Dias de ventos furiosos, ondas explodindo na proa em meio ao negrume do céu. Hora de rizar as velas e experimentar: não, a necessidade pede que se navegue em árvore seca, soltando a âncora de arrasto - um drogue pode assegurar que este comando doente e febril chegue a bom porto, eis que é hora de impor um rumo à esta interminável deriva na vida.
Adernado e cansado, nada mais resta em meu convés que não tenha sido varrido pelas ondas da vida. O porto seguro, entretanto, faz-se difícil de aproar, dada a cerração dos últimos dias. Não importa, pois mar calmo jamais fez bons marinheiros: porto bom é aquele em que atracamos, e eis-me nele.
Não aguardarei a bonança, pois nela não mais creio. Amarração segura, nave protegida, saio a verificar os danos e a perda é quase total, de gentes e coisas - mas não faz água nos porões e, mesmo em meio à névoa, posso navegar.
Navegar é preciso, viver não é preciso - não tenho, entretanto, bússola e sextante para nenhum dos dois. Mas a navegação segue, interminável Flying Dutchmann, pois os portos me são hostis.
Só eu, em minha nave, no vasto e infinito oceano a sonegar meu destino.
Meu navegar não é preciso. Meu viver não é preciso.
Sob o espírito de Bach, aponto a proa e sigo.
Walter Biancardine
Nenhum comentário:
Postar um comentário