Andando lá fora, fingindo que rondo.
O tempo mudou.
Sem vento, noite quente e clara, por conta da lua.
Nuvens se espalham como se um cachorro houvesse destruído um travesseiro no céu.
Subi na laje pra sentir a maresia, que vinha de leve.
Olho os campos, as árvores longe, o açude e as casinhas distantes, luzes acesas avisando que estão ali e vivas.
E tudo isso me entristece. Melancolia calma.
O maior peso que vem com a idade é saber que o prazo é cada dia mais curto. E tudo isso que vejo, que gosto, em breve não verei mais.
Uma tristeza de perda.
Mais uma perda.
Meu santo não cruza com o da morte.
Não vou com a cara dela e acho que é recíproco.
Perdi quase todos os amigos, perdi tios e primos, irmã, pai e mãe e sei que provavelmente ainda terei de ver mais gente ir embora, até que chegue minha vez.
Mas nunca choro. Não é esse meu luto.
A morte me dá raiva.
Ódio.
Me sinto ofendido, vilipendiado, roubado e desacatado.
Pudesse, daria uma sequência de diretos de direita em sua cara até provocar um afundamento de crânio.
Mas não quero matar a morte.
Apenas não gosto de ser roubado.
E quando olho os pastos em volta, a mulher que eu amo e meu filho, eu sei que serei.
Em breve serei.
Mas a morte é útil.
Tem muita gente por aí precisando ir embora.
O problema é que estou na fila também.
Walter Biancardine
O tempo mudou.
Sem vento, noite quente e clara, por conta da lua.
Nuvens se espalham como se um cachorro houvesse destruído um travesseiro no céu.
Subi na laje pra sentir a maresia, que vinha de leve.
Olho os campos, as árvores longe, o açude e as casinhas distantes, luzes acesas avisando que estão ali e vivas.
E tudo isso me entristece. Melancolia calma.
O maior peso que vem com a idade é saber que o prazo é cada dia mais curto. E tudo isso que vejo, que gosto, em breve não verei mais.
Uma tristeza de perda.
Mais uma perda.
Meu santo não cruza com o da morte.
Não vou com a cara dela e acho que é recíproco.
Perdi quase todos os amigos, perdi tios e primos, irmã, pai e mãe e sei que provavelmente ainda terei de ver mais gente ir embora, até que chegue minha vez.
Mas nunca choro. Não é esse meu luto.
A morte me dá raiva.
Ódio.
Me sinto ofendido, vilipendiado, roubado e desacatado.
Pudesse, daria uma sequência de diretos de direita em sua cara até provocar um afundamento de crânio.
Mas não quero matar a morte.
Apenas não gosto de ser roubado.
E quando olho os pastos em volta, a mulher que eu amo e meu filho, eu sei que serei.
Em breve serei.
Mas a morte é útil.
Tem muita gente por aí precisando ir embora.
O problema é que estou na fila também.
Walter Biancardine
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