quarta-feira, 6 de maio de 2026

NASCI DOENTE -


Ninguém se torna escritor. Se nasce assim.
Tal qual nascer com pés chatos, desvio na coluna ou miopia. Eu sei porque nasci com esses quatro defeitos: sim, também nasci escrevendo.

Um escritor vive uma vida esquizofrênica, e precisa lidar com ela tal qual alguém que é bissexual. Se é casado, vai trair a mulher com um homem. Se estiver com um homem, vai traí-lo com uma mulher. Se é escritor, vai trair sua escrita sendo balconista de uma loja. E se for balconista, vai trair seu emprego gastando as noites escrevendo.

É um defeito de nascença, uma praga genética que condena o infeliz a ser sempre um miserável, pobre e espancado por alguns casamentos. A imaginação não cabe nem mesmo em Bodas de Ouro. E quem pensa demais não casa. A não ser gente com tendências kamikazes como eu, que atira o coração deliberadamente contra o costado de um navio chamado “Amor”. 
Morte inevitável. 
Sobra o fígado, com cirrose.

Ser escritor não é profissão, é sina. E das piores. Se seu filho ou neto se mostra muito à vontade escrevendo redações, dê a ele um celular, computador, tablet – qualquer coisa que esvazie a pobre cabecinha de tais pensamentos. O final é sempre a indigência, solidão e bebedeira.

Sim, existem Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo – mas gente assim são as infalíveis exceções, que somente servem pra comprovar a regra.

Escrever também é como um vício: ou você escreve ou morre. 
Ou mata alguém. 
Ou enlouquece. 

E esse povo hoje, que posa de “escritor” deixando tudo nas mãos de um ChatGPT e enche os bolsos das editoras pagando revisão, diagramação, capa e até noite de autógrafos na FLIP, não passa de vaidosos. Para eles, escrever um livro é como comprar um carro zero. 
Vaidade. 
Só pra agregar valor. 
Nada sofrem. 
Nunca sofreram.

Se seu filho é bom em redação, dê uma surra de chinelos nele e diga – desta vez cheio de razão – que é para o bem dele.


Walter Biancardine



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