ele escrevia poemas
como quem limpa o corte com Merthiolate
sem paciência pra perfume barato
sem fé em sorriso de vitrine
como quem limpa o corte com Merthiolate
sem paciência pra perfume barato
sem fé em sorriso de vitrine
falava do lado sujo das coisas
de paredes rachadas que todos fingem novas
ninguém gosta disso
ninguém quer saber onde mora o mofo
quando o jantar está servido
então não o liam
fugiam de seus livros como imundos
ou liam como quem atravessa uma rua perigosa
rápido, fingindo pressa
já pensando no conforto
de voltar ao próprio engano
era melhor quando ele era jornalista
quando mordia nomes, mastigava narrativas
latia com precisão contra os inimigos
que eles já escolheram odiar
ah, isso sim era útil
um homem assim é sempre bem-vindo
desde que esteja preso à coleira da função
podem aplaudi-lo ali
desde que ele não comece a olhar demais
pra dentro das casas
porque poeta é incômodo
poeta não serve como espelho neutro
serve como espelho sujo
e espelho sujo devolve o que ninguém pediu pra ver
então preferem seu antigo ofício
o barulho organizado
a raiva com endereço certo
o escândalo com final previsível
o outro – o que escreve depois do incêndio –
esse não tem utilidade
esse não confirma nada
não ordenha nossa raiva
só deixa perguntas no ar, como cinza
e no fim, é simples, quase elegante
na sua crueldade
não é que nunca o leiam
é que o leem às vezes
fechando os olhos
no meio da verdade
e decidem que amanhã
sim, amanhã
vão continuar acreditando
no que já desmoronou ontem
Walter Biancardine
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