segunda-feira, 4 de maio de 2026

DOMINGO NO ASILO -


Fui visitar meu irmão.
O lugar cheira a desinfetante e tempo perdido.
Não tem outra palavra.
Tempo ali não passa. 
Ele fica. Gruda nas paredes. E na pele.

Assinei um papel na entrada. Sempre tem um papel. 
Nome, documento, horário. Como se alguém fosse fugir dali.
Uma moça de jaleco me deu um sorriso rápido. Cansado. Não era pra mim. Era automático.
- Quarto 7.

Fui andando pelo corredor. Portas abertas. Gente sentada olhando pro nada. Um velho ria sozinho. Uma mulher falava com alguém que não tava ali.
Ninguém parecia com pressa.
Cheguei.

Ele tava na cama. Magro. Mais baixo do que eu lembrava. Como se tivesse encolhido por dentro.
Olhou pra mim.
Demorou meio segundo.
- Ô… você.

Ainda lembrava.
- Sou eu.

Ele abriu um sorriso torto. Faltava um dente. Não lembro quando perdeu.
- Veio?
- Vim.

Sentei numa cadeira dura. Daquelas que não deixam ninguém confortável tempo demais.
- Trouxe cigarro?
- Aqui não pode fumar.
- Ah.

Ficou quieto. Mexeu no lençol. As mãos tremiam um pouco.
- Que dia é hoje?
- Domingo.
- Bom.

Não sei por que era bom.
Ficamos ali. O silêncio não incomodava ele. Em mim, raspava.
- E os meninos? Meus filhos? - ele perguntou.
- Tão por aí.
- Trabalhando?
- Você sabe… Um tá fora, morando em Londres. Outro casou agora, você deve lembrar.
- Casou… é mesmo… - ele repetiu, como se testasse a palavra.
- É.
- Não vieram?
- Não.

Ele pensou um pouco. Ou fingiu.
- Devem tá ocupados.
- Devem.

Ele assentiu. Aceitou rápido demais.
Isso doeu mais do que se tivesse reclamado.
- Aqui é bom - ele disse, olhando pro teto.
- É?
- Tem comida na hora. Ninguém enche o saco.
- Olha aí.
- Tem um cara aqui… o João… - ele riu - ele acha que ainda trabalha.
- E trabalha?
- Trabalha nada. Fica andando pra lá e pra cá. Igual doido.

Rimos. Meio sem graça.
Ele esqueceu do João logo depois.
- Você tá morando onde?
- Longe. São Jacinto.
- Com quem?
- Com ninguém. Só eu, as vacas e os cavalos.
- Melhor - e deu uma risada.

Ele fechou os olhos um pouco. Abriu de novo.
- Eu fiquei doente, né?
- Ficou.
- Foi do nada.
- Foi.
- Cabeça…

Apontou pra própria testa. Deu um tapinha leve.
- Deu ruim aqui. Mas vou melhorar.
- Claro que vai.

Ele riu. Aquela risada meio boba, leve demais pra situação.
- Ainda bem que você veio.
- É difícil, moro muito longe, mas quando dá eu venho.
- Não sempre.
- É como eu disse, não dá sempre.
- Eu sei.

Não parecia saber.
Uma enfermeira apareceu na porta.
- Hora do remédio.

Ele fez careta.
- Já?
- Já.

Ela veio, deu os comprimidos, água. Ele engoliu sem reclamar. Bom paciente.
Ela saiu.
- Você vai embora?
- Daqui a pouco.
- Fica mais.
- Sem problema.

Fiquei.
Sem falar muito. Ele também não.
Em algum momento, ele segurou meu braço.
Forte.
- Estou vendo um negócio, vou ganhar muito dinheiro e vou sair daqui.

Veio baixo. Quase certo.
Fiquei olhando pra mão dele.
- Primeiro você tem que se tratar, ficar bem de novo…
 
Ele não reagiu.
Talvez não tenha entendido.
Talvez tenha entendido demais.
- É mesmo - ele disse.

Soltou meu braço.
Olhou pro teto de novo.
Como se já tivesse ido embora dali.
Fiquei mais um pouco. Não sei quanto.
Levantei.
- Eu volto qualquer dia.
- Volta?
- Volto.

Ele assentiu. Confiante. Como criança.
Saí do quarto.
O corredor continuava igual. Ninguém indo a lugar nenhum.
Assinei outro papel na saída.
Sempre tem um papel.

Lá fora tinha sol. Mas a rua era vazia, isolada na cidade. 

Andei como um condenado, debaixo do sol, até o ponto de ônibus mais perto.
Entrei no ônibus.
Sentei perto da janela, lado contrário ao sol.

Fiquei pensando no “vou ganhar muito dinheiro e vou sair daqui”.
Não era sonho. Nem plano.
Era só… o que sobrou.

Olhei pra rua.
Eu também não tinha pra onde levar ele.
E isso é o tipo de coisa que ninguém gosta de dizer em voz alta.

Não havia inocentes.
Nunca houve.


Walter Biancardine



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