sábado, 9 de maio de 2026

VAN GOGH 2/4 -


A caneca sem orelha estava sobre a mesa
feito um santo mutilado
vendido em loja de presentes cult
por cento e vinte reais
em doze vezes sem juros

a tragédia sempre encontra um jeito
de virar decoração de cozinha

alguma moça tira foto dela agora
posta com filtro sépia
escreve:
“café, arte e gratidão”

e um pintor morto
revira no túmulo
como frango na máquina de padaria

a verdade é simples:
ninguém quer a dor
o que as pessoas querem
é a legenda da dor
depois que ela já passou

querem parecer profundos
sem nunca dormir bêbados no chão do banheiro
abraçados à própria vergonha

o sujeito perde a orelha
e vira estampa de ecobag

você perde a sanidade
e ganha um afastamento pelo INSS

essa é a diferença

todo mundo ama a ideia do artista miserável
até o artista pedir dinheiro emprestado
ou esquecer de tomar banho por três dias

aí o gênio vira “energia pesada”

as pessoas dizem:
“o sofrimento produz arte”

não
o sofrimento produz alcoolismo
divórcio
remédio tarja preta
cinzeiro cheio
e gente falando sozinha no mercado

arte acontece às vezes
como vazamento em prédio velho

a maior parte dos escritores
não está criando obras-primas agora

está olhando pra parede
coçando uma tristeza antiga
e fingindo que o boleto não venceu

mas existe uma coisa engraçada nisso tudo

o homem feliz demais
não escreve nada que preste

o sujeito espiritualmente resolvido
produz frase motivacional de calendário
e vídeo ensinando a “manifestar abundância”

já o outro – 
o quebrado
o humilhado
o abandonado às traças do próprio quarto –
esse pelo menos escreve frases
que fazem alguém largar o celular por cinco segundos
e pensar:
“merda…”

a arte nunca nasceu da paz
paz produz condomínio
produz cadeira gamer
produz reunião no Zoom

a arte nasce quando alguma coisa apodrece dentro do sujeito
e ele percebe
que não consegue mais esconder o cheiro

então escreve
ou pinta.
ou toca violão num bar imundo
pra quatro bêbados e uma garçonete deprimida

porque criar
é só uma forma elegante
de sangrar em público
sem assustar tanto os vizinhos


Walter Biancardine




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