domingo, 30 de março de 2025

NÃO HÁ COMO DES-EXISTIR -


Não sendo o pior nem o melhor dos homens e situando-me como um perfeito medíocre - ou seja, absolutamente dentro da média, mediano - custa-me compreender a "parasitagem" de alma, por mim sofrida ao longo de tantos anos, e só recentemente descoberta.

É compreensível e amplamente conhecida a cobiça alheia sobre nossas vitórias pessoais, bens, felicidades ou até eventual fortuna, ainda que as mesmas sejam temporárias ou, em alguns casos rasteiros, pura ostentação. Trata-se de querer o que o outro tem, e maiores considerações não são necessárias, eis que todos conhecem e já sofreram por isso.

O caso se agrava quando arrastamos um histórico familiar. Pior: mais que um histórico, carregamos o fardo de ter o mesmo nome do pai - e aí a coisa se complica.

Não posso e jamais farei a baixeza de "desconstruir" (perdoem a esquerdice) meu pai. Ele teve a vida dele, fez sua história, deixou quase uma lenda entre seus mais próximos na cidade, viveu uma existência cinematográfica - e eu apenas herdei seu nome, acrescido de um "Júnior". Mas ainda tem o que piorar.

Não satisfeito em carregar seu nome ("herdeiro do fardo", segundo meu pai), tive a petulância e ousadia - atrevimento exagerado - de construir minha própria história por aqui.

Se conheci e apertei a mão de Presidentes da República pela OEA ou vi o céu estrelado em pleno meio-dia na aviação de testes, isso pouco importa: foi no Rio de Janeiro, aparentemente em uma outra vida, vivida por um outro eu. O que parece despertar os apetites são os poucos sucessos que obtive por aqui, nestas salitradas e áridas terras, "melhores madrastas que mães", nossa conhecida Cabo Frio.

E conheci o lado mais negro, quase uma psicopatia, deste pecado capital: o desejo de alguns em parasitar sua alma, roubar seu ser, esvaziar seu conteúdo e vestir sua pele; ser você, incorporar você - o que você faz, gosta, vive, usa, bebe, fuma, ama, odeia, tudo enfim.

O quê pode provocar isso em alguém? Não sou um milionário, não sou algum artista - ou ao menos escritor - famoso; em matéria de beleza provoco apenas risos e minha conta bancária, além de anêmica, é hemorrágica. Que diabos eu fiz?

Suponho que todo meu pecado seja ser filho de quem sou, ter tido a família que um dia tive e vivido o que já viví - o "câncer da mídia", o "nazistinha de Alair", o homem que metade da cidade odeia e a outra metade sequer sabe quem é, mas que causou verdadeira tormenta política nos jornais, revistas, rádios e TV's por aqui, anos atrás.

Acrescente-se a isso o fato de minha personalidade, fronteiriça da anormalidade - um porco-espinho, dirão muitos - meus estranhos prazeres (motocicletas, aviões, carros, caminhões e graxa, muita graxa), vestuário mais inusitado ainda, além da maromba intelectual a que me submeti, impelido por excruciante solidão nos últimos anos; os livros, artigos, ensaios e teses que escrevo e uma vida amorosa que abalou as estruturas e psiques - de maneira velada - de muita gente boa à minha volta.

Nada de mais, o amigo poderá dizer e eu concordarei. Mas este conjunto de peculiariedades, ainda que não construa diante de nós um ídolo a ser admirado, perfaz uma pessoa com personalidade, conteúdo - se bom ou ruim, se cativante ou repugnante, é outro assunto. Mas, ao menos, tenho algo que uma grande maioria já abdicou: sou o que sou, faço o que faço, estou e sempre estive absolutamente cagando para o que pensam disso.

Apenas sempre tive o grande cuidado de jamais ferir ninguém à minha volta, com meu jeito "lemingue" de ser - nunca prejudiquei voluntariamente a terceiros, com meu estilo de vida, gostos, decisões e amores.

Mas os parasitas da alma, por absoluta falta de conteúdo original e pura ânsia de nos despejar da pele em que habitamos, não têm tal cuidado - e este é o momento em que se entregam.

Uns ambicionam nossa vida, aderem-se diuturnamente ao nosso lado e de lá só saem quando nosso mundo desaba - estes são os rasteiros, primários.

Outros, em silêncio solerte, sugam nossa seiva em um surdo processo mimético, silencioso, e tornam-se verdadeiras "fotocopiadoras" de nosso âmago, revelando-se apenas quando suas próprias vaidades não cabem mais em si. E só percebemos isso tarde demais, quando as balas perdidas já atingiram inocentes.

Que o amigo leitor não interprete tal desabafo como um acesso de soberba, pois bem sei o nada que sou e jamais esquecerei os anos de solidão, fome e desprezo que só muito recentemente escapei - e que não estou livre de voltar. Trata-se apenas, como disse, de um desabafo.

Há que se falar, expectorar, sofrer a hemoptise de um mal que andou me corroendo por dentro nos últimos dias e que me levou, bastante doente e profundamente decepcionado, à cama - e, confesso, jamais cheguei a tais extremos antes.

Mas eu precisava falar; hoje estou melhor e é o que faço.

E pretendo, se Deus permitir, desenvolver um pequeno ensaio filosófico sobre este tema, jamais tratado pelas luzidias cabeças iluministas que nos cercam: a inveja.

Mais que inveja: o parasitismo da alma.

E que o Pai me dê saúde.


Walter Biancardine

NOTA DO AUTOR:
O invejoso típico deseja o que você tem, e chega ao ponto de ofender-se caso receba um presente seu: entende este ato como "esmola".

Já os "vampiros da alma" desejam sua vida, ser você e viver o que você vive ou viveu; tomar seus amigos, sua história, sua personalidade.

Tal deformidade, quase patológica, chega ao ponto de roubar sua individualidade - a característica de ser humano único, inimitável e peculiar que todos temos, com qualidades e defeitos exclusivos.

Ao ser vitimado por tais tipos maléficos, você perde o que de mais íntimo possuía: o "ser você". Agora, estará condenado a ver uma cópia sua vivendo o que você viveria, desfrutando dos amigos que um dia você teve, encantando ou decepcionando pessoas com o charme ou aborrecimento que somente você poderia oferecer.

E, para isso, tais pessoas não se acanham em vitimar aqueles que estão à sua volta, por mais inocentes que sejam: se puderem deles servirem-se para seu mimetismo, assim o farão.

E tudo isso apenas porque, um dia, você decidiu aproximar-se de tais tipos.

Fica o alerta.

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