não sei o que as estradas têm, mas elas me perseguem.
ou talvez eu nunca tenha conseguido deixá-las.
andei nelas quando criança, nas viagens com a família. depois, jovem, em aventuras de bicicleta. mais tarde, dirigindo caminhão. agora, velho, sigo como um peregrino.
as estradas nunca me largaram.
boa parte da minha vida ficou espalhada por elas. delas guardo lembranças, sonhos e ossos partidos.
foi nelas que fiz planos. foi nelas que os perdi.
já escrevi sobre acostamentos. os acostamentos são uma crônica da vida de quem passou por ali. um pneu furado, um retrovisor quebrado, uma cruz, uma garrafa vazia, um sapato sem dono. basta juntar os pedaços.
e eu continuo na estrada.
de carro, de bicicleta, de caminhão, de moto ou a pé.
já não é um caminho.
é tatuagem na alma.
ou cicatriz.
deve haver algum significado pra tanta estrada na minha vida. queria enxergar nisso um desenho do destino, uma promessa escondida logo depois da próxima curva.
olho pra reta desaparecendo no horizonte.
tem que haver uma boa surpresa.
porque o final da viagem eu já conheço.
sete palmos abaixo do asfalto.
Walter Biancardine
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