sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O SOL MAIOR DE BACH


Estranho como a suíte Nº1 do senhor Sebastião me paralisa.
Um prelúdio cheirando à maresia e funcionando como máquina do tempo. 
Traz uma memória genética – se isso existe – e me vejo, pelo sangue, um corso em batalhas no mar.

Todo o resto me empurra pro Mediterrâneo. Allemande, Courante, Sarabande, os Minuetos e o Gigue, tudo fede a madeira velha e vinho rançoso. Sebo de velas, cordas molhadas, peixe podre e um chamado sedutor do mar, cruzando Gibraltar.

Um violoncelo ecoando nos porões de um antigo veleiro.
Soa como buzina de navio em nevoeiro.
Sereia que alerta.

Córsega, Córsega; estranha terra expatriada que pariu meu sangue e danou algo em minha alma.
E o prelúdio volta. 
Na minha cabeça é como as ondas do mar, inevitáveis.

Não há como ouvir e não enxergar o convés de um galeão. Misto de paz e guerra, bonança e privação, placidez e agonia.

E a proa estoura as ondas, apontando o gurupés ao alto e descendo temerária aos braços de Netuno.

Mas não é o vinho.
É Bach.

Ele fez isso em mim.




Walter Biancardine



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