segunda-feira, 4 de maio de 2026

QUARTO 7



Tem um barulho aqui.

Não sei de onde.

Parece rádio, mas não tem rádio.

Fica vindo e indo. Às vezes some. Às vezes fica alto.

Hoje tá baixo.

Melhor.


Tem um homem na outra cama. Ele levanta toda hora. Vai até a porta. Volta.

Acho que ele trabalha.

Ninguém manda, mas ele vai.

Deve ser coisa importante.

Eu fico.


Minha perna não gosta de mim.

A cabeça também não ajuda muito.

Mas eu lembro das pessoas.

Isso eu lembro.

Demora um pouco, mas vem.

Veio hoje.

Ele entrou.

Ficou parado na porta, meio torto.

Eu conheço ele.


Esperei.

A cara veio primeiro. O nome não.

Mas não precisa nome.

- Ô… você.

Ele falou que era ele.

Eu sabia.


Ele sentou.

Trouxe cheiro de rua. Poeira. Sol.

Aqui não tem isso.

Aqui tem cheiro de limpeza. Limpa demais.

- Trouxe cigarro?

Ele disse que não pode.

Nunca pode nada.

Antes podia.

Antes eu fazia o que queria.

Ou acho que fazia.

Agora eu não lembro direito.


- Que dia é hoje?

Ele falou.

Domingo.

Domingo é bom.

Sempre foi.

Acho.


Perguntei dos meninos.

Eles tão grandes.

Um casou.

Casar é bom.

Dá trabalho, mas é bom.

O outro tá longe.

Trabalhando.

Trabalhar é bom também.

Cansa, mas passa o tempo.


Aqui o tempo não passa.

Ele fica parado olhando.

Às vezes eu durmo pra ver se ele anda.

Acordo e ele tá no mesmo lugar.


Tem um cara aqui que trabalha.

João.

Ele anda muito.

Deve estar cheio de serviço.

Ninguém ajuda ele.

Falei isso e ri.

Ele riu também, mas meio errado.

Acontece.


Perguntei onde ele mora.

Ele disse longe.

Longe é um lugar ruim.

As pessoas somem quando vão pra longe.

Mas ele veio.

Então não sumiu.

Ainda.


A cabeça falha um pouco.

Às vezes dá um branco.

Eu sei que deu ruim aqui.

Bati na testa.

- Deu problema.


Ele falou que deu.

Eu ri.

Não sei por quê.

Talvez porque é verdade.

Quando é verdade, às vezes dá vontade de rir.

Ou chorar.

Confunde.


Ele ficou quieto.

Ele fica quieto bastante.

Eu também.

Não precisa falar sempre.

Só precisa ter alguém ali.


Segurei o braço dele.

Firme.

Pra ver se ele era de verdade.

Era.

- Vou ganhar um dinheiro e sair daqui.


Eu falei baixo.

Não queria que os outros ouvissem.

Ele respondeu alguma coisa.

Não entendi direito.

A cabeça falhou de novo.

Mas a mão dele tava ali.

Depois não tava mais.

Acontece rápido.

As coisas somem rápido agora.


Ele levantou.

Disse que voltava.

Volta.

As pessoas falam que voltam.

Algumas voltam.

Outras ficam no “depois”.

Eu espero.

Dá pra esperar.

Aqui tem tempo.

Muito tempo.


Deitei.

Olhei pro teto.

Tem uma mancha lá.

Parece um mapa.

Já vi esse mapa antes.

Não lembro onde.


Fechei o olho.

O barulho do rádio voltou.

Sem rádio.

Fiquei escutando.

Esperando.


Ele volta.

Eu sei que volta.

Só não sei quando.


Mas domingo é bom.

Acho que é domingo.



Walter Biancardine




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