quarta-feira, 22 de julho de 2026

NUNCA GOSTEI DE PORCOS


Voei um tempo pra um empresário do agro, que tinha fazendas no Paraná e Mato Grosso.
Ele fazia planos de construir um hotel em uma ilha no Pantanal e eu servia de chofer, voando seu velho Cherokee perna-dura.

Eram fazendas produtivas, principalmente as da região do Alto Taquari e Alto Araguaia. De tanto voar pra lá e ficar hospedado nos alojamentos, acabei arranjando alguns amigos entre os peões e capatazes.

Um dia, Patrão – era assim que eu chamava o feitor, o gerente de lida local – me chamou pra uma comitiva. Seriam uns sete ou oito sujeitos cavalgando por dois dias naquelas matas, só por diversão. Aceitei, pois havia um belo cavalo que eu gostava e eu o montaria.

Patrão me ofereceu uma escolha: uma escopeta calibre 12 Mossberg ou uma Rossi tipo Winchester, daquelas com alavanca de recarga que chamam “lever-action”.
Nunca fui muito bem atirando com balotes, mas o que me fez decidir pela Rossi foi o fato dela calçar munição .357 Magnum – aquilo fura o bloco do motor de um carro, e em boa hora o escolhi.

Já havíamos cavalgado um bocado. Na verdade, eu não sabia se ainda estávamos nas terras de meu chefe ou se teríamos avançado até as matas de Goiás. Muito chão.
Paramos sem desmontar, em uma espécie de clareira pra beber água e aquilo foi pura sorte: sem aviso, um bando de porcos-selvagens – tem gente que chama aquilo de “javaporco” – irrompeu do mato em disparada, furiosos e guinchando, em nossa direção.

Disse que foi sorte estarmos parados porque nossas mãos estavam livres, ao invés de rédeas de cavalos assustados segurávamos apenas os cantis.
Larguei o meu e puxei a espingarda do embornal, tentando manter o sangue frio e só atirar quando o bicho parecesse já estar prestes a me engolir, de tão perto.

Escolhi um, gordo e raivoso, e sentei o dedo.
Na cabeça, entre os olhos.
Caiu duro.
Meu cavalo pulou e deu trabalho segurar.

Maus companheiros atiravam também e, por uns cinco segundos, aquilo virou uma fuzilaria. Os porcos, entretanto, eram ajuizados e bateram em retirada.

E lá estavam três monstros estendidos no chão, além de outro agonizante ao lado, que abati com o revólver.

Nunca fico em pânico na hora do perigo, o problema vem depois.
Mantive minha fama de pistoleiro do velho oeste até retornarmos à fazenda, arrastando o mais gordinho daqueles bichos pra fazer uma churrascada.

Sequer o provei.
Passei um bom tempo disfarçando o tremor nas mãos segurando copos de garapa ou cerveja, enquanto eles riam e cantavam como se nada de anormal houvesse acontecido.

Cachaça salvadora.
A melhor parte de desmaiarmos bêbados é que não precisamos responder perguntas nem mentir por causa disso.

Só acordei no dia seguinte, com uma ressaca desgraçada e meu chefe me dizendo pra aprontar o avião, pois era hora de voltarmos a Maringá.

O povo de lá passou a me respeitar, e me cumprimentavam.

Essa foi a melhor parte.

Nunca gostei de porco, mesmo.





Walter Biancardine




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