quarta-feira, 19 de agosto de 2026

GANÂNCIA


Sempre gostei de carros. 
Principalmente os mais antigos, que não eram smartfones com quatro rodas.

Também gosto de quase tudo que é antigo – móveis, ferramentas, aparelhos variados. Basta dizer que uso uma máquina de escrever, pra resumir tudo.

Meus gostos provocam os algoritmos do feed facebuqueano e, por vezes, aparecem coisas assim:
“Vendo VW Brasília, 1977 – R$65 mil”
“Vendo Chevette 1982 – R$45 mil”
“Vendo máquina de escrever Hermes 1975 – R$1.500”

E por aí vai.
Relógios Seiko dos anos 70 custando quase dois mil reais, cadeira de palhinha a quase mil e tudo aquilo que se possa emprestar – nem que seja forçando a barra – o cheiro de “antiguidade” passa, automaticamente, a custar preços absurdos.

Tenho estrada demais pra não saber que a mecânica de um Simca era uma porcaria. O relógio Seiko, mesmo sendo muito bom, era relógio de pobre. E móveis ruins sempre foram feitos e vendidos por uma ninharia.
Mas hoje tudo é “vintage”, “custom”, “old school” e por aí vai.

A ganância do vendedor é óbvia.
Mas a vaidade estúpida de quem compra tais coisas é mais evidente ainda, pois só há oferta onde existe demanda.
E esses vaidosos não percebem que criaram uma bolha. Ela vai explodir, e o Opala que pagaram quase cem mil reais voltará a valer, no máximo, uns quinze mil – e terão de ir ao proctologista extrair o automóvel lá de dentro.

A única vantagem real das coisas antigas é que podemos, nós mesmos, consertá-las.
Queria muito ter um Fusca. Com uma chave 13, um alicate, um arame e uma fita isolante nada me impediria de chegar em casa com ele.

Mas não posso sequer pensar em comprar um.
Os mais baratos andam pelos seus dez a quinze mil reais.

Não existem mais coisas velhas.
Agora, tudo é “antiguidade”.

Viva a ganância.




Walter Biancardine




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