e do pouso de três pontos, no bom e velho Santos Dumont.

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro... que estas linhas capengas sejam uma nota de pé de página em nossa diária, enlouquecedora mas deliciosa Crônica da Cidade Amada.


Walter Biancardine 


Quer ouvir o saudoso "Samba do Avião", de Tom Jobim? Clique no link abaixo.

https://youtu.be/WgXcHwnfGOs?si=sW1owD0CS6KPjy2n




domingo, 13 de abril de 2025

VISITA -


Este é um daqueles domingos que, pouco importando minha já avançada idade, sinto um quase instintivo desejo de ir à casa de meus pais visitá-los.

TV sempre ligada, perguntar as últimas do jornal, minha mãe trazendo um café e dizendo que vai ter coração de galinha pro almoço - que detesto, mas sorrio satisfeito.

O pai contando histórias do trabalho, um caminhão que virou a carga na estrada ou mesmo dizendo que planeja vir à Cabo Frio botar a lancha na água. Os irmãos chegam, as implicâncias -saudades - também, junto com interminável e ensurdecedora horda de sobrinhos.

Cunhado não é parente, é destino - há que se aturá-los e alguns, à bem da verdade, até são divertidos.

Almoço à mesa, a disputa imortal entre os irmãos pelo melhor pedaço ou medindo copos para ver quem encheu mais - crescemos mas algumas coisas ficam.

Fim de tarde a cerveja, a moleza, a vontade de voltar para casa sabendo que aquela sacrossanta segurança, aquela paz inominável "sempre estará lá".

Mas não estará, hoje descobri. Se este ainda é seu domingo, aproveite.

Às vezes, tudo o que queremos é voltar para casa.

E fingir que toda nossa vida foi apenas uma longa e difícil viagem.


Walter Biancardine 



quinta-feira, 10 de abril de 2025

SOU MEU MELHOR LEITOR -


Raciocino quando caminho, raciocino quando escrevo.

Se já tive a ousadia de costumar andar vinte quilômetros por dia quando morava solitário, no pasto, recebi em troca uma enorme clareza de ideias. Mas andar cansa e estou velho.

Escrever é algo como uma compulsão para mim. Enquanto escrevo, raciocino, medito, pondero, transcendo. Já escrevi seis livros, milhares de artigos, inúmeros ensaios filosóficos bem como algumas poucas teses - escrever não cansa, estou velho mas não sinto.

Tal é o paradoxo: escrever um ensaio de doze laudas sobre o amor, narcisismo e Fernando Pessoa, mesmo sabendo que - não só pelo tema mas, também, por suas dimensões - ninguém o lerá.

A verdade é que não escrevi para ninguém além de mim. É meu diálogo comigo mesmo e minha solidão - única companhia fiel ao longo de minha vida.

Dedico meu trabalho às vozes da minha cabeça - mesmo que poucos e eventuais leitores se metam entre nós.


Walter Biancardine



sexta-feira, 4 de abril de 2025

O PAÍS DO STATUS -


Não gastarei linhas discorrendo sobre as vaidades primárias de ostentar automóveis, jóias, roupas ou até mulheres cobiçadas coletivamente, pois tais futilidades apenas irritam mas em nada prejudicam minha vida. O que desejo comentar é algo muito pior, verdadeira mentalidade farsesca a imperar no universo acadêmico brasileiro, que apressa-se a nos tornar o país das fraudes - fraudes intelectuais, pura busca de status quo, compulsão pela arrogância e ostentação de títulos.

Lanço a pergunta: quantos de vocês já se deixaram impressionar, intimidar, convencer ou calar por alguém que - em agonia retórica - lançou mão da pútrida "carteirada" de dizer-se um "Doutor", um "Mestre" ou mesmo "Pós-Graduado" em qualquer coisa?

Creio que muitos sabem das minhas desventuras junto à esta comunidade intelectual, impermeável qual granito à ideias divergentes de suas "catilinárias do consenso doutrinário" e que rendeu-me incontáveis e ferozes discussões com os referidos e empolados "Ph.D's" - e, nas quais, todos perderam e não encontraram respostas (ou, muito menos, antíteses) aos meus argumentos.

Pois bem, tais linhas devem-se à minha educação de berço - e o que é do berço só a tumba tira - em não respondê-los com uma única pergunta, após a infalível "carteirada": " - O senhor é pós? Quem fez seu TCC?". Ou, prosseguindo, caso fosse um Mestre: " - Quem redigiu sua dissertação?" Ou pior, sendo um Ph.D: "Quem escreveu sua tese?" E o fim da linha, no pós-Doc: " - Pode me apresentar o autor de seu relatório?"

E onde quero chegar com isso? Para ser direto, à fraude, que impera no meio acadêmico brasileiro. Nenhum deles escreveu nada, redigiu nada, estudou nada. Completas nulidades, anafabetos funcionais a carregar, entretanto, pomposos diplomas e certificados que os autorizam a proferir platitudes como grandes novidades ou - para os mais ousados - absurdos cuja única função é chocar valores e princípios vigentes.

Tal tipo de estelionatário vale-se, normalmente, dos serviços de professores - em desespero financeiro - que prestam-se a desenvolver, em parte ou, pior, no todo, seus trabalhos que garantirão o novo e dourado "status" ambicionado.

Como um "Doutor" em filosofia pode não saber filosofar? Ou este elemento acredita que ter lido (porcamente) Foucault, Sartre e outros infelizes - pois Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino é demais para seu espectro doutrinário e espaço cerebral - faz deles "Professores Doutores"? Ler é uma coisa, saber nomes, datas e lugares pouco vale. O que eles jamais aprenderam é o "ato filosófico", a filosofia como método de pensamento, como - desculpem a redundância - "filosofia de vida"; isto não sabem e jamais aprenderam. E eu sei, Olavo de Carvalho me ensinou.

Passada a borrasca de meu tempestuoso contrato com a graciosa Doutora - esta sim, verdadeira "Ph.D", pois sabe e tem propriedade sobre o que fala, embora fraca filosoficamente e carecida de meu auxílio - creio poder falar com conhecimento de causa sobre meu assombro, ao ver-me em um país onde a "elite intelectual" resume-se a um punhado de fraudadores, cujos títulos foram obtidos às custas de abnegados anônimos, que precisavam pagar suas contas ao final do mês.

Esta é a "elite" do pensamento brasileiro? Que desconhece a própria cadeira que ocupa e, eventualmente, leciona? Que jamais mergulhou em noites insones de pesquisa e aprofundamento para escrever seus trabalhos?

Não à toa o Brasil não dispõe de trabalhos citados por nenhuma revista ou publicação científica de valor internacional. Não à toa os candidatos à pós-grado, por exemplo, precisam adequar seus temas às preferências de seus orientadores, pois os mesmos não querem se dar ao trabalho que algo "novo" poderia provocar - e a academia brasileira é avessa ao novo, à divergência, ao embate de ideias.

Que este desabafo seja meu manifesto público de desprezo por tal "elite" acadêmica, reles fraudadores, mentirosos primários e inaptos, mas com muita pose e, alguns, até mesmo com canais no YouTube.

E muita bajulação em torno, cargos vantajosos e dinheiro no bolso também.

Pois este sempre foi o objetivo primeiro de todos eles.


Walter Biancardine