Voltar a Cabo Frio depois de uma despedida tão estranha é como reencontrar uma ex que não envelheceu bem, mas que ainda sabe exatamente onde te acertar. A cidade continua ali, quente, salgada, meio cínica, olhando pra você como quem diz: “então foi isso que você virou?”. Não respondi. Nunca respondo. Cidades não ligam pra explicações.
Cheguei numa segunda-feira para resolver problemas de documentos meus. Dormi na casa do Carlos Bara. Amizade de quarenta e quatro anos não tem protocolo. Você entra, senta, abre uma garrafa e o tempo começa a andar pra trás. A casa, velha e gasta, cheirava a vida vivida e não a essas porcarias assépticas de apartamento alugado por gente que acha que minimalismo é personalidade. Bebemos. Porque era isso que tinha que ser feito. Beber não resolve nada, mas ajuda a lembrar do que importa - o que já é alguma coisa.
No meio da bebedeira, como uma praga inevitável ou uma bênção disfarçada, chegou o Ricardo Preto. Irmão do Carlos. Chegou com sede, que é a única credencial respeitável num encontro desses. A partir daí, a noite perdeu qualquer chance de dignidade. Três homens velhos demais pra mentir e novos demais pra desistir completamente. Garrafas vazias começaram a se multiplicar como decisões erradas na juventude.
A vida ensina tipos de bebedeira, mas nunca avisa qual delas você está tomando até ser tarde demais. Tem as bebedeiras fatais. Essas são clássicas. Pé na bunda, demissão, humilhação pública, a sensação de que o mundo acabou e ninguém te avisou. Você bebe pra apagar. Não apaga. Só borra a imagem. No dia seguinte, tudo volta mais nítido e mais cruel.
Tem as filosóficas, piores ainda. São aquelas em que você bebe porque pensar sóbrio virou um esporte radical. Você olha pra vida, olha pra si mesmo, e conclui que ninguém ali merece estar consciente. Nessas, o álcool vira muleta intelectual. Você acha que está refletindo, mas só está rodopiando dentro da própria miséria com frases bonitas.
Mas aquela noite não era isso. Aquilo era uma bebedeira esclarecedora. E essas são as mais perigosas, porque não aliviam nada. Elas te acordam no meio do incêndio e ainda te entregam um espelho.
Em algum ponto da madrugada - sempre tem esse ponto - a verdade apareceu sem pedir licença. A decisão errada tinha nome, endereço e CEP: Rio de Janeiro. Aquela cidade histérica, viciada em si mesma, onde todo mundo está sempre atrasado, cansado e se achando especial por isso. O Rio não é casa. É um vício caro. Você mora lá, mas nunca pertence. Está sempre de passagem, mesmo ficando anos.
Cabo Frio, não. Cabo Frio é suja, simples, repetitiva - como tudo que seduz. Ali eu tinha amigos. E amigo não é quem comenta postagem, não é quem manda áudio motivacional. Amigo é quem te oferece um sofá ruim, um copo mal lavado, um prato de picadinho, a liberdade de ficar em silêncio sem constrangimento e ainda te manda à merda se ficar de chororô.
A vida adulta é um esquema bem montado pra te afastar dos amigos. Não de uma vez. Vai empurrando devagar, com trabalho, dificuldades a vencer, supostas responsabilidades. Quando você vê, está cercado de gente funcional e vazio de gente essencial. E o idiota aqui - eu - ainda achou que isso era evolução.
Dormir naquela casa foi um tapa educado. Acordar foi um soco, junto com a ressaca. Porque ali, naquele pernoite banal, senti algo que não sentia há anos: estar em casa. Não a casa física - essa é irrelevante - mas aquela em que você não precisa representar, justificar, explicar por que fracassou ou por que ainda insiste.
Fui embora no dia seguinte, de ressaca, com a cabeça pesada e o coração estranhamente sóbrio. Bebedeiras esclarecedoras fazem isso: deixam o corpo ruim e a consciência afiada. Elas não te dão respostas novas. Só te obrigam a encarar as antigas que você vinha evitando.
Cabo Frio ficou pra trás de novo. Mas amigos não ficam para trás. Eles ficam apesar de você. E talvez essa seja a única coisa realmente sólida que a vida oferece: pessoas que atravessam décadas, bebedeiras e decisões idiotas sem pedir nada em troca.
O resto é cenário.
O resto é cidade grande.
O resto é desculpa.
E disso, meu amigo, eu já bebi o bastante.
Walter Biancardine

Nenhum comentário:
Postar um comentário