sábado, 9 de maio de 2026

VAN GOGH - 1/4



A caneca me encarava
com aquele olho de quem pagou aluguel atrasado,
enterrou amigos
e bebeu café frio às seis da manhã
porque o mundo não dá intervalo
nem para os santos
nem para os bêbados

Van Gogh perdeu a orelha
hoje perderia o financiamento do carro
a conta do streaming
e metade dos seguidores

a evolução é magnífica

O sujeito pinta girassóis
porque o silêncio na cabeça dele
late mais alto que cachorro na rua

ninguém cria por equilíbrio
equilíbrio serve para escritório
foto de casal sorrindo no réveillon
e coach vendendo curso
com pulseirinha de couro no pulso

arte nasce da rachadura
do copo lascado
do homem que fuma na janela
olhando a chuva cair no estacionamento vazio
como se Deus tivesse abandonado o turno da noite

todo grande livro
tem cheiro de derrota antiga

todo poema honesto
foi escrito por alguém
que já quis sumir
mas resolveu antes abrir outra garrafa
e procurar um verbo

é por isso que desconfio
dessas pessoas excessivamente felizes
ninguém escreve “Crime e Castigo”
depois de uma aula de mindfulness
e um suco detox

a dor não melhora ninguém
isso é mentira de padre cansado
e terapeuta de Instagram

a dor só faz uma coisa:
arranca a tinta da parede
e mostra o mofo

alguns enlouquecem
outros viram funcionários do mês
uns poucos
pegam o mofo
e escrevem nele

Van Gogh cortou a orelha
Bukowski bebeu até apodrecer
e o resto de nós
fica aqui
tomando café em canecas quebradas
tentando transformar abandono
em parágrafo

às vezes funciona

na maioria das vezes
só sobra o café, frio mesmo


Walter Biancardine



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