Era um botequim na Rua do Catete, perto da estação do Metrô.
Local de grande movimento, gente sempre entrando e saindo pra comprar cigarros, refrigerantes, comer um salgado, tomar cerveja – enfim, tudo o que compõe a rotina carioca típica.
Zé Jorge era um frequentador assíduo. Negão, quase batendo nos dois metros de altura e com um par de braços que lembravam as colunas da ponte Rio-Niterói, por lá se deixava ficar depois de seu expediente de encanador em uma obra próxima, rodeado de cervejas e tira-gostos. Foi quando viu um cliente entrar vestindo um terno da Ducal, amarrotado, segurando uma pasta 007 e pedindo um café.
O homem levantou a xícara do pires e ia levá-la à boca quando viu uma moeda de um real sobre o balcão. Disfarçadamente, deslizou a mão por cima do dinheiro. Percebeu que não se movia. Fingiu que limpava o balcão, terminou o café e já ia embora quando Zé Jorge perguntou, gaiato:
- Essa moeda é de sua pessoa?
Sem graça, o homem respondeu:
- Nada, deve ser desse português aí atrás do balcão…
E sumiu no mundo, apressado.
Logo depois entrou um rapaz jovem, de rabo de cavalo e barba de lenhador vegano. Pediu um energético e viu a moeda. Mudou de ideia: cancelou o energético e pediu um café. E com a colherinha que veio junto, ele tentou descolar a moeda do balcão. Seu Almeida, o português dono do boteco, só olhava de longe e fazia uma careta. Os amigos mais próximos sabiam que aquilo era um sorriso.
O rapaz tentou, mudou de posição, olhou a moeda de perto e, por fim, decretou com suprema sabedoria:
- Isso é Super Bonder!
Zé Jorge apenas resmungou, de seu canto:
- Olha que pode fazer falta pra sua pessoa…
Dessa vez o botequim inteiro riu.
Lá pelas quatro da tarde, entretanto, apareceu a suntuosa.
Michelaine andava lá pelos seus dezoito ou dezenove anos e era babá no Flamengo. Possuía uma dessas belezas que fazem homem esquecer senha de banco, aniversário de casamento e até o nome da própria mãe.
Pediu um refrigerante e viu a moeda. Seus olhos brilharam.
Sem pestanejar, meteu a unha por debaixo da moeda para levá-la, mas a Super Bonder cumpriu seu papel e a pobre quebrou a unha, recém feita:
- Ai! Que droga, lamentou ela.
Zé Jorge, já tonto por acompanhar tantas curvas do corpo da suntuosa, condoeu-se: pegou uma outra moeda de um real que tinha em seu bolso e a colocou, discretamente, sob seu braço apoiado no balcão. E aproxegou-se, galante e solícito:
- A sua pessoa não fique triste… olha, que tal tentar com essa outra aqui? – e apontou a moeda que acabara de colocar.
Michelaine olhou meio desconfiada, mas tentou. E conseguiu, sorrindo radiosa.
Zé Jorge não perdeu tempo:
- Não é todo dia que a sua pessoa enriquece desse jeito! Vamos comemorar num lugar bacana, que eu conheço?
A suntuosa concordou.
No dia seguinte a pobre teve de faltar o serviço, se recuperando em banhos de assento.
Mas ganhou um real.
Walter Biancardine
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