domingo, 3 de maio de 2026

INTERNAUTAS ANÔNIMOS – O vício em dopamina

 


Temos os Alcoólicos Anônimos, que por frescura deixou de usar o termo alcoólatra, e temos mesmo algo semelhante voltado aos viciados em drogas e jogatinas. Como hoje em dia um negócio em alta é inventar doenças, existem também grupos de apoio às mulheres que amam demais, aos viciados em sexo, em descabelar o palhaço no Xvídeos e até em comer cachorro-quente. 

O caso é que já passou da hora de fundarem um grupo de apoio aos viciados em internet – leia-se “viciados em um orgasmo de dopamina a cada quinze segundos”, pois os reels, vídeos do Tik Tok, tweeters ou o tempo que se leva para ler o primeiro parágrafo de uma postagem no Facebook e dar uma resposta furiosa é exatamente esse: quinze segundos.

Na era pré-internet sabíamos das coisas lendo jornais, ouvindo comentários nos botequins, salas de espera do dentista ou mesmo das vizinhas fofoqueiras. E isso tinha seu tempo próprio, um ritmo normal, humano, potável. Um boato por mês? Um escândalo a cada quinze dias? Uma nova fofoca toda semana? Sem problemas, tudo digerível, avaliável, julgável e – principalmente – sabidos de forma absolutamente passiva: sabíamos, nos escandalizávamos, comentávamos com o fofoqueiro e pronto, morria aí o assunto.

Hoje não. Hoje somos “celebrities das redes sociais”, não podemos decepcionar nosso público se não postarmos nossos comentários furibundos e dar a todos o merecido orgasmo de quinze segundos. Sim, somos ídolos. Temos públicos. Viramos, todos, artistas. Até nossa casa é mostrada em fotos, junto com as férias na praia ou o prato cheio na churrascaria.

A verdade é que somos todos doentes, e não nos demos conta.

O viciado nunca admite o vício. O paranóico jamais admite sua patologia. E a cura, infelizmente, será compulsória – tal como a dos citados.

Chegará o dia em que teremos uma guerra. Uma guerra não, uma hecatombe, uma catástrofe – é questão de apenas esperar. E neste dia as redes ficarão fora do ar. Bombardeios, explosões, tudo isso levará pelos ares nosso mundo de fantasias. Deixaremos de ser “celebrities” e passaremos a ser novamente pessoas comuns. Pior: refugiados. Sobreviventes. Nenhum glamour. E sem instagram.

Some as horas em que você passa na internet. Pese quantos quilos de fúria você engole ao ler postagens que te desagradem. E veja o que sobrou de sua vida, de sua cabeça, de sua paz.

Mas sei que perco meu tempo. Eu mesmo estou aqui, na internet.

Mas ao menos jamais escondi meus tombos.

Eu bebo. Eu fumo. E uso a internet.


Walter Biancardine



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