Há noites que não pedem coragem.
Pedem que eu não faça nenhuma besteira definitiva.
Queria ter uma vitrola velha, uma garrafa pela metade e um maço quase vazio.
Sentar sozinho.
Escutar aquele cearense bigodudo cantar que o passado foi melhor porque já passou.
E beber devagar, como quem dá esmolas ao próprio fracasso.
Mas não tenho vitrola.
Nem a mulher.
Nem a dignidade inteira.
O amor, descobri tarde, não acaba quando acaba.
Acaba pra um.
Pro outro vira infiltração.
A pessoa vai embora e deixa um mofo crescendo dentro da gente.
Alguns pintam a parede, trocam os móveis.
Eu escrevo poemas.
Mas o mofo continua ali.
Olho pro cinzeiro.
Bitucas.
Olho pra mesa.
Marcas do copo na madeira.
Olho pra mim.
Um sujeito de sessenta anos conversando com fantasmas
e fingindo acreditar
que três minutos de música
podem salvar uma noite inteira.
É ridículo.
Mas quase tudo que mantém um homem vivo é ridículo.
A esperança é ridícula.
O amor é ridículo.
Escrever poemas…
isso é uma doença.
Mesmo assim escrevo.
Porque enquanto eu estiver enchendo um copo,
rabiscando versos tortos
e mentindo pra mim mesmo
que amanhã será diferente,
a derrota ainda não venceu completamente.
Ela tá ganhando.
Mas ainda não venceu.
E amanhã vou acordar cansado.
Mal-humorado.
De orelhas baixas como um cachorro abandonado.
Vou fazer café.
Talvez chore.
Talvez olhe no espelho
e encontre aquele velho conhecido:
o sujeito que estraga tudo
e depois escreve poemas
como se isso resolvesse alguma coisa.
E depois sigo.
Não porque sou forte.
Porque o mundo tem essa mania vulgar de continuar existindo.
E, infelizmente,
eu também.
Walter Biancardine