Estranho como a suíte Nº1 do senhor Sebastião me paralisa.
Um prelúdio cheirando à maresia e funcionando como máquina do tempo.
Traz uma memória genética – se isso existe – e me vejo, pelo sangue, um corso em batalhas no mar.
Todo o resto me empurra pro Mediterrâneo. Allemande, Courante, Sarabande, os Minuetos e o Gigue, tudo fede a madeira velha e vinho rançoso. Sebo de velas, cordas molhadas, peixe podre e um chamado sedutor do mar, cruzando Gibraltar.
Um violoncelo ecoando nos porões de um antigo veleiro.
Soa como buzina de navio em nevoeiro.
Sereia que alerta.
Córsega, Córsega; estranha terra expatriada que pariu meu sangue e danou algo em minha alma.
E o prelúdio volta.
Na minha cabeça é como as ondas do mar, inevitáveis.
Não há como ouvir e não enxergar o convés de um galeão. Misto de paz e guerra, bonança e privação, placidez e agonia.
E a proa estoura as ondas, apontando o gurupés ao alto e descendo temerária aos braços de Netuno.
Mas não é o vinho.
É Bach.
Ele fez isso em mim.
Walter Biancardine
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