sexta-feira, 29 de maio de 2026

OVO COLORIDO -

 


O botequim ficava numa transversal esquecida de Copacabana, próximo ao Posto 4, e era desses lugares onde até a barata entra de chinelo pra não pegar doença no pé. O nome “Estrela do Minho” não fazia jus: a estrela tinha apagado em 1972 e o Minho provavelmente pedira demissão por justa causa.

Atrás do balcão, o português Almeida secava copos com um pano que já servira, em épocas distintas, de toalha, filtro de café e talvez curativo de guerra. O chão grudava no sapato com uma sinceridade rara nos tempos modernos.

Fim de expediente, cinco e meia da tarde, trânsito caótico – a hora em que o Rio desmonta a fantasia. O executivo tira a gravata, o pedreiro tira o cimento da canela e o sujeito que vende curso de liderança no LinkedIn vai pra casa chorar no banho igual todo mundo.

Numa mesa perto da parede encardida, o doutor Arnaldo Bastos, alto executivo de uma multinacional qualquer – dessas que fabricam relatórios inúteis em PowerPoint colorido – tomava sua cerveja em silêncio. Terno caro, olho morto e uma gastrite executiva avaliada em dólares.

Ao lado dele sentou Juvenal, mestre de obras, camisa aberta até o peito, cheiro de cal e derrota matrimonial. Sentou sem pedir licença e já engatou a conversa. Afinal, Rio é assim.
- Tá pesado o dia, chefe? – perguntou Juvenal.

Arnaldo suspirou.
- Reunião o dia inteiro. Trinta pessoas numa sala pra decidir a cor de um gráfico.

Juvenal bebeu um gole da cerveja que tinha trazido.
- Na obra foi pior. O engenheiro mandou derrubar uma parede que ele mesmo mandou levantar ontem – e aproveitou pra beliscar uma linguicinha do pratinho de aperitivo que Arnaldo havia pedido.

Os dois se olharam como veteranos de guerra. O Brasil une classes sociais pela cerveja e pelo sofrimento inútil.

Nisso entra Zé Jorge. Negão de quase dois metros, encanador da obra, braço do tamanho de um botijão de gás e voz que fazia o copo vibrar.
- Seu Almeida! Desce três cerveja e um ovo colorido!

O português resmungou:
- Ovo colorido não. Aquilo já venceu na Copa de 94. Quer um kibe?

Zé Jorge deu de ombros.
- Kibe nada, aquilo é mosca! Traz o ovo mesmo, antes que ele peça aposentadoria.

Foi quando entrou Rosângela, a suntuosa.

Mulata estonteante, saia justa, crachá das Casas Pernambucanas ainda pendurado no pescoço, andando com aquela majestade cansada e curvilínea de quem passou o dia inteiro ouvindo cliente perguntar se “divide sem juros no carnê”.

O botequim inteiro silenciou. Até as moscas se afastaram e o ventilador pareceu diminuir a rotação por respeito.

Arnaldo endireitou a postura. Juvenal puxou a barriga pra dentro. Zé Jorge sorriu como quem sabia perfeitamente o estrago que dois metros de altura causam numa disputa desigual.

Rosângela pediu um refrigerante.
O português perguntou:
- Copo limpo ou da casa?

- Qual a diferença?

- O limpo ainda tá molhado.

Ela riu.
Foi o bastante.

Arnaldo, querendo parecer sofisticado, comentou:
- A vida moderna é muito estressante.

Rosângela respondeu sem olhar pra ele, naquele tom de doméstica respondendo a adolescente tarado:
- Meu filho, estressante é dobrar pijama infantil por oito horas ouvindo disco do Wando remixado.

Juvenal bateu na mesa:
- Essa mulher falou uma verdade histórica.

Zé Jorge então decidiu atacar, sorridente.
- Madama, a sua pessoa e eu, a gente podíamos jantar qualquer dia… 

Ela olhou o tamanho do homem.
- Pra quê? Pra eu virar chaveiro no teu bolso?

O botequim veio abaixo em gargalhada.
Até o português sorriu, coisa que não acontecia desde a queda do Salazar.

Arnaldo terminou a cerveja olhando pro nada. Teria de andar dois quarteirões até onde havia estacionado o carro importado.
O negão pegou o ônibus pra Central do Brasil junto com o mestre de obras – sem a mulata.
Ainda tinham uma longa viagem até que o trem chegasse a Morro Agudo, na Baixada.
E a mulata desapareceu. Inclusive na cabeça de todos.

Era um retrato do país, que acontece quase todos os dias nos botequins cariocas: um executivo escravo do ar-condicionado, um mestre de obras discutindo com o engenheiro, um encanador gigante, um português sobrevivendo à Vigilância Sanitária pela proteção divina e uma mulher bonita demais praquele balcão imundo.

Todos cansados. Todos derrotados.
Mas tomando cerveja.

Porque o brasileiro, no fundo, não vive.

Faz hora extra existencial.


Walter Biancardine

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