É difícil largar hábitos mais velhos do que muita gente que me lê.
Escrever é um deles.
Passei décadas fazendo isso por obrigação.
Eu era jornalista e escrever era o jeito que eu pagava as contas,ou pelo menos de fingir que um dia eu conseguiria.
Depois larguei o jornalismo e descobri que havia uma porção de demônios morando dentro de mim – e esses filhos da puta escreviam melhor que eu.
Então eu deixava que saíssem.
Escrevi sobre eles, contra eles, às vezes até por eles.
Durante algum tempo funcionou.
Agora não.
Eles continuam aqui.
Eu sei.
Estão sentados em algum lugar dentro da minha cabeça, fumando, olhando pra mim, sem dizer uma palavra.
E rindo.
E esse é o problema.
Antes havia barulho.
havia raiva,
fracasso,
mulheres brigando,
homens idiotas,
bêbados pendurados em mim,
igrejas onde me escondia,
políticos que eu xingava,
empregos de merda,
cães, cavalos,
Deus, o diabo
e todo o resto.
Eu pegava aquilo e transformava em palavras.
Agora tenho silêncio.
Um silêncio filho da puta.
Sento pra escrever e nada.
Não é falta de assunto.
É pior.
Parece que alguma coisa entupiu no caminho.
Sei que ainda existe alguma coisa aqui dentro, mas não sei onde está.
Talvez tenha cansado de mim.
Sei que não foi embora, mas também não sei onde está.
Não culpo.
Eu também faria isso.
Então talvez este seja um bom momento pra calar a boca.
Parar de escrever por algum tempo.
Largar a máquina quieta, deixar as palavras apodrecerem um pouco e ver se alguma delas volta, ainda que defumada.
Sei que alguns ficarão felizes, e não por maldade.
É que tudo demais enche o saco.
Até escritor.
Principalmente escritor.
Portanto, desta vez, é uma decisão terapêutica.
Pra mim e pra vocês.
Vamos todos descansar um pouco.
Semana que vem eu volto.
Talvez.
Walter Biancardine
Escrever é um deles.
Passei décadas fazendo isso por obrigação.
Eu era jornalista e escrever era o jeito que eu pagava as contas,ou pelo menos de fingir que um dia eu conseguiria.
Depois larguei o jornalismo e descobri que havia uma porção de demônios morando dentro de mim – e esses filhos da puta escreviam melhor que eu.
Então eu deixava que saíssem.
Escrevi sobre eles, contra eles, às vezes até por eles.
Durante algum tempo funcionou.
Agora não.
Eles continuam aqui.
Eu sei.
Estão sentados em algum lugar dentro da minha cabeça, fumando, olhando pra mim, sem dizer uma palavra.
E rindo.
E esse é o problema.
Antes havia barulho.
havia raiva,
fracasso,
mulheres brigando,
homens idiotas,
bêbados pendurados em mim,
igrejas onde me escondia,
políticos que eu xingava,
empregos de merda,
cães, cavalos,
Deus, o diabo
e todo o resto.
Eu pegava aquilo e transformava em palavras.
Agora tenho silêncio.
Um silêncio filho da puta.
Sento pra escrever e nada.
Não é falta de assunto.
É pior.
Parece que alguma coisa entupiu no caminho.
Sei que ainda existe alguma coisa aqui dentro, mas não sei onde está.
Talvez tenha cansado de mim.
Sei que não foi embora, mas também não sei onde está.
Não culpo.
Eu também faria isso.
Então talvez este seja um bom momento pra calar a boca.
Parar de escrever por algum tempo.
Largar a máquina quieta, deixar as palavras apodrecerem um pouco e ver se alguma delas volta, ainda que defumada.
Sei que alguns ficarão felizes, e não por maldade.
É que tudo demais enche o saco.
Até escritor.
Principalmente escritor.
Portanto, desta vez, é uma decisão terapêutica.
Pra mim e pra vocês.
Vamos todos descansar um pouco.
Semana que vem eu volto.
Talvez.
Walter Biancardine

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