quarta-feira, 22 de julho de 2026

HERMÈS SE VIRA


Os antigos sabem que a maioria das máquinas de escrever não tem o número 1 nem o ponto de exclamação.
Como muita gente, elas aprenderam a se virar usando outra coisa no lugar do que lhes faltava.

Se quero dizer “em 10 minutos”, uso a letra L no lugar do número 1.
Se escrevo “corra!”, digito o ponto final, volto um espaço e, por cima dele, bato o apóstrofo.
A exclamação sai estranha, meio remendada – mas sai e ninguém nunca se importou com isso.

Ninguém me dá emprego.
Meu amigo Dail me arrumou um pequeno bico aos domingos, que paga as despesas da semana.

Não tenho casa.
Meu amigo Alair me deixou ocupar novamente uma das cabanas em suas terras.

Não tenho carro.
Mas tenho saúde, fôlego e disposição pra caminhar os vinte quilômetros de ida e volta até o bairro mais próximo, onde faço compras.

E tenho também alguns cachorros, cavalos, bois e vacas pra me fazer companhia quando a solidão aparece pra um café.

Aprendi a usar a letra L.
Aprendi a usar ponto e apóstrofo.
Aprendi a me virar.

Minha Hermès não nasceu completa.

Eu também não.




Walter Biancardine



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