quarta-feira, 27 de maio de 2026

NÃO-VENDÁVEL

 

ele escrevia poemas 
como quem limpa o corte com Merthiolate
sem paciência pra perfume barato
sem fé em sorriso de vitrine

falava do lado sujo das coisas
de paredes rachadas que todos fingem novas
ninguém gosta disso 
ninguém quer saber onde mora o mofo 
quando o jantar está servido

então não o liam
fugiam de seus livros como imundos

ou liam como quem atravessa uma rua perigosa
rápido, fingindo pressa
já pensando no conforto 
de voltar ao próprio engano

era melhor quando ele era jornalista

quando mordia nomes, mastigava narrativas
latia com precisão contra os inimigos 
que eles já escolheram odiar

ah, isso sim era útil
um homem assim é sempre bem-vindo 
desde que esteja preso à coleira da função

podem aplaudi-lo ali
desde que ele não comece a olhar demais 
pra dentro das casas

porque poeta é incômodo
poeta não serve como espelho neutro 
serve como espelho sujo

e espelho sujo devolve o que ninguém pediu pra ver

então preferem seu antigo ofício
o barulho organizado
a raiva com endereço certo
o escândalo com final previsível

o outro – o que escreve depois do incêndio –
esse não tem utilidade

esse não confirma nada
não ordenha nossa raiva
só deixa perguntas no ar, como cinza
e no fim, é simples, quase elegante 
na sua crueldade

não é que nunca o leiam

é que o leem às vezes
fechando os olhos 
no meio da verdade

e decidem que amanhã 
sim, amanhã
vão continuar acreditando 

no que já desmoronou ontem



Walter Biancardine 

O livro "Quem Vai Pagar a Quitinete?" já está disponível!

Crônicas, contos, poesia. Tudo sobre o que ninguém quer falar...
Sempre verifique os valores de entrega cobrados pelas plataformas, caso compre o livro físico.

https://a.co/d/06NHVpMM - Amazon e-book



Reserve já o seu, aproveitando o desconto de pré-lançamento na editora Clube de Autores!






Nenhum comentário: