segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O CENÁRIO É SEMPRE UM BAR


E o modelo é sempre o dono de um BYD querendo parecer caminhoneiro.
A merda não muda. É falsidade em todo lugar.
Frescos frágeis performando bruteza rude e cínica.

O sujeito escreve uma lista de compras, vê um vídeo de 8 minutos sobre Dostoievski e outro sobre Schopenhauer e pronto: eis um novo escritor maldito, beberrão (toma caipisaquê de frutas vermelhas) e depressivo, com vasta estrada de lágrimas e dores a adornar o caminho que, inevitavelmente, leva ao seu ego.

Essa raça nem sabe o que é ser um proscrito.
Não sabe o que é perder tudo – família, amigos, emprego e até casa pra morar – por ser quem se é.
Não sabe o que é insônia por causa da fome.
Nem o choro por causa das trapaças e golpes sujos de quem menos se espera.

Não sabe o que é beber até cair pra não correr o risco de deitar, pensar e nunca mais dormir – ou fazer merda pior.
Não sabe o que é andar em farrapos, ser tratado como lixo, discriminado por sua aparência e ainda chamado de maluco – “um indigente falando bem assim? Deve ter decorado uma página de livro, coitado…” 

Tenho certeza que esses estagiários de “durões” achariam uma glória ganhar cerveja e tira-gostos do dono do boteco por piedade – não só o cara sabe sua história como ainda te humilha com a pena que sente.

Essa raça não sabe o que é ter passado uma vida estudando filosofia, teologia, sociologia, antropologia e mais enciclopédias inteiras de cultura inútil e descobrir exatamente isso: cultura inútil. Todas elas.

Não sabem o que é ter gasto vinte anos escrevendo análises políticas com nome assinado, se expondo, e assinando somente sua sentença de morte profissional.

Não sabem o que é ter a idade que tenho, ter visto, passado e feito tudo e chegar à conclusão que nada sabe, coroando a própria existência com um vergonhoso “foda-se”.

Não sabem como é horrível ver a expressão de nojo nos outros.

E ver eles se afastarem de você.

Sim, o meu cenário é um bar.
Sempre um bar.
Fiz por merecer.

A energia elétrica aqui na roça é um vaga-lume.
Ela voltou só agora, depois de horas.
Então publiquei isso.

Sou um fracassado.
Mas, ao menos, legítimo.




Walter Biancardine



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