Nesse contexto luziu a estrela do padre alemão Martin Luther, advogado, teólogo brilhante e, temeráriamente, um observador crítico que concluiu que as práticas da Igreja não condiziam com as Escrituras.
A Igreja Católica crescera de forma incontestável desde o fim do Império Romano. Imiscuiu-se no poder, fez parte dele até que afinal tornou-se o próprio, o braço armado de Deus em uma Europa fragmentada em feudos.
O maior poder espiritual que a humanidade já vira tinha agora preocupações bem terrenas: precisava de dinheiro para conter invasões turcas, precisava de tropas, de bons generais, e principalmente, precisava da união indispensável nos momentos de ameaça. O Papa Júlio nada mais era que um déspota, guerreiro e mulherengo que esporádicamente, entre as inúmeras amantes e suas brigas com Michelângelo, usava uma batina. O poder era vertical, inconteste. E as despesas também.
Cobrando por orações, vendendo indulgências, amealhando heranças e destruindo quem ousasse discordar dos métodos arrecadatórios desse Estado, o catolicismo tornou-se um espinho para Luther.
“Nulla salus extra ecclesiae”. Não há salvação fora da igreja. E Luther tornou a frase em “Não há salvação que não seja Cristo”. O Cristo Jesus era apresentado por ele como um Deus amoroso, um Deus de alegria, sempre perdoando os pecados de seus filhos, acolhendo-os em Sua santa paz. Um Deus de Gregos e Romanos. Uma diferença brutal para o Jeová dos Exércitos irado e vingativo, que visitava os pecados dos pais até a sétima geração dos filhos. E o alívio dessa carga tornou-se a principal marca de sua reforma. A abolição do uso de imagens, o fim das indulgências, a extinção do mercantilismo no movimento religioso que ele dera início eram apenas marcas exteriores. Os fiéis eram atraídos sobretudo pela Igreja gratuita e sem culpas impagáveis. Era o Pai, que chamava seus filhos de volta à Sua casa, agora com Sua Palavra impressa em alemão, ao alcance do homem comum, graças ao gênio de Guttemberg.
Todas as formas de poder que a humanidade já viu seguiram a mesma trajetória. Impérios, instituições, grupos. Nasceram humildes, combatidos, perseguidos até o martírio. Começa então o crescimento, já usando esse sangue como chantagem para atingir degraus cada vez mais altos, cada vez mais rarefeito e distante de seus seguidores, cada vez mais voraz em suas despesas e cobranças. E a distância da massa que o sustenta provoca por um lado o mito, já que não há liderança que seja companheira, e por outro a inevitável opressão - fruto da falta de compaixão, perfeitamente humana, para com os que nos são distantes.
Martin Luther foi um teólogo fabuloso, animado pelo mais ardente desejo de servir bem ao seu Deus. Uniu o pensamento à ação e empreendeu corajosamente sua reforma para consertar o que, aos seus olhos, acreditava ser consertável.
Esqueceu-se entretanto o mestre de uma passagem da Bíblia, que se repete à exaustão no livro do Eclesiastes: Vaidade de vaidades, tudo é vaidade e desejo vão. Nada há que seja novo sob o sol. Nem mesmo as idéias de mudanças.
Walter Biancardine é jornalista e de vez em quando, faz umas coisas muito doidas.
Enchendo lingüiça 
