quinta-feira, 5 de março de 2026

EU, SONSO -

 Recentemente repeti uma verdade antiga para mim: quem se dedica ao trabalho intelectual precisa, sempre, do trabalho braçal como complemento - ou perderá contato com a imundície a qual chamamos "realidade".

É algo que, estou seguro, é uma verdade incontestável. 

Mas sou um hipócrita e não a sigo assim, tão na risca.

Recentemente ajudei um vizinho a destelhar sua varanda, coberta por velhas e podres Eternit's. 

Após isso, instalamos as novas e levamos as antigas para um novo e suntuoso chiqueiro que ele está construindo - certamente para porcos de alta classe, bacons de elite que não se satisfazem com nada menos que a melhor das imundícies. 

Lá, ajudei a instalar as pesadas peças de fibrocimento e agora posso responder onde está minha hipocrisia: se encontra no fato de que estou morto. Dolorido. Enferrujado. Decrépito. 

Deixei o Rio de Janeiro com apenas uma mochila e duas bolsas. E por ter gasto o dia as carregando, cheguei aqui em Cabo Frio fisicamente destroçado. E veio o chiqueiro, para piorar minha situação. 

Sim, é fácil recomendar, pregar, falar.

Difícil é fazer.

Não sou mais um garoto. 62 anos já me pesam nas costas e não possuo mais as antigas forças e resistência. 

Tudo dói. Tudo range. Tudo estala.

Mas, ao menos, tento.

Se o amigo leitor é um trabalhador intelectual reclamando que tem de ir ao mercado e trazer as sacolas até sua casa, fica a dica: você já morreu.

Desmorra antes que seja tarde, ou suas criações estarão cada vez mais distantes da realidade.

Levanta, Lázaro!


Walter Biancardine



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