quarta-feira, 6 de maio de 2026

POR DO SOL -

 


Andava agora à noite pelos pastos. Faço sempre isso.
Longe, no poente, ainda um ligeiro clarão vermelho, quase apagado, que nada ilumina mas mostra o oeste e faz do céu um quadro de Rembrandt - claros e escuros impossíveis de reproduzir.

Vi minha primeira estrela, e fiz o pedido. Depois veio Vênus. e mais outras. E outras. A imensidão do céu enegrecia e brotavam estrelas que não se pode ver sob a luz das cidades.

Muito longe, à direita do nascente, um vago claro apontava Cabo Frio. À esquerda, o Segundo Distrito e Barra de São João. 
Longe, indiferente diante das horas, pastavam bois, vacas e cavalos. Mais cavalos. O gado tem hora de se recolher.

A vastidão do céu nos curva em direção à humildade.
E eu ali, só eu, sem ninguém pra compartilhar aquilo. 
Não posso dar tal grandeza de presente, mas poderia dividir o deslumbre com alguém.
Mas não havia ninguém.

Se não dividem minhas dores, também é certo que não participam de meus prazeres.

A dor, a agonia, nada disso é diário - embora muito mais frequente que gostaria. Mas o por do sol é.
Sempre.

E, enquanto eu estiver aqui, sozinho, só pra mim.


Walter Biancardine



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