Não há outra forma de escrever este
artigo que não seja em tom pessoal, pois uso a mim mesmo como
personagem para, quem sabe, servir de espelho para mais alguns outros
e poucos exauridos, como eu.
Desde o já longínquo ano de 1979
protestava eu contra a anistia, exigida pelo assim chamado “povo”
– que se resumia a artistas esquerdistas coordenados pela ampla
cobertura da Rede Globo – e tentava, inutilmente, publicar meus
impropérios contra tal medida em jornais de bairro ou até como
carta, dirigida às redações dos grandes jornais.
Obviamente eu não era ainda jornalista.
Tratava-se apenas de um adolescente furioso que, na falta de mulheres
dispostas a conceder atenções a um esquisitão, derivava suas
frustrações na escrita de protestos inócuos. Mas, libido à parte,
eu realmente acreditava naquilo que escrevia – e este foi o erro
que me acompanharia por toda a vida: jamais ter escrito uma só linha
a qual não cresse piamente, ainda que depois viesse a me arrepender.
Anos depois, já um profissional da
escrita, mergulhei de corpo e alma na restauração dos antigos
valores brasileiros, que teve como início o famoso protesto contra o
aumento das passagens de ônibus – “Não é pelos 20 centavos!”
- no governo Dilma Roussef, em 2013. E essa, talvez, tenha sido a
eclosão da doença que pode me tirar da luta neste momento: como
disse, jamais escrevi uma só linha que não acreditasse e, imbuído
desta crença feroz (valores, princípios, norte moral), pus minha
cara a tapa e mergulhei de cabeça na luta. Fui censurado, tive
inúmeras contas extintas (Twitter, Telegram), YouTube excluiu 28
vídeos meus e desmonetizou-me por completo, impedindo inclusive que
eu monetizasse minha página pessoal (também do Google), tive mesmo
um artigo excluído de minha própria página (!) e fui amplamente
xingado e odiado por conhecidos, desconhecidos, parentes, amigos ou
não tão amigos assim. As portas do mercado de trabalho se fecharam
para mim e fui reduzido a um “escrevinhador de artigos”, os quais
são ainda publicados, graciosamente, apenas pela boa vontade e
misericórdia de meus editores.
Ainda assim não abaixei a cabeça.
Atravessei o pior pesadelo que um ser humano normal poderia imaginar
– do dia para a noite me vi sem casa, sem emprego, sem família,
sem parentes, sem amigos, sem mulher, sem raízes, referências,
comida e teto. Gastei estes anos terríveis isolado no meio do mato,
sofrendo privações e uma solidão absurda, em uma cabana concedida
por favor e distante de qualquer alma viva, mas não desisti: escrevi
livros, publiquei artigos, persisti na luta e meus ideais me
mantiveram vivo.
Tive momentos de fraqueza, vacilos,
desânimos mas sempre voltei, ainda que fosse para apanhar mais ainda
ou para desencantar-me com a frouxidão daqueles em quem depositava
minha maior esperança: povo e líderes.
Mas tudo tem um limite, um limite
humano, psicológico, quase questão de vergonha na cara, e este
parece estar em vias de chegar.
Em uma tentativa desesperada de
postergar, ou enganar o inevitável, confesso que me desviei dos
assuntos habituais e, ultimamente, andei publicando arremedos de
ensaios filosóficos – coisa que jamais havia feito, por questões
de consciência de minha ignorância. Mas era impossível enganar a
sanha de poder da atual ditadura que, sem mais delongas, sempre nos
presenteava com novos absurdos e ilegalidades, fazendo com que
novamente eu obedecesse meus impulsos e voltasse aos eternos,
incessantes (e inócuos) protestos em forma de artigos jornalísticos.
Quem tem o (mau) hábito de ler o que
escrevo certamente está farto de aturar as inconveniências e
impropérios que dirijo ao próprio leitor – batizado por mim de
“povo inerme, preguiçoso, fútil, omisso e covarde” – e,
igualmente, ao próprio Jair Bolsonaro, a quem atribuo idênticas
deficiências. Cansei de escrever que “se Moisés obedecesse as
ordens do Faraó, não teria libertado os judeus do Egito”, que
eleições ou novas leis não derrubam ditaduras, ou mesmo que “não
se luta contra demônios usando as armas de anjos”, mas o alcance
do que escrevo não ultrapassa a eterna meia-dúzia de gatos pingados
(e ofendidos) de sempre.
Do mesmo modo, sempre amaldiçoei as
“passeatas de protestos”, as quais serviam apenas como um bom
“programa de domingo” para as famílias, enroladas em bandeiras
do Brasil, a tirar fotos para o Instagram e partir para a
churrascaria comentando seu “patriotismo”, tão logo as mesmas
terminassem. Onde o sangue? Onde a imposição do medo sobre nossos
inimigos?
Alegar um “8 de janeiro” é
estrondosa má-fé, pois duas garotas e três caras (está no vídeo
do Didi Redpill), infiltrados pela ditadura, subiram em um pequeno
palco e ordenaram – sim, é o termo e o gado, bovino, cumpriu –
que todos se dirigissem ao Palácio, quando clamei por semanas que
“jamais saíssem dos quartéis”. E deu no que deu.
Agora Bolsonaro é réu, logicamente
será condenado, preso e talvez assassinado na cela. E isso também
foi previsto, não somente por mim, mas por muitos. O que fizemos?
Nada. O que estamos fazendo? Nada. O que faremos, inclusive se o pior
acontecer? Nada.
O sistema não quer Lula nem Bolsonaro,
e parece ter escolhido como última opção Tarcísio de Freitas, um
bom homem mas militar – portanto positivista e, portanto, cego para
o comunismo. Por outro lado temos Donald Trump e suas sanções, mas
nada poderá fazer além disso. Ele é Presidente dos Estados Unidos,
e não do mundo. E agora?
Agora resta-nos esperar o já sabido
veredito, mas ainda falta esclarecer se Bolsonaro será preso
imediatamente ou darão, ainda, alguns dias a ele – que certamente
não serão usados para refugiar-se em nenhuma embaixada pois, como
disse, a coragem não é seu maior atributo. “Mas ele disse que, se
for preso, será morto! Isso não é coragem?”, perguntará o
leitor. E eu respondo: auxiliado por um cardume de toupeiras (vá
lá), cegas para o que é o verdadeiro comunismo, Bolsonaro
igualmente não acredita nisso. Mal crê que será preso; morto já
está na categoria de ficção – ele assim diz da garganta para
fora.
Infelizmente, pouquíssimos brasileiros
sabem o que é, na verdade, o comunismo – ou não o teriam aceito,
ainda que “docemente constrangidos”. Trata-se de um bando de
assassinos sociopatas, verdadeiros delinquentes cujo único objetivo
é o poder, e para conquistá-lo e mantê-lo, farão o que for
preciso: roubar, mentir, chantagear, sequestrar e, claro, matar.
Alguém lembra de Celso Daniel e de tantos outros?
E logo após virão as manifestações
de 6 de abril. Serão estrondosas? Talvez. Serão intimidadoras?
Nunca, pois somos “conservadores, pacíficos e limpinhos”. E no
dia 7, tudo voltará a ser como dantes, no quartel de Abrantes,
aquele melancia.
Este é o ponto onde, acontecendo como
eu prevejo, deverei me retirar da luta.
Escrevi recentemente que passei toda uma
vida defendendo o que acredito, e o que os outros pensam disso é
problema deles, não meu. Mas, maior que o cansaço físico de meus
61 anos, é o desalento. A absoluta falta de esperanças, a irritante
semelhança de pensamentos com o insuportável Schoppenhauer e seu
pessimismo doentio – que, sou forçado a admitir, não se trata de
simples pessimismo: é experiência de vida, conhecimento das coisas
e dos homens.
O círculo se fechou: parlamentares de
oposição perderam seus mandatos ou foram presos, o próprio
Bolsonaro assim o será e, de modo pior, sequer temos um norte moral
e intelectual do infalível Olavo de Carvalho, morto que está.
Restou-nos um bando de youtubers que, tal qual os chicos
buarques da vida após o fim do governo militar, vivem hoje às
custas do terror da ditadura: se um dia ela acabar, seus empregos
acabam também – tal qual Chico.
Para piorar, temos um povo que mostra
claramente que ainda tem muito a ser tomado pela ditadura: a cada
feriado as estradas lotam; os preços sobem, em uma desesperadora
escalada inflacionária, mas limitam-se a reclamar – e comprar,
principalmente cerveja. A irritação contra cada novo arbítrio dura
exatos 15 segundos, até que o próximo vídeo do TikTok entre, com
bela morena a rebolar seus glúteos. E sequer a enfiada de 4 gols,
tomada da Argentina no último jogo, teve o condão de despertar o
brasileiro de sua letargia dopada. Tudo se resolve com um celular –
a arma mortal que tínhamos nas mãos, mas a perdemos para um par de
bundas, pacificadoras do povo e normalizadora do “estado
democrático de direito”.
E contra isso não posso lutar. Não há
como ajudar quem não quer ser ajudado – ou sequer reconhece que
precisa ser – tanto Bolsonaro, inerme, quanto o povo, hipnotizado,
dopado, em estado vegetativo. Tanto os assessores cegos do “mito”
quanto os youtubers carreiristas, jóqueis da desgraça, que
não sobreviveriam em um país normal.
Não é vergonha abandonar uma luta
impossível de, sequer, perder com honra.
Aguardarei até o final de abril, ainda
que seja em infantil esperança de retaliações externas, antes de
retirar-me, e assim o farei após esta data: não mais Carta de
Notícias, não mais ContraCultura, não mais artigos políticos em
minha página pessoal ou em minhas redes sociais.
Me dedicarei exclusivamente à
futilidades, memes, postagens automotivas, arqueológicas e, é
claro, meus livros. Ninguém sentirá falta, e este é meu mais
poderoso motor.
Todos tem um limite, espero que
entendam.
Não vale mais a pena lutar. Não há
por quem lutar.
Walter Biancardine