quinta-feira, 30 de julho de 2026

NÃO HÁ PERDÃO


andei lendo o que escrevi logo que voltei pra esse mato
preferia não ter lido
nada tenho a lembrar dos meses que deixei de ser gente

há anos muita gente me engana
pensam que não vejo
sempre vi
traição atrás de traição
falsidade atrás de falsidade
e os fatos se confirmaram

voltei sozinho
vendi a TV pra pagar o ônibus
e o silêncio reinava
como sempre

dormia numa bilheteria abandonada
arranjei uma maca de ferro pra deitar
chão com um palmo de água
paredes com mofo
sem energia elétrica
sem banheiro
sem água
sem cozinha
sem internet
uma muda de roupa
um maço de cigarros
e só

foi o que me restou
tudo meu ficou no Rio
a história de uma vida inteira
lembranças de meu pai e minha mãe
meus livros
ninguém me ajudou a trazer nada
ninguém quis saber como eu ia fazer
e ainda fui enganado e caluniado

e se hoje comprei uma simples máquina de escrever
que mal custou o preço de um tanque cheio no carro
saibam que é um feito muito maior
que uma pessoa normal mobiliar a casa

sim
ainda sou homem
muito homem

não
eu não vou esquecer

nem que eu viva
mais dez miseráveis anos




Walter Biancardine


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