Toda agência bancária é sempre gelada.Frio de máquina. Não de inverno.
Sentei. Esperei minha senha. Aquela porcaria de bip com a demora calculada pra te torturar.
Um cara do meu lado coçava o braço sem parar. Uma mulher falava sozinha olhando pro celular. Ninguém ali parecia estar resolvendo nada.
Chamou.
Mesa 12.
O sujeito nem levantou. Só apontou com o queixo.
- Boa tarde.
- Boa.
Sentei. Tirei o papel do bolso. Já amassado.
- Tô devendo no cartão de crédito. Foi cancelado.
Ele pegou, mas já tava digitando antes.
- CPF.
Falei.
Tec-tec-tec.
Fiquei olhando pra tela. Não dava pra ver direito. Um monte de número. Sempre número. Eles devem sonhar com números.
- O senhor tá com atraso já faz um tempo.
- Minha vida toda tá com atraso.
Ele não reagiu. Só continuou.
- Vamos ver o que dá pra fazer.
- Se der pra fazer.
- Dá sim.
Sempre dá. Pro banco, sempre dá.
Mais tec-tec.
- A gente pode parcelar isso aqui.
- Aham.
- Fica em tantas vezes…
Falou o número.
Balancei a cabeça.
- Não tenho isso por mês.
- Mas dilui a dívida.
- Dilui onde? Assim não dilui nada.
Ele respirou pelo nariz. Pequeno incômodo.
- Tem outra opção também.
Claro que tem.
- Qual?
- Título de capitalização.
Eu ri. Meio sem querer.
- Sério?
- O senhor cria uma reserva, participa de sorteios…
- Sorteio?
- Isso.
- Eu não tô conseguindo pagar o almoço direito e vou entrar num sorteio? Pagando por mês?
- É uma forma de organização.
- Organização do quê, cara? Mais dívida?
Ficou um silêncio meio ruim.
Ele ajeitou a cadeira.
- Senhor, são produtos que ajudam o cliente a se reestruturar.
- Eu preciso me reestruturar ou pagar o que eu devo?
Ele travou um segundo. Voltou.
- As duas coisas.
- Com dinheiro de onde?
Ele não respondeu. Foi pro teclado de novo.
- Se não fizer nada, a dívida continua.
- Firme e forte, inclusive.
- Pode ir pra cobrança.
- Já deve ter ido. Nunca atendi os chamados que vocês me fazem todos os dias.
Ele me olhou.
- O ideal é evitar negativação.
- Ideal era não ter chegado aqui.
Outro silêncio.
Passou uma senhora atrás da gente arrastando o pé nos chinelos. Um segurança olhava pro nada.
- O senhor precisa assumir um compromisso.
- Eu já assumi quando usei o cartão.
- E agora precisa honrar.
- Com o quê? Assumindo outra dívida que não posso pagar?
Nada.
Ele deu uma batidinha leve na mesa com a caneta. Impaciência controlada.
- Eu tô tentando te dar uma solução.
- Não, você tá tentando fechar um negócio aqui, bater sua meta.
Ele não gostou.
- Não é isso.
- Tá bom. Esquece. Deixa pra lá.
Puxei o papel de volta.
- Eu sei que o senhor me entende.
Ele não respondeu.
- Eu não tenho dinheiro. Você sabe disso. Eu sei disso. E você tá aí me oferecendo parcela maior e um negócio de sorteio. Se eu tivesse isso, já teria pago o cartão e não estaria aqui, negociando.
Fiquei olhando pra cara dele. Perguntei:
- Isso ajuda quem?
Demorou.
- Ajuda quem consegue seguir.
- Então não sou eu, amigo.
Ele ficou quieto.
Pronto. Chegamos em algum lugar.
Levantei.
- O senhor não vai fazer nada?
- Hoje não.
- A dívida vai aumentar.
- Eu sei.
- Pode complicar mais.
- Já complicou.
Fiquei um segundo ali. Sem pressa.
- Boa sorte aí com os sorteios.
Sai.
A porta demorou. Sempre demora quando você quer ir embora.
Lá fora tava quente. Barulho de ônibus, gente, vida.
Passei a mão no bolso. O papel ainda tava lá. Amassado.
A dívida também.
Pelo menos lá dentro ninguém fingiu muito tempo.
Fui na padaria tomar um café com pão na chapa.
Aquilo eu podia pagar.
Walter Biancardine

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