quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ENTRE CAVALOS E CAFETEIRAS

nietzsche endoidou ao ver um carroceiro espancar o cavalo.
eu explodi após minha cafeteira elétrica queimar.
e ambos certamente se confrontam com a pergunta absurda e cruel:
“- mas foi só por isso?”

ninguém quis saber do passado de nietzsche.
o que ele sofreu, o que ele passou.
no máximo, referências maldosas à sífilis.
e só.

no meu caso poderiam resumir:
“- faltar luz dezesseis vezes no mesmo dia não justifica isso!”
sim, não justifica.
eu podia ter desistido de tomar café quente hoje.
bastaria desligá-la.

só não perguntaram se eu tenho mais algum luxo na vida.
não sabem que ganhei essa cafeteira anteontem.
e que era o único momento em que me sentia um ser humano.
com um café quente nas mãos.

e também não perguntaram – muitos sabem – sobre minha porca vida.
a dos últimos dez anos. isso não sabem ou, se sabem, preferem esquecer.
“não justifica”, dirão.
posso apostar que dirão.

então enfiem seus comentários e opiniões no fundo do cu.
só escrevi isso por ter magoado a única pessoa que ainda me pergunta:
“- como vai você?”

o resto – supostos amigos, parentes, conhecidos – podem ir à merda.
e, por favor, fiquem lá.

o louco da cafeteira pode ser perigoso.

para suas consciências.




Walter Biancardine


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