quarta-feira, 22 de julho de 2026

COMO CONFUNDIR O INIMIGO

“Sorte no jogo, azar no amor” – era o que diziam antigamente.
Besteira.
Sempre me lasquei de verde e amarelo, igualmente, em ambos.

A verdade é que nunca fui um bom jogador.
Aliás, posso dizer que sempre fui péssimo. Sequer aqueles brindes toscos de festa junina eu conseguia ganhar.
E eu cresci, mas nada mudou.

Na época da Loteria Esportiva meu recorde foram quatro acertos – até aceitável, já que eu nada entendia de futebol.
Aí veio a Loto e, de cinco números, eu acertava um ou dois.
Mega-Sena sempre foi um vexame e tentar uma fezinha no bicho – o desespero faz dessas coisas – ficou fora de questão: eu estava me tornando motivo de piada pro apontador do jogo, lá perto de casa.

Com as mulheres era igual.
As que eu queria sempre tinham alguém – ou eram simplesmente gentis, não caindo na gargalhada que as outras não conseguiam segurar.

Três casamentos.
Três falências completas, bancarrotas das quais saí com meus poucos pertences e roupas.
E também três chances que dei à cirrose e ela não apareceu.
Talvez tenha se condoído com minha situação e feito vistas grossas pra inumerável quantidade de bebida sobre a mesa do bar.

Agora tenho uma namorada e a amo. Mas ela mora do outro lado do país, onde até o fuso horário é diferente.
Como posso trazê-la pra cá?

Minha vida, às vezes, mais parece um monumento ao cinismo.
Resolvi apostar num milagre: ganhar na Mega-Sena e ir buscá-la.

Seria um final surrealista. O azarado no jogo ganhando um prêmio que resolveria seu azar no amor.

Pura estratégia.

Na falta de opções, confunda o destino.




Walter Biancardine



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