sábado, 9 de maio de 2026

VAN GOGH 4/4 -



A caneca sem orelha continua ali
parada
imutável
olhando pra nós
com a cara de quem já entendeu tudo
e perdeu a vontade de explicar

você sabe o que é pior?

ela venceu

o pintor apodreceu
os amigos morreram
os bares fecharam
as cartas viraram poeira
os amores envelheceram

mas a maldita caneca continua ali,
firme,
vendida em promoção de Dia dos Namorados

isso devia ofender Deus

há qualquer coisa profundamente obscena
em transformar sofrimento humano
em objeto “fofo”

o homem arrancou um pedaço da própria carne
porque a cabeça dele era um quarto pegando fogo por dentro
e hoje alguém bebe “mocha” de avelã
na cara deformada da tragédia
enquanto escuta jazz instrumental

o inferno realmente existe
ele só ganhou decoração escandinava

e nós também somos assim

olhe pra nós

homens velhos demais pra acreditar em esperança
e covardes demais pra desistir

sobrevivemos à força do hábito
igual barata atrás da geladeira

acordamos
pagamos conta
respondemos mensagens com “kkkk”
fazemos café
olhamos o teto
e lentamente vamos apodrecendo
com uma educação admirável

a vida moderna é isso:
um velório com Wi-Fi

ninguém mais enlouquece direito

antigamente o sujeito bebia absinto,
sumia por três dias
e aparecia nu numa estação de trem
recitando poesia para mendigos

hoje ele posta “dia difícil”
e recebe emoji de coração

a decadência perdeu a elegância

e a arte…
ah, a arte…

a arte é só o barulho que fazemos
pra não ouvir o rangido da própria alma

livros são pessoas sangrando devagar
quadros são gritos que aprenderam a ficar imóveis
poemas são bilhetes suicidas
que desistiram no meio

e mesmo assim
continuamos escrevendo

isso é o mais ridículo

o sujeito trabalha dez horas por dia
tem gastrite
dor na lombar
medo do futuro
uma solidão úmida grudada no peito
feito mofo de banheiro antigo…

e ainda acha necessário
abrir um caderno
pra organizar o desastre em parágrafos

como se palavras fossem impedir
o abismo de mastigar os ossos dele

mas talvez exista alguma dignidade nisso
mínima
suja
quase invisível

igual aquele homem varrendo o chão do bar
às três da manhã
mesmo sabendo
que amanhã haverá mais cinza
mais vômito
mais copos quebrados

ele varre assim mesmo

nós escrevemos assim mesmo

porque no fundo
ninguém acredita realmente na cura

queremos apenas
uma ferida
bonita o bastante
pra merecer ser observada

e a caneca continua ali
sem orelha
sem piedade
sem cura

igual nós


Walter Biancardine



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