segunda-feira, 9 de março de 2026

SÃO AS ÁGUAS DE MARÇO -



Chuva furiosa e contínua, aqui.

Acordei 5:30 já chovendo forte. São 11:40, permanece igual. 

Aqui, desbarranca-se uma encosta. As águas levam mourões e o farpado da cerca, tudo embora, descida abaixo.

No Rio de Janeiro, ruas alagam. Táxis somem e dobram de preço. Ônibus lotados embaçam seus vidros, com tanta gente enlatada. E os carros, sempre com um ar superior, seguem blindados e isolados por vidros, climatizadores e Insulfilm.

Aqui é respirar fundo, consertar o estrago e vida que segue. É a natureza, as coisas são assim mesmo apesar de nossos xingamentos. 

No Rio, chega-se atrasado no trabalho. Chefe olha com cara feia - se ele estiver lá. A roupa, molhada da chuva, faz o pobre e promissor profissional congelar no ar-condicionado. Talvez a única coisa humana naquele ambiente asséptico seja o café. Mas que seja breve.

É proibido fumar. Conversar atrasa a produção. Rir não combina com relatórios. E as mesas são limpissimas às custas de Veja Multi-Uso.

Sem marcas de trabalho. Sem riscos, desgastes ou rachaduras de esforço. Sem manchas de suor ou dedos sujos. Um porta-retrato com o cônjuge e Fluffy, seu filhinho pet.

Aqui é um barracão de madeira que serve de oficina e depósito. As tábuas cruas e grossas da bancada não tem mais ângulos retos ou rebarbas, os anos de uso arredondaram todas as quinas.

Chão preto de graxa e óleo motor, polvilhado com serragem e muita lama trazida nas botas. Tudo cheira a gasolina. Luz, quando há, é sempre uma só lâmpada e mal posicionada.

E na porta desse barraco tomamos café - forte e quente - sem nenhuma pressa, observando a chuva e o frio que ela traz. Quem sabe quando vai estiar é São Pedro, não nós. 

No Rio a chuva passa e ninguém nota. Os olhos só enxergam a tela azul do computador. No máximo, um prefeito sobe numa favela em busca de demagogia e noticiário na Globo. E continuamos na tela. Produzir é tudo.

Aqui, a chuva espera até que acabemos nosso café, o cigarro e a prosa. E então ela passa.

Hora de consertar os estragos, lama até as canelas, músculos, suor e testosterona.

Tudo igual, desde que o mundo é mundo e homens são homens.

Vida que segue.

Continuo escrevendo.


Walter Biancardine



sexta-feira, 6 de março de 2026

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, BURRICE NATURAL -

Me dei conta hoje que metade do Brasil tem, atualmente, o dom da escrita.

Vejo postagens no Facebook muito bem redigidas, bem estruturadas, pontuação certeira - mas sem alma, sem vida, sem consistência ou emoção humana.

A verdade é que, se faltar luz, a burrice desabará sobre esse povo feito uma laje de concreto.

Tipo professores cheios de títulos e diplomas, que não apenas fraudam seus artigos como - pior - até seus comentários são paridos por um ChatGPT. Por isso jamais aceitariam um debate ao vivo, no YouTube, para defender suas posições. 

Para o ser humano médio contemporâneo, a eletricidade é mais vital que a própria água ou o ar que respira.

São os bits e bytes que, de fato, hoje os definem como indivíduo.  Supostamente pensante.

Somos mantidos vivos às custas de aparelhos.

Telefones celulares, para ser exato.


Walter Biancardine



quinta-feira, 5 de março de 2026

EU, SONSO -

 Recentemente repeti uma verdade antiga para mim: quem se dedica ao trabalho intelectual precisa, sempre, do trabalho braçal como complemento - ou perderá contato com a imundície a qual chamamos "realidade".

É algo que, estou seguro, é uma verdade incontestável. 

Mas sou um hipócrita e não a sigo assim, tão na risca.

Recentemente ajudei um vizinho a destelhar sua varanda, coberta por velhas e podres Eternit's. 

Após isso, instalamos as novas e levamos as antigas para um novo e suntuoso chiqueiro que ele está construindo - certamente para porcos de alta classe, bacons de elite que não se satisfazem com nada menos que a melhor das imundícies. 

Lá, ajudei a instalar as pesadas peças de fibrocimento e agora posso responder onde está minha hipocrisia: se encontra no fato de que estou morto. Dolorido. Enferrujado. Decrépito. 

Deixei o Rio de Janeiro com apenas uma mochila e duas bolsas. E por ter gasto o dia as carregando, cheguei aqui em Cabo Frio fisicamente destroçado. E veio o chiqueiro, para piorar minha situação. 

Sim, é fácil recomendar, pregar, falar.

Difícil é fazer.

Não sou mais um garoto. 62 anos já me pesam nas costas e não possuo mais as antigas forças e resistência. 

Tudo dói. Tudo range. Tudo estala.

Mas, ao menos, tento.

Se o amigo leitor é um trabalhador intelectual reclamando que tem de ir ao mercado e trazer as sacolas até sua casa, fica a dica: você já morreu.

Desmorra antes que seja tarde, ou suas criações estarão cada vez mais distantes da realidade.

Levanta, Lázaro!


Walter Biancardine



UM XÁ DE CADEIRA -

Ultimamente tenho dedicado os dias à me readaptar. Até a roça muda e descobri algo que, na vez anterior que vivi aqui, não havia obtido: um ponto milagroso, na linha de visada de distante antena de celular, onde às vezes consigo captar algo da internet. 

É bom. Posso mostrar que ainda vivo e me mantenho sabendo vagamente das coisas - embora a maioria delas não mais me interesse.

Soube, por exemplo, que o povo do Irã - creio somado a um empurrãozinho de Trump - parece estar tentando dar um pé na bunda daquela maldita raça dos Aiatolás. 

De fato, lembro quando essas viboras tomaram o poder em 1979. O Irã era um país rico - lógico, pois quem deseja o poder em um país quebrado? - altamente ocidentalizado nas mãos do Xá Reza Pahlevi. Ostentava uma impressionante quantidade de mulheres lindas - fantásticas mesmo - a desfilar suas abundâncias nas ruas. Tinham dinheiro, deusas das Mil e Uma Noites nos braços e uma vida boa. E isso incomodava os Aiatolás, raça possuidora de evidente patologia contra o sexo oposto e a felicidade alheia, como um todo - tal qual os esquerdistas.

Em 1979 eu era um jovenzinho de 15 anos. Inocente, irresponsável, cujas únicas preocupações eram se meus artigos seriam aceitos no Pasquim ou JB, bem como pegar onda na praia, ler e planejar viagens de bicicleta. Eu era um guri quando os Aiatolás tomaram o poder.

Hoje, 2026, estes mesmos facínoras tem seu reinado aparentemente encurralado  - e eu sou já um velho.

E se eu fosse iraniano?

Teria gasto os melhores anos de minha vida tolhido por uma ditadura. Não poderia falar. Não poderia escrever. Não poderia sequer ter sexo, a depender de minhas escolhas ou hábitos. Uma vida inteira útil jogada no lixo, tal qual fiz com a minha no Brasil. 

A diferença é que aqui, se joguei tudo fora, foi por minhas escolhas. Eu decidi. Eu arrisquei. Não posso culpar ninguém. 

Mas no Irã eu poderia, pois teriam decidido por mim, escolhido por mim e até, quem sabe, ter sido castrado por meus desvairios sexuais ou condenado a 100 chibatadas diárias por minhas bebedeiras. 

Vejo hordas de imbecis babando o Ladrão de 9 dedos. Eles sabem muito bem que a esquerda, o "progressismo", tem como principal objetivo a implantação de ditaduras - mas fingem ser mentira. Esse povinho militante e das redes sociais quer, sim, uma ditadura. Os patifes creem piamente que ganharão cargos muito bons na mesma, por gratidão dos poderosos. De fato, ditaduras são ótimas. Para quem vive delas.

Um dia, entretanto, farão ou falarão alguma besteira. Algo que desagradará o Todo-Poderoso vigente. E cairão em desgraça - proscritos, conhecerão o outro lado da moeda. O lado podre.

E finalmente torcerão pelo fim da ditadura. 

Se derem muita sorte, este fim chegará com eles - e nós - ainda vivos. Vivos mas velhinhos. Decrépitos. Vida jogada fora.

E aprenderão, tarde demais,  que não se brinca com a liberdade - estamos sempre a uma simples eleição de perdê-la. 

Como já a perdemos, por aqui.

Só o martírio nos compra a dignidade de volta.

Nunca é fácil. 

Nunca é com eleições. 

Nunca é sem dor.

Nunca é sem sacrifício. 

Nunca é sem sangue.



Walter Biancardine





DOR E SUJEIRA -

Existe um local por aqui onde consigo acesso a internet. Isso é bom. Podem saber que estou vivo.

Sim, estou vivo. E repito o que sempre disse: quem vive de um trabalho intelectual tem por obrigação - obrigação - gastar o corpo em serviços braçais.

O cérebro seduz. A cabeça é traiçoeira. A inteligência envaidece.

E logo perdemos, facilmente, o contato com a realidade.

A suja, dolorida e porca vida real.

Essa imundície é a essência da lucidez. 


Walter Biancardine



MANGALARGA


Este é o manga larga marchador de um vizinho, grande amigo.

Chamo o bicho de Blasé pois, como todo cavalo de raça, é metido a besta e sofisticadissimo. 

Imagino que use ferraduras cromadas e, no lugar do bom e velho colonião, só coma ração enriquecida com Ômega 3, Magnésio e Tadalafila.

Lindo, mas muito metido.

Não quer nada comigo.


Walter Biancardine



OUTDOOR -

Não existem mais pessoas.
Existem outdoors.

De ideologias, neuroses, condições sociais, preferências e hábitos sexuais.

Roupas não são mais questão de praticidade ou elegância. 
Acessórios não são mais meros adereços.

Tudo é propaganda. 
Marketing.

Um "statement" ambulante.


Walter Biancardine



domingo, 1 de março de 2026

RETOMANDO DE ONDE PAREI

 


Olho o relógio. Meio dia e vinte e quatro. Eu seria capaz de jurar serem mais de 14h.

Acordo agora ainda noite. O dia amanhece em minutos. Fica longo.

Em poucas horas perdi a conta de quantos cumprimentos parei para dar. Em um local tão isolado, difícil entender como conheço tanta gente. 

O motorista do ônibus. A dona da banca de jornal que me vende cigarros. Fora o resto todo que anda por aqui, mais perto. Vizinhos, se é que posso chamar assim.

E tem os cavalos. Revi o meu Baião, à distância. Meu amigo boiadeiro, seu Jó, não trabalha mais na fazenda aqui ao lado.

Ele deixava Baião comigo e me dava queijos, frescos, lá produzidos. 

Sem condução e sem queijo.

Mas tenho agora um trio de cães, no lugar do sr. Wilson: TDAH, Cara Larga e Piranha, três cadelas que por aqui habitam e conversam comigo, na falta de orelhas e garrafas disponíveis. 

Me dei conta de que, aqui, conheço tudo e todos. Me dei conta que o Rio de Janeiro que me doía o coração era apenas uma lembrança.  Mais de um quarto de século se passou e o que eu sentia falta - pessoas, lugares e objetos - morreram, foram demolidos ou tiveram o lixo como destino - não necessariamente nesta ordem. Minhas saudades se resumiam a lembranças. 

E eu, burro, não enxerguei isso.

Apenas ainda não entendi como me enraizei tão rápido aqui na roça. 

Mas sei que tem algo a ver com a amplidão,  com horizontes infinitos, silêncio absoluto e animais como amigos sinceros.

Apenas preciso conciliar isso com eventuais visitas aos meus amigos Carlos Bara e Ricardo Preto.

Sem eles, as bebedeiras  não fazem sentido.

Sim, ando devagar porque já tive pressa.


Walter Biancardine

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

HORA DE PARTIR -

 


É hora de partir.
Não com trombetas,
mas com o barulho seco de uma porta que se fecha
e não pede desculpas.

Fui trazido até aqui por uma mentira.
Ela me vestiu de ilusão,
me chamou de nova chance,
e me reduziu a pó, no próprio chão.
Pior: distribuiu encargos como quem espalha cartas marcadas,
e inocentes pagaram a conta de um jogo que não queriam jogar.

Agora não.
Agora eu desfaço o nó com as próprias mãos.
Levo uma muda de roupa
e o que restou da minha espinha.

Volto para onde não deveria ter saído.
Sem medalhas, sem herança,
sem aplausos na estação.
Sem nada.

Mas com algo que dinheiro nenhum compra:
o alívio de deixar o mal para trás,
como quem larga um cadáver que nunca foi seu.


Walter Biancardine



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

ÚLTIMA SEMANA -

 


O tempo se esgota. É minha última semana aqui.
Depois é o limbo. Nada me espera.
Mudo de cidade, o Rio foi um engano.
E me tomou o pouco resto que eu tinha.

Alguns dirão que a cobra precisa trocar de pele.
Pouco me importa - jamais importou. Nunca elogiaram.
E saio sem nada.

Agora é mato.
Sem água, sem luz, sem internet.
Mas é um teto. Um generoso teto.

São meus últimos dias na rede. Depois, só Deus sabe.
Será um longo silêncio.
Voltarei a escrever com papel e caneta.
Voltarei ao que já vivi um dia.

Sim, já vivi isso.
Conheço essa vida.
Sei o que me espera.
E sei que não cabe na cabeça de ninguém.

É hora de ir.



Walter Biancardine




domingo, 22 de fevereiro de 2026

GANHOU O QUÊ? -


Algumas vitórias são mesquinhas.
Nada nos acrescentam, nada nos trazem ou proporcionam.
A alegria não está na conquista. Está na derrota dos outros.

Felicidade torpe, alegria mórbida.
É o que restou ao defunto que ainda consome.
Seu feito já não o satisfaz.

Ele nada ganha, mas os outros perdem.
E o prazer se torna o sofrimento alheio.
Apenas o riso cruel de ver os outros se foderem.


Walter Biancardine



COMO LÁGRIMAS NA CHUVA - Um pequeno adendo -


Elevamos alguém ao pedestal. O chamamos de herói.
Nele depositamos todas as nossas fraquezas.
Mas enxergamos falhas. Erros.
E já não nos serve. Execra-se.

Amamos o que supomos alma gêmea.
Torna-se cofre que guarda nossos segredos.
Nossas falhas. O que fizemos. Ou não fizemos.
Mas essa alma é humana - demasiadamente humana.
E já não nos serve. Se vai.

Reclamamos de idealistas. Fanáticos. Quase máquinas.
Apontamos sua falta de humanidade. Frieza.
Mas progredimos na carreira. Pouco importam colegas.
Amizades e trabalho não combinam.
E as pessoas já não nos servem. Esquece-se.

Nós, entretanto, somos humanos. Sentimos, sofremos, amamos.
E buscamos o ChatGPT para traçar poesias. Escrever contos.
Pintamos no Sora. Imagens lindas e tocantes.
Tal Inteligência já não é Artificial - é humana.
Nós é que não somos mais humanos.

E tudo se vai.
Como lágrimas na chuva.
Hora de morrer.

(Este é um pequeno acréscimo que talvez ajude a entender as várias interpretações possíveis em recente artigo que escrevi.)


Walter Biancardine



sábado, 21 de fevereiro de 2026

O FOGO E A CHUVA -

 


Eu vi coisas que vocês não querem ver.

Vi multidões ajoelhadas diante de homens medíocres só porque gritavam mais alto.
Vi bandeiras erguidas como se fossem relíquias sagradas – e rasgadas na semana seguinte para virar pano de chão.

Eu vi heróis nascerem às oito da manhã…
…e serem executados às cinco da tarde por aqueles mesmos que pediram sua salvação.

Vocês sempre querem um salvador.
Alguém para culpar quando falha.
Alguém para apedrejar quando não cumpre o milagre prometido.

Eu vivi para conhecer o ciclo.
É sempre o mesmo.

Primeiro, o entusiasmo – aquele calor juvenil, quase religioso.
Depois, a idolatria cega.
Então, a suspeita.
A decepção.
E por fim, o descarte.

Vocês não querem heróis.
Querem anestesia.

Querem alguém que carregue o peso da própria covardia enquanto vocês assistem de braços cruzados.
E quando esse homem fraqueja – porque todo homem fraqueja – vocês o transformam em prova de que não vale a pena acreditar em nada.

Eu vi líderes que pareciam montanhas.
Desmoronaram como areia molhada.
Vi jovens inflamados jurarem que mudariam o mundo…
e envelhecerem confortavelmente defendendo o mesmo sistema que juraram destruir.

O povo ama o fogo, mas tem medo da chama constante.
Prefere o clarão do fósforo – dramático, breve – ao calor disciplinado da fogueira que exige lenha, esforço, vigilância.

Eu sobrevivi aos entusiasmos coletivos.
Sobrevivi aos fanatismos que prometiam eternidade e duraram uma estação.
Sobrevivi às revoluções que terminavam em promoção de cargos.

Restou o silêncio.

Não o silêncio da derrota.
Mas o silêncio de quem aprendeu.

Os heróis não falham porque são fracos.
Falham porque são humanos – e vocês querem deuses descartáveis.

Não espero nada da multidão.
Tem memória curta e paixão volátil.
Hoje ela aclama.
Amanhã exige sangue.

Tudo que vi – todas aquelas marchas, discursos, promessas inflamadas —
vão desaparecer.

Como lágrimas na chuva.

Mas não por tragédia.
Por hábito.

Porque esquecer é mais confortável que enxergar.

E talvez…
talvez o maior heroísmo não seja salvar ninguém.

Seja resistir à tentação de ser adorado.


"Eu vi coisas que vocês, humanos, nem iriam acreditar. Naves de ataque pegando fogo na constelação de Órion. Vi Raios-C resplandecendo no escuro perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva.

Hora de morrer."

(Replicante Roy Batty, Blade Runner – Rutger Hauer)


Walter Biancardine



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

RINDO DE QUÊ?

Acadêmicos de Niterói - aquela, a do desfile pré eleitoral do Ladrão - foi rebaixada, ficou em último lugar em uma das piores classificações da história.

E daí?

E a nossa omissão, que levou Trump a retirar a Magnitski do Cabeça de Ovo? Vergonha pior.
Tivemos a faça e o queijo nas mãos. Não saímos de casa.
E a caminhada do Nikolas? Não deu em nada? O assunto agora é outro?
E as Havaianas? Acabou?
E a morte de Clezão?
E Bolsonaro sendo assassinado aos poucos, dia após dia?
Ninguém na rua?
Nada?

Não tenho onde cair morto.
Bebedeiras e ressacas sem fim.
Fumo feito um turco.
Aparência repugnante.
Mas ninguém tem moral para me criticar, pois sou o único que grita o que todos fingem não ouvir.
Continuem felizes.
É o melhor que fazem.

"- Quem está contigo na trincheira?
- E isso importa?
- Mais que a própria guerra."
(Ernest Hemingway)


Walter Biancardine



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ESCREVENDO COM SANGUE -

 


Creio que foi Nietzsche que disse ser preciso escrever com sangue para ter um bom livro.

Juntando tudo o que escrevi, dá uma hemorragia. Tudo o que disse, uma hemoptise. Toda a minha vida caberia em cerca de seis litros vermelhos.

Nunca escrevi ou vivi como sujeito passivo. Não. Tudo foi porque quis, pedi ou, no máximo, aceitei. Não há culpas alheias. Mas pensar assim é perigoso.

Você sai à rua e é assaltado. Quem mandou sair? Ninguém, você saiu porque quis. Então, no fim das contas, tudo é culpa minha? Não existe o mal alheio? Só os que estão em minhas ações e decisões?

A profissão que tenho, não escolhi: foi imposta pela minha vocação - mas eu poderia ter seguido outra carreira, algo que pagasse o aluguel. Não escolhi e me condenei à miséria perpétua. Culpa minha.

As mulheres que amei me deram um pé na bunda. A dor de uma cólica renal é fichinha perto disso. Desisti de amar? Não, persisti, mesmo sabendo ser quase inevitável quebrar a cara. Culpa minha.

Posso dizer que até minha existência é, na metade ao menos, culpa minha: um espermatozóide ganhou a corrida e cá estou.

Por quê diabos, então, o mundo tanto me irrita? por quê a hipocrisia me enoja? As trapaças? As perfídias? As fofocas de alcova? A imundície da vida como um todo? No fim das contas, nada disso pode ser mal. O mal só está em mim.

Eu escolhi nascer.
Eu escolhi escrever e ser miserável.
Eu escolhi amar e sofrer.
E concluí que me enojar com a vida é terceirizar minha culpa.

Ela é minha.
Sempre minha.
E minha morte também será.

Quem mandou eu não me cuidar?


Walter Biancardine



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

POR QUÊ NÃO O CHAT GPT NA FLIP?

 


Os dias passam. Abro o Facebook e leio algum artigo que achei interessante.
Gosto de plástico.
Insosso. Sem vida. Sem personalidade. Sem estilo – ou até sem a falta dele.
Aliás, há sim um estilo: chame de “Algorithmic design”, o estilo ChatGPT.
Natural como peitos de silicone. Como as caras de Ozempic. Ou as barbas e topetes dos “Conservadores de Instagram”.

Páginas ditas “sérias”, que tratam de assuntos ditos “sérios” – filosofia, política, sociologia ou história – já não se envergonham em ter o GPT como autor. E como redator, revisor e até diagramador.

Também serve de muletas para medíocres.
Toneladas de diplomas na parede e nenhum talento na alma.
Usam para escrever o que não conseguem. Ou não sabem.
E aparecem arrotando seus títulos e graduações.

Conheci gente assim.
Boa escrevendo. Num debate ao vivo, no YouTube, chamariam mamãe.

Cérebros na geladeira. Junto com os estudos acadêmicos.
Intuição, sentimentos e até opiniões jogados no freezer. O algoritmo é tucano: morde (educadamente) e assopra (socialmente), tentando parecer gente.
No máximo, um redator de O Globo.

O dom, o talento, a vocação não são mais necessários.
Sacrifício de espremer a cabeça em vácuo criativo? Cabular almoço, janta e rua com amigos? Noites sem dormir despejando ideias compulsivas?
Maços e maços de cigarro com litros de café?
Pra quê?
Tião da Obra ou MC da Pedra podem discorrer sobre Schoppenhauer.
Mudam a roupa. Deixam barba. Foto no Novo Leblon ou na Paulista.
Pronto.

E tudo sai com o mesmo gosto.
Sanduíche do Mc Donald’s.
Gostoso mas sem nenhum tempero.
Sem sinal de vida.

Artigos, ensaios ou mesmo respostas em comentários nas redes.
Estudos, teses e até romances, livros.
Tudo com o GPT na autoria.

A Feira Literária de Paraty (FLIP) não sabe o que está perdendo.
Um grande autor.
Não bebe, não fuma e não toma café.
Mas escreve feito uma máquina!



Walter Biancardine



sábado, 14 de fevereiro de 2026

DOENÇA ESTRANHA, DOENTE ESQUISITO -

 


Posso falar de solidão. Posso falar de solitude. Posso falar do vazio imposto ou do escolhido. Reclamei de um, me arrependi de outro. Mas o efeito é o mesmo, à longo prazo ou em horas difíceis.

Gosto de estar sozinho. Mesmo amando, existe o momento de estar só. É uma escolha cômoda, se a mulher compreende. Entretanto, na hora do aperto, a vergonha de pedir colo é grande - e a solitude vira solidão num passe de mágica.

É a hora do arrependimento.

Já fiquei sozinho. Isolado do mundo. Estou em vias de voltar a estar assim e não tenho medo. Conheço o terreno, sei andar na escuridão.

Mas tem horas em que quero companhia da mulher amada - e ela não está. Tem horas em que gostaria de beber com algum amigo, e ele está longe. Com sorte, a solidão vira reflexão. Com mais sorte ainda, transcendência. E, se as musas ajudarem, escrevo um livro, um ensaio ou mesmo um artigo.

Bom ter esse terapeuta.
Jamais deixou que eu me vendesse.

Mesmo em dias melhores, tive meu escritório. Meu canto. Meu momento à sós comigo mesmo. Se a vida me sorrir novamente um dia, manterei isso. Porque preciso da solidão, ela é genética. Cresci assim, vivi assim e aprendi que é uma boa companhia.

Que eu tenha juízo de, seguindo a vida, saber equilibrar a atenção solitária com a dedicação à mulher amada - sem a primeira, serei um pateta, fútil e raso. Minha cota de decepções está cheia, mulheres não merecem isso.

Por outro lado, sem a segunda, a solitude será sempre solidão.
Essa velha conhecida.

Nunca escondi o que sou. Nunca me vendi para me ajustar às regras dos outros.
Nunca mudei. Décadas de vida.
Seja escolha ou loucura, me orgulho disso.

Quantos podem dizer o mesmo?


Walter Biancardine



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

POR ISSO PAREI -

 


Tudo o que se passou, do mensalão à prisão de Bolsonaro; da perfídia de FHC ao cachorro Orelha ou a caminhada do Nikolas - tudo foi esquecido.

Ninguém quer um país melhor. Querem novos escândalos. Um por dia, como capitulos de novela. E novelas param no carnaval.

Agora entendo os criminosos que nos governam. Eles estão certos.
Podem roubar. Podem tirar. Taxar. Podem matar. Ninguém liga.

Aliás, o povo até gosta: é o novo capítulo da novela. Assim podem esbravejar nas redes sociais e se mostrar. Se enrolar na bandeira e ir nas passeatas. Se fotografar pro Instagram. Levar o cachorrinho e a avó. E terminar na churrascaria.

Mas não no carnaval.

Onde os "conservadores de Instagram"? Os que só trepam com fins reprodutivos? Os que nem veem mais TV aberta? Os que juram ir à missa todo domingo?

A hipocrisia me enoja. Por isso bebo o quanto quiser. Fumo feito um turco. Olho bundas nas ruas e escrevo o que penso. Ninguém tem o direito de se ofender e dizer "mas eu não sou assim".

Se eu juntar todos os que dizem "não ser assim", teríamos gente para invadir o Congresso e intimidar os canalhas.

É tudo mentira. Tudo hipocrisia.

Mas é carnaval. Viajar. Torrar na praia. Esquecer o que nunca lembraram.

O problema do Brasil nunca foi ideológico: sempre foi falta de caráter.

Minha, inclusive.

Ao menos não escondo.

Mas é carnaval.


Walter Biancardine



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SALDO DISPONÍVEL -

 


Um casamento de quinze anos acabou. 

Me custou um frete para levar minhas coisas.

Fui para o mato.


Acreditei ter saído do naufrágio. Me mudei para uma casa.

Precisei fazer quatro viagens. Carro emprestado.

Minhas coisas ocupavam lugar.


Saí dessa casa e vim para o Rio de Janeiro – chance de ouro?

Dois carros para trazer tudo.


Agora volto para o mesmo mato.

Apenas uma mochila nas costas.


Seis décadas de vida.

Me renderam uma muda de roupa.

Toalha de banho. Escova de dentes.


Nem travesseiros nem panelas.

Nem livros.

Nem lembranças.

Nada.


Sou a encarnação do Nirvana.

Não reclamo. Só registro.


Vida que segue.



Walter Biancardine





terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

RECALCULANDO ROTA

 


Meu currículo é uma coleção de erros.
Não tem diploma, só cicatriz.
Errei distraído. Errei achando que era esperto.
Errei certo, errei bonito, errei até cansar.
É assim que a vida ensina: repetindo a surra.

Errei ao voltar pro Rio de Janeiro.
Vinte e cinco anos depois, achei que o passado ia me reconhecer.
Não reconheceu.
Cidades não têm memória – só dentes.

Não vejo drama nisso.
Errar não é vergonha.
Vergonha é fingir que não errou.
Quem se espatifa aprende.
Quem vence demais vira burro elegante.
Vitória não ensina nada.
Erro traz a vida real – à força.

Ninguém é velho demais pra cair num conto barato.
Eu caí.
Outros, mais velhos, caíram também.
A diferença é que eles juram que estão de pé.
Fracasso, ao menos, ensina a hora de fechar a porta e ir embora.
Agora, sem olhar pra trás.

Nunca tive problema com canalhas.
Convivo bem com qualquer um.
Antes eu sentia o cheiro de longe.
Desta vez demorou. Os piores ratos usam religiões.
Hipocrisia.
A idade não nos ensina tudo sobre todos.
Só reduz a paciência.

Todo mundo pode errar.
Todo mundo pode ser enganado.
A maioria prefere mentir pra si mesma.
É mais confortável.

Estou empacotando as coisas.
Volto para onde saí, tarde demais.
Não é fuga.
É correção de rota.
Uma última chance de continuar inteiro.

Vai ser duro.
Mais duro do que tudo que já vivi.
Mas sem carregar cruz alheia.
Sem salvar ninguém.
Sem pedir aprovação.

Vou viver quieto.
Escrever.
Pagar minhas contas.
Dormir em paz.

E isso –
isso não tem preço.


Walter Biancardine



domingo, 8 de fevereiro de 2026

AOS SESSENTA, A MENTIRA SE APOSENTA -


 

Chegar aos sessenta anos não é o começo da decadência.
É o fim do teatro.
As luzes se apagam, o público vai embora, e finalmente sobra só você, sentado numa cadeira dura, com a coluna rangendo e a cabeça funcionando melhor do que nunca.

Não devo mais explicações a ninguém.
Se quiser, dou contexto.
Justificativa, nunca mais.
Quem cobra explicação geralmente não quer entender - quer mandar.

Os fatos já não me atormentam.
Eles existem, pronto.
Eu observo, mastigo, engulo seco
e cuido da única coisa que ainda manda em mim:
a reação.

Dizer “não” virou algo simples, quase elegante.
Sem culpa, sem drama, sem bula moral.
Não sou egoísta.
Sou seletivo.
E quem confunde uma coisa com a outra sempre foi um parasita educado.

Conversas inúteis?
Eu simplesmente me levanto e vou embora - mesmo sentado.
Foi assim com a política.
Hoje só falo quando vale a pena sujar as mãos.
O resto é barulho de fundo para quem ainda precisa se sentir importante.

Ansiedade pelo futuro?
Nenhuma.
Ele não é tão longo
nem tão interessante assim.
A vantagem da idade é saber que o relógio não blefa.

Não sigo modas, tendências, costumes ou essas coreografias morais de rede social.
Sou o que sou.
E ponto final costuma encerrar bem as frases.

Perfeição?
Nem na escrita.
Texto perfeito é cadáver embalsamado.
Prefiro frases mancando, mas vivas.

O corpo não é mais o mesmo.
Claro que não.
Mas aguentou bebida, noites mal dormidas, escolhas erradas e mulheres complicadas.
Não sinto vergonha - sinto gratidão.
Foi um bom cavalo de guerra.

Adiar conversas?
Nunca mais.
O “eu te amo” que ficou preso na garganta agora sai rouco, mas sai. Sem vergonha. Sem pudores.
Não tenho mais tempo para covardia emocional.

Aprendi a reconhecer minha ignorância.
Não sei - e daí?
Vergonha é fingir que sabe.
Estudar ainda é uma das poucas coisas decentes que sobraram.

Também aprendi a não esperar nada de ninguém.
Sou um velho.
Velhos são outsiders por definição.
E, para dizer a verdade,
há um certo prazer em não pertencer a porra nenhuma.

A velhice é a guerra civil da existência.
Tudo que você foi começa a brigar com o que você ainda é.

Mas uma coisa ninguém tira:
experiência não é opinião.
É cicatriz.


Walter Biancardine



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

COLEGAS -


Terça-feira.
Cabo Frio e a bebedeira da noite anterior ainda grudadas em mim como cheiro de cerveja velha.
A cabeça latejava.
Não era só ressaca, era cobrança também.

Sentei numa padaria qualquer.
Café forte. Gosto de palha de milho.
Aspirina demais.
O tipo de manhã que não promete nada e cumpre.

Diante das prateleiras, duas mulheres conversavam.
Uma ofereceu pão de queijo.

- Quer?

A outra fez cara de santa recém-convertida.

- Tô de regime. Quero ficar gostosa.

Falou sorrindo.
E estava quase lá. Era potável.
Bunda firme, peitos que não pediam desculpa, cintura – um milagre estatístico.
A outra era mais larga, mais antiga, mais cansada. Uns vinte quilos a mais de sabedoria.
Olhou de cima a baixo e deu um sorriso postiço.

- Quer voltar pro maridinho, é?

A frase caiu pesada, como saco de farinha no chão.
A gostosa não recuou.

- Já voltei.

Aquilo doeu.
Deu pra ver.
A gorda sentiu.
Sentiu fundo.
Abaixou o queixo e cuspiu:

- Foi a pior coisa que você fez.

Pronto.
Amor feminino dura até a primeira comparação.
Depois vira campeonato.
Sem medalha.
Só ressentimento.

É abraço com faca no bolso.
Admiração misturada com contabilidade.
Todo elogio vem com juros.

A verdade é simples e feia:
a felicidade do outro incomoda.
Não inspira. Humilha.
Ninguém posta a alegria alheia no Instagram.
Só a própria farsa bem iluminada.

A gorda respirou fundo, ajeitou o avental e soltou:

- Tô sozinha há sete meses. Nunca fui tão feliz.

Mentira dita com dentes.
Daquelas que precisam ser repetidas até convencer o espelho.

Depois começaram a falar mal de todo mundo.
Patrão, colega, cliente, vida.
Especialmente dos que estavam de folga.
Os ausentes sempre apanham mais.

Enquanto isso, três meninas em silêncio carregavam caixas.
Não opinavam.
Não sorriam.
Trabalhavam.
Essas aprendem cedo.

Fiquei olhando, mastigando o pão na chapa com café ruim.
Padarias, colegas e amizades podem ser, às vezes, uma radiografia de todos nós.

Engoli a última aspirina.
Paguei.
Levantei.

A cabeça ainda doía.
Mas não era mais só a ressaca.
Era o mundo mesmo, funcionando normalmente.

Entrei no ônibus e voltei pro Rio de Janeiro.


Walter Biancardine





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

BEBEDEIRA À LA CARTE -

 


Voltar a Cabo Frio depois de uma despedida tão estranha é como reencontrar uma ex que não envelheceu bem, mas que ainda sabe exatamente onde te acertar. A cidade continua ali, quente, salgada, meio cínica, olhando pra você como quem diz: “então foi isso que você virou?”. Não respondi. Nunca respondo. Cidades não ligam pra explicações.

Cheguei numa segunda-feira para resolver problemas de documentos meus. Dormi na casa do Carlos Bara. Amizade de quarenta e quatro anos não tem protocolo. Você entra, senta, abre uma garrafa e o tempo começa a andar pra trás. A casa, velha e gasta, cheirava a vida vivida e não a essas porcarias assépticas de apartamento alugado por gente que acha que minimalismo é personalidade. Bebemos. Porque era isso que tinha que ser feito. Beber não resolve nada, mas ajuda a lembrar do que importa - o que já é alguma coisa.

No meio da bebedeira, como uma praga inevitável ou uma bênção disfarçada, chegou o Ricardo Preto. Irmão do Carlos. Chegou com sede, que é a única credencial respeitável num encontro desses. A partir daí, a noite perdeu qualquer chance de dignidade. Três homens velhos demais pra mentir e novos demais pra desistir completamente. Garrafas vazias começaram a se multiplicar como decisões erradas na juventude.

A vida ensina tipos de bebedeira, mas nunca avisa qual delas você está tomando até ser tarde demais. Tem as bebedeiras fatais. Essas são clássicas. Pé na bunda, demissão, humilhação pública, a sensação de que o mundo acabou e ninguém te avisou. Você bebe pra apagar. Não apaga. Só borra a imagem. No dia seguinte, tudo volta mais nítido e mais cruel.

Tem as filosóficas, piores ainda. São aquelas em que você bebe porque pensar sóbrio virou um esporte radical. Você olha pra vida, olha pra si mesmo, e conclui que ninguém ali merece estar consciente. Nessas, o álcool vira muleta intelectual. Você acha que está refletindo, mas só está rodopiando dentro da própria miséria com frases bonitas.

Mas aquela noite não era isso. Aquilo era uma bebedeira esclarecedora. E essas são as mais perigosas, porque não aliviam nada. Elas te acordam no meio do incêndio e ainda te entregam um espelho.

Em algum ponto da madrugada - sempre tem esse ponto - a verdade apareceu sem pedir licença. A decisão errada tinha nome, endereço e CEP: Rio de Janeiro. Aquela cidade histérica, viciada em si mesma, onde todo mundo está sempre atrasado, cansado e se achando especial por isso. O Rio não é casa. É um vício caro. Você mora lá, mas nunca pertence. Está sempre de passagem, mesmo ficando anos.

Cabo Frio, não. Cabo Frio é suja, simples, repetitiva - como tudo que seduz. Ali eu tinha amigos. E amigo não é quem comenta postagem, não é quem manda áudio motivacional. Amigo é quem te oferece um sofá ruim, um copo mal lavado, um prato de picadinho, a liberdade de ficar em silêncio sem constrangimento e ainda te manda à merda se ficar de chororô.

A vida adulta é um esquema bem montado pra te afastar dos amigos. Não de uma vez. Vai empurrando devagar, com trabalho, dificuldades a vencer, supostas responsabilidades. Quando você vê, está cercado de gente funcional e vazio de gente essencial. E o idiota aqui - eu - ainda achou que isso era evolução.

Dormir naquela casa foi um tapa educado. Acordar foi um soco, junto com a ressaca. Porque ali, naquele pernoite banal, senti algo que não sentia há anos: estar em casa. Não a casa física - essa é irrelevante - mas aquela em que você não precisa representar, justificar, explicar por que fracassou ou por que ainda insiste.

Fui embora no dia seguinte, de ressaca, com a cabeça pesada e o coração estranhamente sóbrio. Bebedeiras esclarecedoras fazem isso: deixam o corpo ruim e a consciência afiada. Elas não te dão respostas novas. Só te obrigam a encarar as antigas que você vinha evitando.

Cabo Frio ficou pra trás de novo. Mas amigos não ficam para trás. Eles ficam apesar de você. E talvez essa seja a única coisa realmente sólida que a vida oferece: pessoas que atravessam décadas, bebedeiras e decisões idiotas sem pedir nada em troca.

O resto é cenário.
O resto é cidade grande.
O resto é desculpa.

E disso, meu amigo, eu já bebi o bastante.


Walter Biancardine


domingo, 1 de fevereiro de 2026

VOLTANDO A MIM -

 


O fracasso pertence aos corajosos, por insistirem em respirar após o abismo.

A vida acontece em surtos, avalanche de pancadas misturadas a momentos de felicidade absurda, e nesse redemoinho se desenrolam todos os dramas, todas as dúvidas, se clamam vitórias ou choram-se derrotas.

Mais de quarenta anos gastei nesta roda-viva, me perdi em filosofias ou questões que transcendiam a porca vida de sempre; me senti forte o bastante para mudar o mundo, acreditei ser minha voz a verdade estampada em papel. E não me arrependo, pois vi que o inimigo é fraco, é falho e é burro – mas também aprendi que somos piores que ele: eu, você, nossos pais, filhos, netos e avós. Ninguém escapou da omissão e do medo, travestidos de prudência.

O preço me saiu caro, mas não escrevo para lamentar e, sim, para estampar a decisão de que está na hora de abandonar o personagem – metade de minha autoria, metade construída por outros – e ser apenas e tão somente eu mesmo.

Sim, esta criatura ambivalente e contraditória, que se embebeda com Bukowski e transcende com Tomás de Aquino; que deposita sua fé na lógica de Aristóteles mas mergulha no pessimismo de Schoppenhauer;

um niilismo que deixou cicatrizes em meu corpo e alma, rodeado pelo cinismo da vontade de apreciar máscaras e falsidades alheias;

a morbidez de enxergar o personagem vitorioso que cada um estampa em suas vidas sociais, contrastando com a angústia de saber-se uma farsa ao trancar-se no banheiro.

Sim, este sou eu; alguém que, um dia, foi amado e odiado.

E um homem que jamais despertou amores e ódios não pode, sequer, dizer-se como tal – é uma vida em branco.

Este lixo maravilhoso, esta excrescência divina, este parvo com o dom de escrever, sentir, intuir e enxergar – para logo depois jogar tudo fora na imundície cética – este, ou isto, sou eu. E não mais tratarei de política, políticos, tribunais ou causas patrióticas, pois ninguém jamais se levantou do sofá – eu, inclusive.

A partir de agora mudo este perfil. A política, o Brasil e o mundo são causas perdidas ao menos por meio século, e isso não mais me interessa. O que me diz respeito são as pessoas, a alma humana, a farsa ou heroísmo embutidos em cada um; o patético da vida e a glória do fracasso – sim, pois da vitória não se extraem lições.

Sento no bar, bebo um trago e tudo o que escrevo é o que vejo, o que sinto e, até, qualquer delírio filosófico que perturbe a santa paz de um atormentado que, finalmente, reconhece seu tamanho, lugar e função.

E o amigo leitor e seguidor terá toda a liberdade de aqui continuar ou ir embora, pois não o julgarei.

Eis que não é outra a essência da vida: partidas e chegadas.


Walter Biancardine


SENTIDO OBRIGATÓRIO

Não faz sentido exigir sentido naquilo que nunca nos prometeu ter: o universo, a vida, o amor.

Não busque respostas.
Viva a pergunta.


Walter Biancardine

SÓ ISSO?

Ninguém cai, colapsa ou enlouquece por uma só razão.

A vida é metódica, detalhista e perfeccionista, pingando a cada dia as gotas do ácido que corroerão nossa estrutura e nos farão desabar.

E quando isso acontecer, quando finalmente você disser que é o bastante e cair no abismo, sempre haverá alguém para se admirar e perguntar, quase debochado:

- Mas é só por isso?


Walter Biancardine

TEMPO

Todo mundo olha o celular.
Espiam as redes, até veem as horas;
Só não enxergam o tempo.
Ele passou e você não viu.

Walter Biancardine

LINHAS TORTAS -

Os erros que cometi, a vida que sempre levei e até as mulheres que amei me destruíram. Mas sem isso eu não teria escrito uma linha sequer.

Não, não quero me curar.

A dor é a mãe da criação, o cotidiano da vida, e a felicidade nunca foi objetivo.

É sempre só um momento.


Walter Biancardine

GRITE BAIXO -

Gritar contra o mundo é perder tempo. O verdadeiro ato de rebeldia, de oposição ao sistema, é continuar sendo você mesmo em silêncio - escrever o que ninguém quer ouvir, viver como ninguém ousa viver. O sistema não sabe lidar com quem não depende dele.

O mundo não persegue o mal, persegue o livre. E o livre incomoda porque é imprevisível: não está à venda, não é convencido nem manipulado, e toda essa maldita engrenagem depende da previsibilidade para existir.

A liberdade de um homem é insulto mortal à sociedade controlada, e por isso homens livres são menosprezados, ridicularizados, sabotados e excluídos porque sua simples presença expõe o quanto os outros vivem de fachada.

E o preço da liberdade é o exílio.


Walter Biancardine