quarta-feira, 26 de março de 2025

IDEALISMO: A DOENÇA QUE PODE ME TIRAR DO COMBATE -

 


Não há outra forma de escrever este artigo que não seja em tom pessoal, pois uso a mim mesmo como personagem para, quem sabe, servir de espelho para mais alguns outros e poucos exauridos, como eu.

Desde o já longínquo ano de 1979 protestava eu contra a anistia, exigida pelo assim chamado “povo” – que se resumia a artistas esquerdistas coordenados pela ampla cobertura da Rede Globo – e tentava, inutilmente, publicar meus impropérios contra tal medida em jornais de bairro ou até como carta, dirigida às redações dos grandes jornais.

Obviamente eu não era ainda jornalista. Tratava-se apenas de um adolescente furioso que, na falta de mulheres dispostas a conceder atenções a um esquisitão, derivava suas frustrações na escrita de protestos inócuos. Mas, libido à parte, eu realmente acreditava naquilo que escrevia – e este foi o erro que me acompanharia por toda a vida: jamais ter escrito uma só linha a qual não cresse piamente, ainda que depois viesse a me arrepender.

Anos depois, já um profissional da escrita, mergulhei de corpo e alma na restauração dos antigos valores brasileiros, que teve como início o famoso protesto contra o aumento das passagens de ônibus – “Não é pelos 20 centavos!” - no governo Dilma Roussef, em 2013. E essa, talvez, tenha sido a eclosão da doença que pode me tirar da luta neste momento: como disse, jamais escrevi uma só linha que não acreditasse e, imbuído desta crença feroz (valores, princípios, norte moral), pus minha cara a tapa e mergulhei de cabeça na luta. Fui censurado, tive inúmeras contas extintas (Twitter, Telegram), YouTube excluiu 28 vídeos meus e desmonetizou-me por completo, impedindo inclusive que eu monetizasse minha página pessoal (também do Google), tive mesmo um artigo excluído de minha própria página (!) e fui amplamente xingado e odiado por conhecidos, desconhecidos, parentes, amigos ou não tão amigos assim. As portas do mercado de trabalho se fecharam para mim e fui reduzido a um “escrevinhador de artigos”, os quais são ainda publicados, graciosamente, apenas pela boa vontade e misericórdia de meus editores.

Ainda assim não abaixei a cabeça. Atravessei o pior pesadelo que um ser humano normal poderia imaginar – do dia para a noite me vi sem casa, sem emprego, sem família, sem parentes, sem amigos, sem mulher, sem raízes, referências, comida e teto. Gastei estes anos terríveis isolado no meio do mato, sofrendo privações e uma solidão absurda, em uma cabana concedida por favor e distante de qualquer alma viva, mas não desisti: escrevi livros, publiquei artigos, persisti na luta e meus ideais me mantiveram vivo.

Tive momentos de fraqueza, vacilos, desânimos mas sempre voltei, ainda que fosse para apanhar mais ainda ou para desencantar-me com a frouxidão daqueles em quem depositava minha maior esperança: povo e líderes.

Mas tudo tem um limite, um limite humano, psicológico, quase questão de vergonha na cara, e este parece estar em vias de chegar.

Em uma tentativa desesperada de postergar, ou enganar o inevitável, confesso que me desviei dos assuntos habituais e, ultimamente, andei publicando arremedos de ensaios filosóficos – coisa que jamais havia feito, por questões de consciência de minha ignorância. Mas era impossível enganar a sanha de poder da atual ditadura que, sem mais delongas, sempre nos presenteava com novos absurdos e ilegalidades, fazendo com que novamente eu obedecesse meus impulsos e voltasse aos eternos, incessantes (e inócuos) protestos em forma de artigos jornalísticos.

Quem tem o (mau) hábito de ler o que escrevo certamente está farto de aturar as inconveniências e impropérios que dirijo ao próprio leitor – batizado por mim de “povo inerme, preguiçoso, fútil, omisso e covarde” – e, igualmente, ao próprio Jair Bolsonaro, a quem atribuo idênticas deficiências. Cansei de escrever que “se Moisés obedecesse as ordens do Faraó, não teria libertado os judeus do Egito”, que eleições ou novas leis não derrubam ditaduras, ou mesmo que “não se luta contra demônios usando as armas de anjos”, mas o alcance do que escrevo não ultrapassa a eterna meia-dúzia de gatos pingados (e ofendidos) de sempre.

Do mesmo modo, sempre amaldiçoei as “passeatas de protestos”, as quais serviam apenas como um bom “programa de domingo” para as famílias, enroladas em bandeiras do Brasil, a tirar fotos para o Instagram e partir para a churrascaria comentando seu “patriotismo”, tão logo as mesmas terminassem. Onde o sangue? Onde a imposição do medo sobre nossos inimigos?

Alegar um “8 de janeiro” é estrondosa má-fé, pois duas garotas e três caras (está no vídeo do Didi Redpill), infiltrados pela ditadura, subiram em um pequeno palco e ordenaram – sim, é o termo e o gado, bovino, cumpriu – que todos se dirigissem ao Palácio, quando clamei por semanas que “jamais saíssem dos quartéis”. E deu no que deu.

Agora Bolsonaro é réu, logicamente será condenado, preso e talvez assassinado na cela. E isso também foi previsto, não somente por mim, mas por muitos. O que fizemos? Nada. O que estamos fazendo? Nada. O que faremos, inclusive se o pior acontecer? Nada.

O sistema não quer Lula nem Bolsonaro, e parece ter escolhido como última opção Tarcísio de Freitas, um bom homem mas militar – portanto positivista e, portanto, cego para o comunismo. Por outro lado temos Donald Trump e suas sanções, mas nada poderá fazer além disso. Ele é Presidente dos Estados Unidos, e não do mundo. E agora?

Agora resta-nos esperar o já sabido veredito, mas ainda falta esclarecer se Bolsonaro será preso imediatamente ou darão, ainda, alguns dias a ele – que certamente não serão usados para refugiar-se em nenhuma embaixada pois, como disse, a coragem não é seu maior atributo. “Mas ele disse que, se for preso, será morto! Isso não é coragem?”, perguntará o leitor. E eu respondo: auxiliado por um cardume de toupeiras (vá lá), cegas para o que é o verdadeiro comunismo, Bolsonaro igualmente não acredita nisso. Mal crê que será preso; morto já está na categoria de ficção – ele assim diz da garganta para fora.

Infelizmente, pouquíssimos brasileiros sabem o que é, na verdade, o comunismo – ou não o teriam aceito, ainda que “docemente constrangidos”. Trata-se de um bando de assassinos sociopatas, verdadeiros delinquentes cujo único objetivo é o poder, e para conquistá-lo e mantê-lo, farão o que for preciso: roubar, mentir, chantagear, sequestrar e, claro, matar. Alguém lembra de Celso Daniel e de tantos outros?

E logo após virão as manifestações de 6 de abril. Serão estrondosas? Talvez. Serão intimidadoras? Nunca, pois somos “conservadores, pacíficos e limpinhos”. E no dia 7, tudo voltará a ser como dantes, no quartel de Abrantes, aquele melancia.

Este é o ponto onde, acontecendo como eu prevejo, deverei me retirar da luta.

Escrevi recentemente que passei toda uma vida defendendo o que acredito, e o que os outros pensam disso é problema deles, não meu. Mas, maior que o cansaço físico de meus 61 anos, é o desalento. A absoluta falta de esperanças, a irritante semelhança de pensamentos com o insuportável Schoppenhauer e seu pessimismo doentio – que, sou forçado a admitir, não se trata de simples pessimismo: é experiência de vida, conhecimento das coisas e dos homens.

O círculo se fechou: parlamentares de oposição perderam seus mandatos ou foram presos, o próprio Bolsonaro assim o será e, de modo pior, sequer temos um norte moral e intelectual do infalível Olavo de Carvalho, morto que está. Restou-nos um bando de youtubers que, tal qual os chicos buarques da vida após o fim do governo militar, vivem hoje às custas do terror da ditadura: se um dia ela acabar, seus empregos acabam também – tal qual Chico.

Para piorar, temos um povo que mostra claramente que ainda tem muito a ser tomado pela ditadura: a cada feriado as estradas lotam; os preços sobem, em uma desesperadora escalada inflacionária, mas limitam-se a reclamar – e comprar, principalmente cerveja. A irritação contra cada novo arbítrio dura exatos 15 segundos, até que o próximo vídeo do TikTok entre, com bela morena a rebolar seus glúteos. E sequer a enfiada de 4 gols, tomada da Argentina no último jogo, teve o condão de despertar o brasileiro de sua letargia dopada. Tudo se resolve com um celular – a arma mortal que tínhamos nas mãos, mas a perdemos para um par de bundas, pacificadoras do povo e normalizadora do “estado democrático de direito”.

E contra isso não posso lutar. Não há como ajudar quem não quer ser ajudado – ou sequer reconhece que precisa ser – tanto Bolsonaro, inerme, quanto o povo, hipnotizado, dopado, em estado vegetativo. Tanto os assessores cegos do “mito” quanto os youtubers carreiristas, jóqueis da desgraça, que não sobreviveriam em um país normal.

Não é vergonha abandonar uma luta impossível de, sequer, perder com honra.

Aguardarei até o final de abril, ainda que seja em infantil esperança de retaliações externas, antes de retirar-me, e assim o farei após esta data: não mais Carta de Notícias, não mais ContraCultura, não mais artigos políticos em minha página pessoal ou em minhas redes sociais.

Me dedicarei exclusivamente à futilidades, memes, postagens automotivas, arqueológicas e, é claro, meus livros. Ninguém sentirá falta, e este é meu mais poderoso motor.

Todos tem um limite, espero que entendam.

Não vale mais a pena lutar. Não há por quem lutar.



Walter Biancardine



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