Recentemente repeti uma verdade antiga para mim: quem se dedica ao trabalho intelectual precisa, sempre, do trabalho braçal como complemento - ou perderá contato com a imundície a qual chamamos "realidade".
É algo que, estou seguro, é uma verdade incontestável.
Mas sou um hipócrita e não a sigo assim, tão na risca.
Recentemente ajudei um vizinho a destelhar sua varanda, coberta por velhas e podres Eternit's.
Após isso, instalamos as novas e levamos as antigas para um novo e suntuoso chiqueiro que ele está construindo - certamente para porcos de alta classe, bacons de elite que não se satisfazem com nada menos que a melhor das imundícies.
Lá, ajudei a instalar as pesadas peças de fibrocimento e agora posso responder onde está minha hipocrisia: se encontra no fato de que estou morto. Dolorido. Enferrujado. Decrépito.
Deixei o Rio de Janeiro com apenas uma mochila e duas bolsas. E por ter gasto o dia as carregando, cheguei aqui em Cabo Frio fisicamente destroçado. E veio o chiqueiro, para piorar minha situação.
Sim, é fácil recomendar, pregar, falar.
Difícil é fazer.
Não sou mais um garoto. 62 anos já me pesam nas costas e não possuo mais as antigas forças e resistência.
Tudo dói. Tudo range. Tudo estala.
Mas, ao menos, tento.
Se o amigo leitor é um trabalhador intelectual reclamando que tem de ir ao mercado e trazer as sacolas até sua casa, fica a dica: você já morreu.
Desmorra antes que seja tarde, ou suas criações estarão cada vez mais distantes da realidade.
Levanta, Lázaro!
Walter Biancardine
Nenhum comentário:
Postar um comentário