terça-feira, 14 de julho de 2026

NA TRAVE


hoje
pela primeira vez
alguém me perguntou

se eu era o autor do livro
Quem Vai Pagar a Quitinete?

quase me senti
um escritor

fiquei feliz
por ele lembrar
e triste 
por não ter comprado

só vendi um 
e que eu saiba
não foi ele
quem comprou



Walter Biancardine




TRANSGRESSÃO EM FÉRIAS

 
Dei uma folga pra mim.
Resolvi ser mais infantil no que escrevo.
Mais bobo, ou o que chamam de “espontâneo”.

Penso que um homem é como um planeta: se a atmosfera é irrespirável, não há vida possível. E sem vida, não há criação.
Por isso me dei essa folga.

Na verdade sou um planeta poluído. Tóxico.
Mas ainda habitável, pra quem aguentar.
Só que nem eu mesmo estava mais me aguentando.
E danei a escrever sobre manhãs e entardeceres, dias nublados e outras coisas dessa rotina miserável que chamam de vida.

Gasto meus dias escrevendo sobre fracasso. Miséria. Lixo. Sarjeta.
A ideia é mostrar que é possível resistir ao sistema.
O preço é alto, mas é possível.
Mas um dia – e isso sempre acontece – o saco enche e eu pergunto:
- Então por que não meto uma bala na testa?

É a grande pergunta que se pode fazer a um cético. Ou niilista.
A macheza acaba em segundos.
E comigo não é diferente.

Melhor eu escrever sobre as manhãs nubladas.

Ninguém interpreta o papel de “maldito” até o fim.

Ninguém quer morrer.





Walter Biancardine








CINZA

 
a tristeza com que
me despedi da manhã
agora dá lugar a
ânsia do entardecer

ultimamente vejo que
o sol não me agrada
o corpo tão fraco
tem cedido à alma

manhãs e tardes
e dias nublados
claridades difusas

tudo isso certamente
quer dizer alguma coisa
minha idade entardece
e o espírito nubla 

talvez sim ou não
mas foi o que me veio

ao que resta da cabeça





Walter Biancardine




SOBRE MOFO, TRAÇAS E NAFTALINA


busco em minha editora
algo sobre as vendas
dos meus livros

mais parecem 
as antigas pirâmides
imóveis
há cinco mil anos

na verdade os acho
umas porcarias
e a vergonha manda
que os recolha

mas se for assim
também acho uma merda
tudo o que escrevi
há mais de uma hora

pouco vai sobrar

e se a vida 
do que escrevo
é tão curta

pra quê escrever?

que fiquem lá
e um dia os descubram
fósseis

terão algum valor




Walter Biancardine




ZELO DAS HORAS


demoro a acordar
são dez da manhã
começo a escrever
e logo é tarde

não dura nada
minha manhã
nublada
encantada

que tanto inspira

culpo a madrugada
que me enrola
numa conversa
sem fim

é ciumenta
disputa com a manhã
o prazer de
me espremer

pra ver o que sai




Walter Biancardine




ANTES DO SOL


preciso escrever
logo e antes que
o sol saia
ele ameaça

o cinza deprime
e inspira porque
traz lembranças
elas doem

a chuva caindo
nos encharca de passado
os dias nublados
poupam olhos que lembram

e o vento frio
enche os pulmões
de vozes finalmente
livres pra irem

embora




Walter Biancardine




RUIM MAS É BOM

 
odeio o desalento
que os dias nublados
trazem pra mim

mas a melancolia
em poemas compulsivos
fazem gosto

tão bom escrever que
o gostar ou não 
do cinza lá fora
já pouco me importa

e mesmo o desalento
melancolia ou tristeza
bem gosto se me ajudam

não me importo comigo
mas com o que crio
e escrevo

eu gosto de dias
nublados




Walter Biancardine





SEM SOL


ouvi uma música
“cariocas não gostam
de dias nublados”
mas eu gosto

descobri doendo
que não sinto falta
de minha cidade

o que me falta
não é aonde mas
o quando 
vivi por lá

o tempo faz a água
alisar e moldar
uma pedra

o que não faria 
comigo que sou
bem mais mole

dias nublados
e o frio
me agradam

é um bom final
pra esse filme
já longo
demais




Walter Biancardine



SEM SINAL


a parte boa de minha vida
é o sábado que passou
muito legal e divertido
mas já foi e não volta

a parte ruim é depois
de amanhã com o exame
de sangue dolorido
eu sei que vai doer

meu hoje é aquela hora
que acordamos e sentamos
na beira da cama
de olhos arregalados

fazendo download
da alma
fora da área
de cobertura




Walter Biancardine



LEI DO SILÊNCIO


devia ser proibido
precisa uma lei 
contra fazer barulho
de manhã cedo

nada pior que acordar
e ter alguém gritando
discutindo ou rindo
e jogando coisas

isso não é natural
o sono é um abrigo
quieto e seguro e
silencioso e quente

e de repente alguém
aparece e grita
ou joga uma lata
de lixo no chão

pior as exclamações
o falatório contigo
como se todo o mundo
acordasse com eles

é uma gente sem mãe
não sabem ir aos poucos
é do cobertor ao freezer
de uma só vez




Walter Biancardine
 







SOLIDÃO


filme no quarto
à noite inteira
não é distração
é solidão

o mesmo de sempre
no Facebook
ninguém pra falar
é solidão

disfarça e ri
são só manias
não são
é solidão

mente brilhante
subiu alto demais
olhou em volta
é solidão

juventude foi embora
interesseiros ao lado
a graça acabou
é solidão

nada interessa
nada tem pressa
não faz mais sentido
é solidão

seguir o destino
cumprir a missão
é o que resta
é solidão




Walter Biancardine



É ISSO OU ISSO MESMO


ser um bom funcionário
é como ser feio 
e ter olho azul
de nada adianta

ser um bom patrão
é como se apaixonar
pela piranha do bairro
cedo ou tarde leva uma

mas é melhor ser patrão
ou bom funcionário
que viver na merda

rebeldia é como espinhas
passa com a idade

e se não passar
te apontam na rua




Walter Biancardine





segunda-feira, 13 de julho de 2026

CHÁ DE BEBÊ


vivo tanto no meu mundo
quase sem janelas
pra vida normal
dos outros

que me surpreende ao ler
o que outros escrevem
e lembro que são
todos adultos

algo não tá certo
mulheres confundem
feminino com
ser menina

e homens tentam ser
profundos e se
vestem como
malditos

redações da quinta série
pornografia à parte
devem ser mais
adultas

Shakespeare e Camões
Bukowski e Pessoa
na mesma turma
da creche

sem a Tia



Walter Biancardine





PASSA LOGO


tem hora que nada mais sai
a intenção é até boa
mas não adianta

você espreme a cabeça
tenta criar
escrever
e nada

mas quando acontece
o tempo passa
e não notamos

escrever e criar e fazer
compor e arrumar e rimar
qualquer coisa

qualquer coisa
desde que o tempo 
passe e eu
não veja

o hoje já cansou
quero o amanhã
me iludindo
que será
melhor

e todo dia
é assim



Walter Biancardine




PROIBIDA A ENTRADA

 


CICATRIZ


um dia tudo acaba
você sai de casa
desempregado
sem ter pra onde ir

mochila nas costas
anda e anda e anda
a cidade é pequena
não vale a vergonha

vai pra estrada
e anda e anda e anda
sem rumo e sem fé
a sandália se desfaz

segue descalço
pés imundos
furado por pedras
o respeito vai embora

continua andando
as roupas rasgam
sujas e manchadas
hora de dormir

procura um mato
acostamento salva
bichos pinicam
a fome começa

dia amanhece
barba cresce
roupa em farrapos
descalço e sujo

te oferecem um café
salvou a manhã
e a fome
a dignidade vai embora

e continua andando
acha uma bituca
fuma sem medo
higiene também foi
embora

ganha um resto
de uma quentinha
come com gosto
amor próprio se foi

senta no mato
pensa na vida
como desceu
tanto assim

não tem amigos
não tem parentes
não tem ninguém
que lembre
ou se importe

não tem resposta
um conhecido passa
você tenta fugir
ele te chama

te aconselha
a dar um jeito
nessa vida
procurar um trabalho

como não pensei
nisso antes?
com minha boa aparência
vai ser fácil

o sujeito
não merece
que eu estrague
meu “réu primário”

sigo em frente
me oferecem um teto
e vou

ainda querem
que eu seja normal
que seja otimista
agradeça a Deus

não posso culpar
são gente normal
nunca souberam
o que é essa vida

eles não sabem
algumas cicatrizes
nunca e nunca
nunca mais

saem da pele
e da alma



Walter Biancardine



AMANHÃ FICO RICO

 
mais um dia chega ao fim
e percebi que novamente
não fiquei rico

então escurece e tudo fecha
dá tristeza saber
só amanhã ficarei rico

a noite é uma agonia
ansioso que chegue
minha riqueza

ou que a farmácia entregue
o Gardenal




Walter Biancardine




BUROCRACIA

 
preencha o formulário
nome do pai e da mãe
identidade e CPF
entregue na sala 4

na sala 4 pedem
um carimbo da
sala 3 e você vai
mas o rapaz
deu uma saidinha

você espera 20 minutos
o rapaz volta e vê 
fica 10 minutos olhando
decidindo se seu papel
merece seu maravilhoso
carimbo

você volta na sala 4
mas falta comprovante
de renda e residência
volte amanhã

mas você é prevenido
já tinha tudo na pasta
a mulher não esconde
a raiva que ficou

ela junta tudo
leva pro chefe
leva meia hora
conversando

e volta vitoriosa
porque falta
o atestado 
de bons antecedentes

dia seguinte você leva
mas tem que preencher
tudo de novo
é norma

preencha o formulário
nome do pai e do filho
e até do Espírito Santo
quem sabe agora vai?

Amém



Walter Biancardine




FOME FASHION

 
sai mais barato
cigarros e café
que comprar comida
pra semana no mercado

cigarro mata a fome
café engana o estômago
e sobra dinheiro
pra um pãozinho

só um maluco
passaria fome
pra fazer gênero
poeta maldito

se a fome aperta
gosto ruim na boca
quero é comida
e não fazer pose

o meu cigarro
meu café
e até a bebida
que me pagam

custa bem menos
que um quilo
daquela picanha
que ouvi dizer



Walter Biancardine





SEM VERGONHA

 
sou rasteiro
materialista
quero coisas
e conforto
e dinheiro

o que há 
de errado nisso?
o dinheiro
é a caça
mas sempre fui
mau caçador

poesia rima
com economia
mas também
com sangria
do meu bolso

quero escrever
ser reconhecido
lido por todos
e ter dinheiro
e vida boa

só eu que quero?




Walter Biancardine




SAI DESSA VIDA


escrever pra quê?
não resolve nada
não dá emprego
coisa de vagabundo

só escreve 
quem nada tem a fazer
quem passa o dia sonhando
filhinho de papai rico
ou é maconheiro

aí fica velho
não tem onde cair morto
passou a vida à toa
não construiu nada
virou cachaceiro

cai na real vagabundo
escrever é pra quem pode
vá fazer um concurso
uma faculdade
um emprego

senão sua liberdade
e sua cabeça
vão nos irritar
cada vez mais

seja normal
compre uma coleira
como nós

e gaste sua vida
assim



Walter Biancardine





IMPREGNADO

 
tenho privilégios
escrevo de porta aberta
da minha mesa vejo o lago
cavalos pastando
carpas saltando
vento batendo as janelas
e não uso luz

tudo é silêncio
só bois mugindo
relinchos e latidos
e minha insistência
barulhenta
de escrever

insisto 
porque não esqueço
não esqueço 
porque não resolvo
não resolvo
porque nada muda

olho pastos
e lembro sarjetas
os lagos trazem
as poças sujas
das ruas
mugidos e relinchos
apontam gritos
buzinas e sirenes

e as carpas
me dão fome

não será só um banho
que vai me limpar
dessa imundície

preciso 
de muito sabão
muita água
usar perfume
roupa limpa
e ter
a cabeça areada

até que o cheiro
de toda a desgraça
de minha vida
saia de dentro
de mim



Walter Biancardine




RESSUSCITA-NOS



na clausura do quarto
a gravata é o cilício
que aperta e sangra
o pescoço penitente

e se vai a caminho
via crucis do pão
nosso de cada dia

calvário sem fim
com vale-transporte
cesta básica e um vale

Lázaro

o funcionário do mês





Walter Biancardine 





domingo, 12 de julho de 2026

NO CAMINHO DA ROÇA


Existem pessoas que aparecem do nada e estendem a mão.
E assim é minha amizade com seu Dail.
Do nada.
Ele me estendeu a mão e a mantém estendida até hoje.
E seus filhos fazem o mesmo.

Reclamo do desamparo. 
Dos dias difíceis.
Reclamo de tudo.
Mas seu Dail e sua família estão lá.
Me cuidando em minha solidão.

Mas a solidão não é um objeto, um bloco, um monolito.
Ela tem dimensões, modos, circunstâncias, condições, facetas.
Posso reclamar de solidão ao lado de um amigo, e me referir a ausência da mulher que amo.
Ou da família que não tenho mais.
Ou da antiga vida, que desapareceu.
Tudo isso é solidão também.

Mas tenho seu Dail.
E sua família.




Walter Biancardine




À DERIVA

 


Eu tinha uns vinte e poucos anos.
Era fácil brigar com os pais e sair de casa. 
Todo jovem afronta seus pais achando que sempre será perdoado e acolhido.
Não fui diferente.

Deixei o lar paterno em Copacabana e vim morar num pequeno apartamento que eu tinha, num charmoso condomínio em Cabo Frio, chamado Casa Grande – obra do genial Lian Pontes de Carvalho, que também construiu o Clube do Canal.

Nesse meio tempo conheci um navegador, dono de um veleiro, e ficamos amigos. Sim, a amizade brota fácil quando se é jovem.

Zarpávamos do canal Itajurú e fazíamos vela ao livrar a boca da barra. A partir daí, não havia destino, só o tempo.

Lembro de uma das muitas noites no mar.
Ele bêbado, dormindo em sua cabine, e eu no convés divagando entre as estrelas, ventos e ondas.
Bêbado também, mas era um bom conhaque.

Um frio de gelar os ossos.
Cheiro de maresia.
O barco apenas balançava ao sabor das vagas. 
Não adernava. 
Árvore seca.

Olhava o céu. As estrelas.
Tentava me imaginar com trinta, quarenta anos.
Dava uma boa ansiedade.

Imaginava também quem seria a mulher que me acompanharia pelo resto de meus dias. 
Relembrava minhas pequenas frustrações de jovem adolescente e achava que já tinha sofrido meu quinhão; que dali pra frente seriam apenas vitórias e alegrias.
Sim, eu não sabia de nada.

Às vezes um peixe-voador passava feito bala perdida por sobre o convés do veleiro. Outras, algum peixe grande – nunca conseguia ver qual espécie – saltava sobre as águas e eu só o percebia pelo barulho ao mergulhar de volta.
E o vento não parava.
Vento gelado, comia meu cigarro e deixava o conhaque melhor.

Meu isqueiro era um Zippo, o único que acende sob vendavais. Havia recebido de meu pai e, ao olhar pra ele, me lembrava que meu futuro estava garantido: havia uma empresa de transporte para tocar adiante, filiais em São Paulo, Espírito Santo, e clientes poderosos.
Pura associação de ideias: Zippo – meu pai – empresa – futuro garantido.

Como disse, eu não sabia de nada.

Tenho hoje saudades daquelas navegações. 
Uma semana embarcado.
Veleiro bom. 
Mares épicos.

E uma indecente inocência.



Walter Biancardine